Editorial

N.º 14 - outubro 2017

É com muita satisfação que apresentamos o número temático “Sociologia e intervenção local: testemunhos e debates”, uma vez que esta publicação resulta do cumprimento simultâneo de dois dos objetivos a que a atual Direção da APS se propôs, para o biénio 2016-18.

Por um lado, propusemo-nos dinamizar a revista SOCIOLOGIA ON LINE, contando, entre outras alterações de fundo (como a sua inserção em bases indexadas), com a organização de números temáticos. Por outro lado, tínhamos como objetivo trabalhar ativamente no “lançamento de pontes” com os sociólogos fora da academia, dando visibilidade a atividades e projetos desenvolvidos fora das Universidades, permitindo a partilha de boas práticas, mas também de dúvidas e inquietações, aumentando o conhecimento comum dos desafios que os sociólogos fora da academia enfrentam nos seus contextos de trabalho e nas suas carreiras profissionais. Ora os artigos que agora aqui se apresentam resultaram de comunicações apresentadas no encontro “Sociologia e Intervenção Local” realizado na Biblioteca de Marvila, Lisboa, em abril de 2017, e que contou com a participação de mais de 100 sociólogos que exercem a sua atividade em contextos locais.

Permitindo a partilha de projetos e experiências concretas entre sociólogos, dentro e fora da academia, e contando também com a participação de profissionais não sociólogos (que nos apresentaram perspetivas diferentes sobre o nosso trabalho e sobre os contributos que damos às equipas e organizações locais em que trabalhamos), este encontro constituiu um momento de reflexão da sociologia portuguesa sobre ela própria.

Convidamos, assim, os leitores a conhecer alguns dos projetos então apresentados, reorganizados pelos seus autores em forma de artigos que cumprem os requisitos do sistema de controlo de qualidade da revista e que constituem simultaneamente registos e produtos da reflexão ali desenvolvida.

Este número inicia-se com o trabalho de Marcos Santos e Maria da Saudade Baltazar intitulado “O papel de sociólogos em projetos de intervenção social: a experiência de docentes e investigadores da Universidade de Évora ao longo de vinte anos”. Neste artigo, os autores partem de uma descrição das atividades de sociólogos em projetos de intervenção social, para questionarem os limites da formação sociológica para o exercício destas funções e proporem alterações concretas para um melhor desempenho dos futuros profissionais.

O número prossegue com o texto “Coordenadas GPS: um instrumento de avaliação” de Cristina Nascimento e Luís Capucha. Neste artigo os autores propõem um instrumento para a avaliação de projetos locais de desenvolvimento social que conjuga indicadores quantitativos e qualitativos. Este trabalho é particularmente relevante dado o seu potencial para a capacitação dos vários intervenientes nos projetos de intervenção local: técnicos, instituições e comunidades de pertença.

Em “Os públicos-participantes: o teatro vai ao bairro”, Vera Borges dá a conhecer o seu trabalho de observação etnográfica dos públicos participantes e do contexto de criação do projeto “Assembleia”, de Rui Catalão, dinamizado pelo Teatro Maria Matos com habitantes do bairro de Marvila (entre outros bairros). A autora analisa o processo de co-criação, discutindo em que medida este é influenciado pela multiplicação de práticas artísticas colaborativas, e refletindo sobre o resultado deste projeto para os artistas, intervenientes e populações locais.

Partindo de uma análise e da génese dos fenómenos de construção ilegal dos antigos bairros clandestinos de Lisboa, o artigo de Álvaro Fernandes sobre “Planear a cidade com as pessoas” explica o modelo de intervenção social e urbano desenvolvido pela Divisão de Reconversão das Áreas Urbanas de Génese Ilegal do Departamento de Planeamento da Câmara Municipal de Lisboa. Este modelo de intervenção aplicado nos antigos bairros clandestinos tem como principal objetivo a reconversão destas áreas urbanas acautelando possíveis impactos sociais não desejados decorrentes desse mesmo processo de intervenção. Salienta-se o carácter inovador deste modelo de gestão e intervenção pela contribuição e participação dos residentes no processo de reconversão/requalificação do espaço urbano.

O artigo de Filomena Machado, Sandra Saúde e Sandra Lopes, reflete, igualmente, sobre a importância das lógicas de participação e envolvimento comunitário. Desta feita, em análise encontramos “O Plano Estratégico Educativo Municipal enquanto instrumento de regulação da política educativa local: o caso de Alvito”. Assente nas lógicas metodológicas e teóricas da sociologia da acção pública, este artigo analisa o Plano Estratégico Educativo Municipal de Alvito (PEEMA) como instrumento de ação pública e como exemplo de como o envolvimento comunitário é crucial no planeamento e elaboração de políticas educativas que possam contribuir para dotar os munícipes, em todas as suas faixas etárias, de recursos, capacidades e recursos educacionais mais eficazes.

O texto “Pesca artesanal açoriana: oportunidades de investigação sociológica e seus contributos para a gestão sustentável”, de autoria de Ana Fraga e Lucinda Jordão, realiza uma análise crítica dos potenciais contributos dos cientistas sociais, em geral, e dos sociólogos, em particular, em primeiro lugar, para uma compreensão alargada das problemáticas associadas à sustentabilidade da pesca artesanal a partir da elaboração de diagnósticos compreensivos deste tipo de atividades piscatórias, e em segundo lugar, enquanto potenciais elos de comunicação entre os diferentes participantes nestes processos.

Este número encerra com o artigo de Hélia Bracons,“Metodologia do atendimento integrado: uma experiência de intervenção local” onde se parte de uma descrição de procedimentos no atendimento e acompanhamento integrado, para se realizar uma reflexão sobre as suas potencialidades e os seus constrangimentos.

Uma última nota para sublinhar que este número temático e o Encontro que lhe deu origem, potenciam as interações entre a sociologia que se faz “no terreno” e a que acontece dentro da academia, o que, em nosso entender, é muito enriquecedor para a sociologia portuguesa. É neste sentido que pretendemos continuar a trabalhar.

Autores: Alexandra Aníbal, Ana Ferreira, Dalila Cerejo e Joana Azevedo

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2018-03-28T16:09:26+00:00