Editorial

Editorial

Nº 17 - outubro 2018

Ana Romão
Academia Militar e Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA),
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa,
Avenida de Berna, 26 C, 1069-061, Lisboa, Portugal

Luís Baptista
Departamento de Sociologia e Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA)
da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa,
Avenida de Berna, 26 C, 1069-061, Lisboa, Portugal

Ana Ferreira
Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA),
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa,
Avenida de Berna, 26 C, 1069-061, Lisboa, Portugal

O presente número temático da SOCIOLOGIA ON LINE, Revista da Associação Portuguesa de Sociologia, decorre dos intercâmbios que se vêm consolidando entre as associações de sociologia do sul da Europa e no âmbito dos quais se lançou em 2017 uma call for papers conjunta envolvendo, além da SOCIOLOGIA ON LINE, as revistas da Federação Espanhola de Sociologia (RES — Revista Española de Sociología) e da Associação Italiana de Sociologia (Sociologia Italiana — Ais Journal of Sociology).

Mais precisamente, a ideia foi gizada por ocasião da MidTerm Conference do Research Network on Southern European Societies (ESA/RN27), que decorreu em abril de 2017, na encantadora cidade de Córdoba. A propósito dos usos do conhecimento sociológico no quadro das mudanças e dos desafios que confrontam as sociologias do sul da Europa surgiram propostas e experiências de trabalho estimulantes, ora centradas nas realidades nacionais, ora incidindo sobre comparações regionais. Pretendeu-se porém alargar o escopo, apelando a uma maior abrangência de contribuições, bem como se determinou contribuir para uma mais ampla internacionalização da divulgação do trabalho científico orientado para as sociedades do sul da Europa. Assim nasceu, pelo acordo de colaboração entre as três revistas, a iniciativa inovadora de realizar a call conjunta.

“Connecting sociological research with social problems and public policies: Implications for Southern European societies” constitui a temática convocada, a que responderam autores com trabalhos de orientações diversificadas e focalizadas em diferentes dimensões da relevância do conhecimento sociológico para o conhecimento das sociedades do sul da Europa. Neste número, publicam-se quatro dos muitos artigos submetidos a publicação nas revistas parceiras.

O primeiro artigo focaliza-se nos modelos de proteção social dedicados a pessoas em situação de dependência, um problema transversal que mantém plena atualidade nos contextos de envelhecimento demográfico, porém com diferentes respostas por parte das políticas públicas. “Os sistemas de cuidados de dependência na Espanha e na Roménia. Uma análise comparativa de políticas e gerenciamento”, de José Ángel Martinez-López e Mihaela Raducea, elabora uma caraterização detalhada dos sistemas sociais de Espanha e da Roménia destinados a pessoas em situação de dependência. Os modelos teóricos sobre o estado providência enquadram a reflexão proposta e a identificação de semelhanças e diferenças percorre a legislação dos dois países bem como as modalidades de gestão das políticas públicas.

Com o segundo artigo, Paula Reis e Jordi Nofre contribuem para a avaliação das recentes políticas de emprego destinadas a jovens. “O programa garantia jovem em Portugal: Análise preliminar e primeiras conclusões” apresenta uma análise da implantação do Programa Jovem em Portugal. Enquadrando a génese do programa na problemática do desemprego juvenil no contexto da recessão iniciada em 2008, o artigo reúne um importante referencial empírico para avaliar a eficácia da política. Ainda que se trate de uma abordagem preliminar (como aliás indica o título) os autores apontam incongruências e sugerem que as ligeiras melhorias encontradas no emprego juvenil se devem antes à recente conjuntura nacional.

“Incentivar o debate e apagar o fogo: A aceitação social dos drones na gestão e prevenção de incêndios florestais”, o terceiro artigo, de Elvira Santiago Gómez e Vincenzo Pavone, problematiza as visões neutrais dos usos da tecnologia em situações de emergência e de prevenção da segurança, no caso o recurso a drones civis para prevenir e gerir os incêndios florestais. A análise de discurso aplicada a painéis de cidadãos, políticos e especialistas em cinco países constitui a base empírica com que os autores identificam as narrativas sobre a utilização de drones em situações de emergência, com destaque para as recomendações emergentes em termos da regulação.

O último artigo é um ensaio, de Mariateresa Gammone. Em “Centro e periferias nas sociedades europeias”, a autora faz uma incursão pela evolução dos Estados-nação, detendo-se entre outros aspetos na formação de fronteiras e nas especiais condições das regiões fronteiriças historicamente alvo de disputadas hegemónicas. Evocando clivagens nos processos de modernização das regiões europeias sustenta que as dissimetrias entre centro e periferias não correspondem a fronteiras de Estado. Centro e periferia assumem aliás para a autora sentidos algo voláteis.

Este número da revista é ainda composto por dois artigos científicos que, submetidos na chamada regular da SOCIOLOGIA ON LINE e articulando a investigação sociológica desenvolvida no sul da Europa, com problemas sociais e políticas públicas, se encontram plenamente enquadrados com a temática do presente número.

O artigo de Ana Rosa Pinto e Alcides Monteiro debruça-se especificamente sobre o papel das redes informais de apoio nas trajectórias de parentalidade em Portugal. Tendo por base uma análise quantitativa apresentada e discutida em “As redes sociais de apoio na transição para a parentalidade”, os autores sugerem que estas redes não sendo determinantes para o processo de tomada de decisão de ter filhos, facilitam a transição para a parentalidade.

Este número termina com o artigo “O humor em movimentos sociais. Criatividade e informalidade nas manifestações anti-austeridade em Portugal” de Pedro Caldeira Pais e Rita Espanha. Conjugando uma análise crítica do discurso de cartazes de manifestações ocorridas entre 2011 e 2013, com entrevistas a activistas e sindicalistas, os autores sugerem que a utilização do humor por estes movimentos sociais relaciona-se com o grau de institucionalismo dos mesmos, com a consolidação de uma identidade de resistência e de uma cultura de protesto e com uma reformulação das formas de comunicação.

Em suma, parece-nos claro que os temas agora tratados nestes artigos são ilustrativos de questões que aos sociólogos competira aprofundar e interpretar neste tempos de grandes desafios em que vivemos na Europa.

Autores: Ana Romão, Luís Baptista e Ana Ferreira

Download
2019-02-12T11:41:10+00:00