Editorial

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Nº 4 - setembro 2011

Rosário Mauritti – Coordenação da Secção Temática da APS Classes e Desigualdades

Número Temático de Classes e Desigualdades

Editorial

Os quatro primeiros textos que compõem este número 4 da SOCIOLOGIA ON LINE foram apresentados originalmente no Fórum Consumos e Desigualdades, organizado pela Secção Classes e Desigualdades, da Associação Portuguesa de Sociologia, em 15 de Outubro de 2010 nas instalações do ISCSP-UTL.

Na Sociologia em Portugal um número significativo de pesquisas tem desenvolvido propostas inovadoras de renovação teórica e operatória das perspectivas das classes e desigualdades, com aprofundamentos analítico-substantivos originais, empiricamente informados em protagonismos específicos que têm lugar nas sociedades contemporâneas, parte delas propondo, simultaneamente, sobre diversos ângulos e dimensões, perspectivas sistemáticas de comparação numa escala internacional.

Muitos destes estudos são desenvolvidos por equipas multidisciplinares, as quais embora investidas em interesses de investigação comuns, por vezes, não têm plataformas e espaços próprios que fomentem a comunicação e a partilha e confluência das diferentes concepções referenciáveis nesta área problemática da Sociologia. Através da organização do Fórum Consumos e Desigualdades a Secção Classes e Desigualdades procurou consubstanciar esta urgência de partilha e comunicação.

No referido Fórum, sob o pretexto de debater as relações complexas e diferenciadas entre classes sociais, consumos e estilos de vida, foi enfatizada a relevância da perspectiva das classes sociais na análise dos processos contemporâneos de mudança social de práticas e valores de actores sociais estruturalmente diferenciados; apresentaram-se resultados de pesquisas, teórica e empiricamente informadas, sobre a importância dos consumos na estruturação de territórios, espacialidades e distinções, nas relações desiguais entre os agentes os sociais nos contextos situacionais do quotidiano; deu-se ênfase à pertinência de uma boa combinação entre metodologias quantitativas e qualitativas e, especialmente, construiu-se um espaço de confronto entre diferentes gerações de sociólogos.

As análises reunidas neste número da SOCIOLOGIA ON LINE integram alguns dos contributos então debatidos.

No primeiro texto, Isabel Silva Cruz analisa as configurações da sociedade de consumo em Portugal, segundo a autora, expressa nomeadamente na generalização da possibilidade de escolha dos bens consumíveis e na diversificação das aspirações de consumo a camadas mais amplas da população portuguesa. Na sua abordagem constrói uma perspectiva pluridimensional do consumo enquanto prática social, dando-nos conta das relações entre reconfigurações socioestruturais e características intrínsecas dos indivíduos, procurando perceber os seus efeitos nas práticas de consumo e, concretamente, na difusão de novas concepções de bem-estar e novos estilos de vida. A caracterização extensiva desenvolvida, tendo por referência empírica dados dos Inquéritos às Despesas Familiares, do INE e EUROSTAT, oferece-nos uma perspectiva diacrónica sobre a evolução registada, em Portugal, na estrutura de consumos, entre 1967 e 2006, bem como referenciais de comparação com a Europa. Nestas análises, a autora enfatiza alguns traços relevantes das tendências de modernidade que atravessam a sociedade portuguesa que até à viragem do novo século permanece muito “dominada pelo gosto da necessidade”. Nestes protagonismos sublinha nas tendências de modernidade as repercussões do “contexto” – histórico, social, institucional e de orientação política – ou do nível de desenvolvimento socioeconómico numa maior autonomia relativa do gosto e da cultura face às condições materiais objectivas.

Dando relevo a uma componente das práticas sociais, já assinalada no texto de Isabel Cruz – que demarca o aumento significativo das despesas com habitação na estrutura de consumos das famílias –, Rosário Mauritti enfatiza as virtualidades operacionais da casa enquanto espaço de observação. Ponto de confluência, materialização e ordenação simbólica das relações sociais que os sujeitos realizam nos diversos contextos situacionais de interacção, e recurso incontornável na consagração da narrativa da experiência vivida, a casa – espaço por excelência da vida íntima, de concretização de projectos e sustento de motivações – surge aqui como fonte crucial de informação na análise de protagonismos de novos estilos de vida do viver só.

Raquel Barbosa Ribeiro propõe-nos um olhar sobre os processos de estratificação social tal como são simbolicamente estruturados nas práticas quotidianas e nas orientações de consumo dos agentes sociais. Através desta abordagem, a autora analisa as relações específicas entre consumos e diferenciações sociais de status, nas cidades de Lisboa e Leiria. A operacionalização da pesquisa é um exemplo da articulação entre metodologias quantitativas e qualitativas: envolvendo a aplicação de um inquérito por questionário, a realização de entrevistas e a análise de registos de observação. Na comparação dos resultados obtidos nas duas cidades, conclui-se com um maior relevo conferido na capital à educação formal como sinal de distinção, enquanto Leiria valoriza mais a “profissão”, os “hábitos de lazer” e a “posse de bens”.

Consumos contestados, consumos contestatários, movimentos pró e contra o consumo, política de consumo: são estes os termos que Inês Pereira aprofunda na análise que desenvolve em torno das relações entre consumos e movimentos sociais. Mais do que examinar as lógicas de diferenciação social ou as dinâmicas sociais de gostos e estilos de vida subjacentes às opções de consumo, a autora propõe-se esmiuçar o consumo enquanto acto político e campo de conflito social. Para o efeito elege como foco de observação três tipos de movimentos sociais que se constituem tendo como leit motiv para a acção social concertada o consumo: 1) os movimentos que lutam pelo acesso ao consumo; 2) os movimentos que apelam às restrições ao consumo e 3) os movimentos de promoção do consumo alternativo ou de “melhor” consumo.

Este número da SOCIOLOGIA ON LINE encerra com um artigo de três jovens investigadoras do CIES-IUL que nos apresentam um retrato sobre a evolução do campo da sociologia do género em Portugal. A análise desenvolvida toma por referência os registos do GPEARI-MCTES sobre doutoramentos concluídos e em curso, num período alargado; as comunicações propostas aos congressos da APS e ainda informação biográfica suportada por entrevistas em profundidade a três protagonistas do campo. As autoras denotam um acentuado crescimento do campo, tanto em termos do número de investigadores (sobretudo mulheres), como no número de pesquisas que tomam a temática das desigualdades de género como objecto de pesquisa. Apesar disto, a ainda relativa “juventude” da sociologia em Portugal justifica que, tal como em outros domínios, os homens mantenham uma posição dominante nos lugares de maior prestígio.

Autores: Rosário Mauritti

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2018-02-25T17:27:38+00:00