Histórias de (uma) vida: desafios e dilemas éticos na investigação com idosos

Nº 12 - dezembro 2016

DOI: https://doi.org/10.30553/sociologiaonline.2016.12.1

Elsa Pegado, Mestre em Sociologia pelo ISCTE-IUL e doutoranda em Sociologia no ISCTE-IUL. Assistente Convidada do Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz e da Escola Superior de Saúde Egas Moniz. Investigadora do CIES, ISCTE-IUL e do CiiEM)

Joana Zózimo Mestre em Sociologia da Saúde pelo ISCTE-IUL e doutoranda em Sociologia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra – Centro de Estudos Sociais. Investigadora do CiiEM e no CSG-ISEG

Noémia Lopes Doutorada em Sociologia pelo ISCTE-IUL, Professora Associada do Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz e da Escola Superior de Saúde Egas Moniz. Investigadora do CIES, ISCTE-IUL e do CiiEM, onde coordena o Grupo de Estudos Sociais Aplicados (GESA).

Resumo: Partindo da experiência de investigação num estudo sociológico sobre a psicofarmacologização da velhice, cuja metodologia incluiu a realização de histórias de vida, o presente artigo visa discutir alguns dilemas éticos e correspondentes desafios metodológicos inerentes a esta técnica e, em particular, as especificidades da sua aplicação junto da população idosa. O estudo, desenvolvido no concelho de Almada, contemplou a realização de 30 entrevistas de histórias de vida a idosos a viver sós, com idades compreendidas entre os 67 e os 90 anos, com autonomia física e cognitiva, inseridos em três diferentes contextos (Domicílio, Centros de Dia e Lares).
Palavras-chave: histórias de vida, entrevista narrativa, questões éticas, população idosa.

Histories of (a) life: challenges and ethical dilemmas in doing research with older people
Abstract: Drawing from a sociological research on the psychopharmaceuticalization of old age, which methodological design included life stories, this paper aims to discuss some ethical dilemmas and corresponding methodological challenges brought by this technique, in particular, the specificities of conducting it with elderly people. The research took place in Almada, and the life story interviews were conducted with 30 individuals living alone (aged between 67 and 90), with physical and cognitive autonomy, in three different living contexts (Domicile, Adult Day Care Centres and Senior Residences).differences were not significant when using summated scales, except in case of severe skewness.
Keywords: life stories, narrative interview, ethical issues, elders.

Introdução

Nas histórias de vida, a situação de entrevista é um terreno privilegiado para reflectir sobre as questões éticas que se vão antecipando, ou aquelas, menos previsíveis, com que o entrevistador se vai defrontando. Contar uma vida, no caso da população idosa, é reconstruir a “história de uma vida”, revisitando o passado, procurando memórias, revivendo emoções, que podem suscitar alegrias ou tristezas, prazer ou desconforto. E é fazê-lo perante um interlocutor no qual se depositam expectativas que, sobretudo nos casos de relativo isolamento social do entrevistado, podem ultrapassar o clássico papel de entrevistador-ouvinte para o transformar em entrevistador-terapeuta.

O planeamento da entrevista e a sua condução invocam, assim, um conjunto de dilemas éticos. Como reagir aos efeitos emotivos suscitados pela técnica, sobretudo a expressão do desconforto por parte do entrevistado? Como estabelecer o equilíbrio entre a proximidade entrevistador-entrevistado exigida para o estabelecimento da confiança e o distanciamento metodológico? Como gerir potenciais efeitos indesejados do consentimento informado, como o receio da perda de anonimato ou das implicações da assinatura de um documento institucional? Como garantir a clareza dos objectivos da pesquisa e afastar ambiguidades causadoras de falsas expectativas no entrevistado, como, por exemplo, de apoio na resolução de questões de saúde ou questões burocráticas? Sendo norteadas por princípios éticos gerais da pesquisa em ciências sociais, as estratégias desenvolvidas em resposta a estes desafios, longe de constituírem receitas a aplicar de forma indiscriminada, foram sendo testadas ao longo do processo de recolha de informação e adaptadas a cada história particular.

Partindo da experiência de investigação num estudo sociológico sobre o consumo de psicofármacos em maiores de 65 anos, realizado num contexto urbano, em Almada  , cuja metodologia incluiu a realização de histórias de vida (Lopes et al, 2016), o presente artigo visa discutir alguns dilemas éticos e correspondentes desafios metodológicos inerentes a esta técnica e, em particular, as especificidades da sua aplicação junto da população idosa. Os dados empíricos que sustentam a discussão desenvolvida neste artigo resultam de 30 entrevistas narrativas (Flick, 2013) a indivíduos com idades compreendidas entre os 67 e os 90 anos, a viver sós nos seus domicílios, ou a residir em lares, desde que antes vivessem sós há pelo menos dois anos, todos desfrutando de autonomia física e cognitiva. O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética da Egas Moniz- Instituto Superior de Ciências da Saúde, e os participantes subscreveram um Consentimento Informado.

A realização das entrevistas foi precedida da aplicação de um inquérito por questionário a uma amostra de 414 inquiridos, de entre os quais foram seleccionados aqueles que vieram a ser entrevistados, a partir dos que se haviam mostrado disponíveis para o efeito. Todas as entrevistas foram realizadas por investigadoras do projecto.

A amostra destas entrevistas tem a seguinte composição: distribuição equitativa entre homens (50%) e mulheres (50%); distribuição etária [67-74 anos] 30.0%, [75-84 anos] 57.0%, [=> 85 anos] 13.0%; quanto ao nível de escolaridade, a maioria (53%) possui escolaridade básica de 4 anos ou menos, os restantes até ao ensino secundário (37%) e ensino superior (10%). Na composição por contexto de residência a distribuição foi equitativa, com 10 entrevistados em cada tipo de contexto (domicílio, lar, centro de dia). As entrevistas foram gravadas, totalizando 75h.46m, com uma duração média de 2h.31m, e posteriormente transcritas na íntegra .

A presente reflexão está organizada em três secções. Num primeiro momento, procede-se à discussão dos principais desafios e dilemas éticos nas histórias de vida, especificando, sempre que relevante, a sua aplicação à população idosa. Na segunda secção identificam-se as estratégias metodológicas que, no projecto de investigação em causa, foram planeadas e accionadas como resposta a esses desafios. O artigo culmina na ilustração das questões éticas a partir de excertos das entrevistas narrativas conduzidas.

Desafios e dilemas éticos nas entrevistas de histórias de vida

Participação e consentimento informado

A informação e a liberdade de participação dos sujeitos nas pesquisas é um imperativo ético transversal à pesquisa no âmbito das várias áreas científicas e aos vários métodos e técnicas de investigação. Essas garantias são formalizadas através da assinatura, por parte dos participantes, de um consentimento informado, cujos conteúdos incluem, entre outros, quer a informação relevante sobre a pesquisa, quer, na maior parte dos casos, referências ao anonimato do entrevistado e à confidencialidade da informação por ele prestada.

As reflexões sobre a utilização do consentimento informado nas pesquisas qualitativas têm sido crescentes . Uma das questões abordadas é a adaptação a populações pouco escolarizadas, não familiarizadas com os procedimentos de investigação, isto é, que não partilham do ethos do investigador (Langdon et al, 2008). O que está aqui em causa é, em primeira instância, a necessidade de ultrapassar uma lógica formal e burocrática do consentimento, que, segundo as autoras, corre o risco de se tornar um instrumento de exclusiva protecção dos investigadores, contido na metáfora “cheque em branco”, em vez de garantia da preservação dos direitos das populações e dos indivíduos que são objecto de pesquisa. Em segundo lugar, face a populações com baixos níveis de literacia – como se verifica numa parte não despicienda dos seniores em Portugal – os investigadores enfrentam ainda o desafio de traduzir a linguagem científica e técnica muitas vezes utilizada em alguns modelos de consentimento informados exigidos pelas Comissões de Ética, numa linguagem acessível aos entrevistados. Finalmente, coloca-se ainda a questão do risco de intimidação dos sujeitos da pesquisa, que, confrontados com a obrigatoriedade de assinar um documento formal que lhes é culturalmente estranho, podem recear a perda do anonimato – que, paradoxalmente, o mesmo documento lhes garante – e criar suspeitas acerca da sua utilização.

É nesse sentido que algumas reflexões sobre os aspectos éticos nas pesquisas qualitativas têm vindo a deslocar o olhar do consentimento informado enquanto instrumento para o consentimento informado enquanto processo. Salienta-se a importância de respeitar a dignidade e a autonomia do sujeito, o que implica assegurar a sua liberdade de escolha na decisão de participar na pesquisa, liberdade essa que só pode efectivar-se estando o sujeito na posse de toda a informação relevante, incluindo a duração da entrevista, a garantia do anonimato e confidencialidade, as formas de utilização da informação recolhida e, eventualmente, benefícios e riscos da participação (Ramos et al, 2008). Ora, tais garantias, no caso das pesquisas qualitativas, raramente se esgotam no momento de apresentação e assinatura de um documento padronizado, mas vão sendo estabelecidas à medida que o contacto entre entrevistador e entrevistado se vai desenvolvendo, antes e durante a realização da entrevista.

Riscos e benefícios das entrevistas narrativas

Toda a pesquisa que envolve interacção entre observador e observado envolve riscos. Como refere De la Taille, não existe “risco zero”, qualquer que seja o método ou a técnica de recolha de informação; “(…) um mero questionário pode, por exemplo, desencadear angústias imprevisíveis em quem o responde. Quiséssemos o “risco zero”, não faríamos pesquisa (e nem entraríamos em qualquer interação humana!)” (De la Taille, 2008: 275). Todavia, há métodos que, mais do que outros, são particularmente susceptíveis de gerar riscos, aqui entendidos enquanto possibilidade de consequências indesejáveis para os sujeitos participantes na pesquisa.

No caso das histórias de vida e das narrativas que as produzem, os efeitos emotivos da técnica constituem um aspecto a considerar. Os relatos de vida não são retratos fiéis do que efectivamente aconteceu, mas sim reconstruções do passado (Digneffe, 1997), mediadas por efeitos de memória, de selecção e da reflexão que se vai construindo à medida da narração. Implicam, pois, uma interpretação subjectiva sobre os episódios narrados (Ferreira, 2014). A revisitação do passado e a busca de memórias sobre experiências e sentimentos fazem reviver emoções, que podem tomar a forma de alegrias ou tristezas, prazer ou desconforto. Não sendo possível eliminar o risco de dano ou desconforto relativamente a memórias do passado, importa que os investigadores possam prever esse risco e munir-se dos recursos necessários à sua minimização (Ramos et al, 2008).

Outros autores têm reflectido sobre os benefícios da entrevista narrativa, para lá das suas potencialidades como técnica de recolha de informação, designadamente para os indivíduos que narram a sua história. Atkinson, por exemplo, sistematiza esses benefícios em nove pontos: i) a aquisição de uma perspectiva mais clara sobre experiências e sentimentos; ii) a melhoria do autoconhecimento e o reforço da autoestima; iii) a partilha de perspectivas e experiências positivas; iv) a fruição de sentimentos de alegria e satisfação; v) a validação das experiências pessoais; vi) a criação de comunidades com interesses comuns; vii) a possibilidade de perspectivar a própria vida a partir de outros ângulos; viii) a possibilidade de se dar a conhecer e de ser compreendido por outros; xix) a possibilidade de construir objectivos de futuro de forma mais clara (Atkinson, 2002). Embora estes vários aspectos remetam para efeitos de cariz psicológico que podem ser desencadeados pela narração, não sendo, assim, consequências intencionais de um procedimento de investigação sociológica que tem como finalidade a produção de conhecimento sobre um dado fenómeno social, não deixa de ser relevante equacioná-los, tomando-os como factores que podem intervir na situação de entrevista e moldar o tipo de intervenção do entrevistador.

Estão, pois, em causa, os efeitos terapêuticos ou a dimensão terapêutica das histórias de vida em duas vertentes. Por um lado, as histórias de vida oferecem ao indivíduo a oportunidade de voltar a experimentar os factos vividos, dando-lhes novo significado e modificando o seu próprio entendimento da realidade vivida, isto é, a possibilidade do indivíduo se reconstruir à medida que conta a história. (Silva et al, 2007). Por outro lado, a relação que se estabelece entre o entrevistador e o entrevistado, que, em alguns casos e em alguns momentos, pode assumir contornos de uma relação “terapêutica”, na medida em que o entrevistador represente para o entrevistado um ouvinte atento, disposto a ouvir os seus receios e as suas angústias (Van Den Hoonaard, 2008). Esta questão é tanto mais premente quanto menores as possibilidades dos indivíduos fazerem ouvir a sua voz, nomeadamente em populações cujas redes de sociabilidade são frágeis ou populações cujas posições na estrutura social não lhes conferem oportunidades de expressar os seus pontos de vista. Por estas razões, os imperativos de explicitação dos objectivos da investigação e o esclarecimento tão completo quanto possível do papel do entrevistador, de modo a não criar falsas expectativas, constituem exigências éticas acrescidas nesta técnica de investigação.

O papel do entrevistador e a gestão de expectativas

O papel do entrevistador constitui, assim, um dos aspectos cruciais na produção das histórias de vida e, em particular, na forma de gestão das questões éticas que estas suscitam. A literatura sobre atitudes e estratégias do entrevistador em entrevistas pouco directivas é consensual ao advogar uma postura do entrevistador que combina a “técnica” com a “arte” (Ruquoy, 1997), ou a “ciência” e a “arte” (Atkinson, 2002), metáforas que pretendem salientar a necessidade de este se munir de um conjunto de recursos teóricos e técnicos para a condução da entrevista – quadros conceptuais e também técnicas de comunicação -, mas também de se preparar para os momentos de criatividade e improviso que lhe sejam exigidos no decurso da entrevista – as “artes e manhas” do entrevistador (Ferreira, 2014).

Nas histórias de vida, a narrativa é produzida para o outro, no quadro de uma interacção social pautada por uma assimetria de papéis, que se traduz, em muitos casos, numa hierarquia de saber-poder. Importa, pois, estar atento às consequências que essa assimetria possa gerar na acção discursiva do entrevistado, procurando, tanto quanto possível, minimizar os seus efeitos (por exemplo, ao nível da linguagem utilizada). Tal passa por assumir a centralidade do estabelecimento da confiança (Silva et al, 2007; Ferreira, 2014), condição fundamental para despoletar a narrativa e garantir o seu prosseguimento de forma densa e aprofundada. A criação de uma relação de empatia entre entrevistador e entrevistado, a capacidade de aquele se situar nos pontos de vista deste, de lhe proporcionar condições de conforto propícias à narrativa são, não apenas aspectos de natureza ética, mas também elementos determinantes da qualidade científica da informação obtida.

Nas abordagens clássicas à aplicação da entrevista, esta relação correria o risco de conduzir à perda da neutralidade e objectividade do entrevistador, que funcionariam como critérios de aferição da cientificidade das pesquisas (Ferreira, 2014). Há muito que os sociólogos assumiram a “falsa neutralidade das técnicas” (Bourdieu et al, 1983), mas essa premissa tem vindo a ser renovada nas reflexões sobre os contextos de produção dos dados nas entrevistas narrativas (Atkinson, 2002; Flick, 2013), em que o jogo que se vai jogando entre proximidade e distanciamento, subjectividade e objectividade exige uma vigilância permanente por parte do entrevistador. Tal não equivale a postular a criação de uma relação afectiva entre entrevistador e entrevistado, que as exigências da ética e deontologia na pesquisa excluem. Porém, não pode igualmente significar a adopção de uma postura de forte distanciamento e rigidez por parte do entrevistador, contrárias ao estabelecimento da confiança e com efeitos prejudiciais no desenvolvimento dos relatos de vida, mas também responsáveis por sentimentos de desconforto no entrevistado.

Como referido anteriormente, se o esclarecimento sobre o papel do entrevistador se torna tanto mais importante quanto a situação social de entrevista está sujeita a diferentes interpretações por parte dos entrevistados, o mesmo não significa assumir, de forma ingénua, que esse esclarecimento é suficiente para eliminar falsas expectativas. As pesquisas que recorrem a histórias de vida têm revelado que, na maioria dos casos, os indivíduos gostam (ou declaram gostar) de narrar a sua vida (Atkinson, 2002). E fazem-no com diversos objectivos – mais ou menos explícitos. Para além de disposições de colaboração com as pesquisas (o “ser-se” útil), em outros casos está em causa a possibilidade de estabelecer com o outro uma relação em que se projecta no entrevistador o papel de entrevistador-terapeuta num duplo sentido: i) como ouvinte que presta atenção; ii) como conselheiro de quem se esperam opiniões e conselhos. Consideramos legítimo afirmar que o primeiro caso não constitui um problema, mas o segundo constitui um desafio metodológico e ético que merece ser equacionado: como deve o entrevistador proceder em situações em que é interpelado para emitir opiniões ou sugestões com implicações nas vidas dos entrevistados?

A questão da vulnerabilidade dos entrevistados

Os desafios éticos que têm vindo a ser explorados neste artigo ganham ainda maior relevância no caso de populações vulneráveis, aqui entendidas como particularmente expostas ao risco de danos (Walsh, 2009). Neste sentido, a população idosa, pela sua associação – muitas vezes mais simbólica do que efectiva – a problemas de saúde, à eventual deterioração de capacidades físicas e cognitivas ou mesmo a sentimentos de solidão, poderia ser qualificada como vulnerável, estando em risco a garantia de autonomia individual para tomar a decisão de participar ou não na pesquisa ou suspender essa participação a qualquer momento. Na medida em que um dos principais requisitos da investigação (senão o principal) é a liberdade do observado ser ou não objecto de observação, o problema ético que daí resultaria é difícil de contornar.

No entanto, partilhamos a ideia, já avançada por outros autores, de que a vulnerabilidade não é uma condição, mas sim um estado, remetendo assim para uma perspectiva contextual da vulnerabilidade e para a recusa de uma catalogação essencialista – muitas vezes ancorada apenas em factores físicos ou psicológicos – dos sujeitos da pesquisa como vulneráveis (Barbosa e Souza, 2008). Além disso, defendem as autoras, o facto dos indivíduos se encontrarem numa situação de vulnerabilidade não significa necessariamente que não sejam dotados de autonomia para decidirem sobre a sua participação.

Retomando o caso da população idosa, a idade não é, por si só, um factor de vulnerabilidade. Considerá-la como tal seria reproduzir um certo imaginário colectivo que, além de ignorar a heterogeneidade social que atravessa a velhice, assim como todas as outras fases da vida, incorre em processos de biologização e infantilização da velhice. Ora, sendo verdade que a pertença a determinado escalão de idades ou coorte geracional constitui um elemento relevante sobre diversos aspectos das condições sociais de existência (Mauritti, 2004) – designadamente pela maior susceptibilidade a condições de saúde mais frágeis e suas consequências – tal não elide a diferenciação social e contextual que molda os quotidianos dos seniores (Lopes et al, 2016).

Lidar com os desafios: estratégias metodológicas no terreno

Face aos desafios éticos enunciados, se o planeamento da pesquisa permitiu desde logo a consideração de alguns deles nas opções metodológicas estabelecidas, outros houve que foram surgindo ao longo do processo de recolha de informação, exigindo uma reflexão permanente e o desenvolvimento de estratégias que permitissem responder a esses desafios.

Essencialmente, essas estratégias metodológicas situam-se a três níveis, correspondentes a diferentes componentes do trabalho de campo, que exploraremos de seguida: i) na selecção dos entrevistados; ii) na elaboração do guião de entrevista; iii) na relação entrevistador-entrevistado.

A selecção dos entrevistados

As histórias de vida foram realizadas junto de indivíduos com idades compreendidas entre os 67 e os 90 anos. Além do critério etário, dois outros requisitos nortearam a escolha dos entrevistados: i) gozarem de autonomia física e cognitiva, i.e. sem problemas de saúde que comprometessem quer a possibilidade de decidir livremente a participação no estudo, quer a de narrarem a sua vida ao longo de um período de tempo relativamente longo sem ficar sujeitos a situações de cansaço ou desconforto; ii) viverem sós há pelo menos dois anos, ou residirem em Lares desde que antes de ingressarem no lar vivessem sós também há pelo menos dois anos, introduzindo assim um espaço de tempo que se considerou suficientemente amplo para a acumulação de experiências do viver só que pudessem ser relatadas durante a entrevista.

Os critérios definidos foram orientados, antes de mais, para responder aos objectivos do projecto de investigação, pelo tipo de informação que permitem obter, mas não deixam simultaneamente de constituir uma resposta a dilemas éticos. Efectivamente, no primeiro caso, diminui-se, na medida do possível, a probabilidade do entrevistador se cruzar com situações de vulnerabilidade. No segundo, evita-se que algumas memórias emocionalmente dolorosas sejam muito recentes – como por exemplo a viuvez –, de forma a minimizar eventuais sentimentos de desconforto para o entrevistado durante a entrevista.

O guião de entrevista

Quanto ao guião de entrevista e ao modo como os desafios éticos foram nele incorporados, importa destacar as estratégias delineadas para o início e para o final da entrevista.

Optou-se por uma pergunta inicial que simultaneamente fosse potenciadora do desenrolar da narrativa, com o estatuto de “pergunta de partida” (Rosenthal, 2004) ou “pergunta generativa” (Flick, 2013), e suscitasse memórias felizes do passado, com a seguinte formulação: “Para iniciar a nossa conversa, gostaria de lhe pedir que contasse qual foi a fase mais feliz da sua vida; gostava que me falasse um pouco dessa fase, do que aconteceu de bom…”. Na maioria dos casos, a pergunta cumpriu efectivamente essa dupla função, à excepção de um ou outro caso em que o entrevistado expressou dificuldade em recordar momentos felizes.

No final do guião, com a finalidade de objectivar os efeitos – sobretudo os riscos -, no entrevistado, da técnica da história de vida e, em particular, da entrevista em que esta é construída, formulou-se a seguinte pergunta: “Sobre esta entrevista: Gostou de recordar o seu passado? Foi em algum momento desconfortável para si? Foi cansativo?”. Em consonância com os resultados de pesquisas que têm revelado o gosto que a maior parte dos indivíduos tem em narrar a sua vida (Atkinson, 2002), também no presente estudo quase todos os entrevistados expressaram o interesse e o prazer que a experiência da narração lhes proporcionou. Raros foram aqueles que referiram momentos de desconforto ou de cansaço.

A análise das respostas a esta última pergunta veio, assim, a revelar-se bastante heurística, ao permitir a ilustração de várias das questões éticas que se colocam nas histórias de vida junto da população idosa, conforme se pode observar na última secção deste artigo.

A relação entrevistador-entrevistado

As estratégias de contacto com os entrevistados foram norteadas pela preocupação em demonstrar a credibilidade do estudo – designadamente pela sua inserção institucional -, informar sobre os seus objectivos e salientar o carácter voluntário da participação. O primeiro contacto com os entrevistados foi realizado na fase anterior da pesquisa – o inquérito por questionário -, através de duas vias: (i) Associações Recreativas e Universidades Sénior, para os inquiridos não institucionalizados; (ii) Lares e de Centros de Dia, para os demais inquiridos. Em qualquer destes contextos, o contacto com os potenciais participantes foi efectuado directamente pelos investigadores – depois de obtida a autorização das respetivas instituições para o acesso aos devidos locais – no sentido de se explicar o objectivo da pesquisa e, em caso de aceitação, ser marcado um novo encontro para a aplicação do questionário. Posteriormente, para a realização das entrevistas, repetiu-se de novo o contacto junto dos inquiridos que se tinham disposto a participar nessa fase da pesquisa. Cada entrevista foi realizada em duas sessões, geralmente distribuídas por dois dias consecutivos, evitando assim que a experiência do relato de vida fosse cansativa para os entrevistados. A duração média de cada sessão variou entre 1h e1.30h

As entrevistas foram realizadas em espaços que garantissem a privacidade e o conforto dos entrevistados, sugeridos pelos entrevistadores mas sujeitos à escolha dos entrevistados. Esses espaços distribuíram-se entre salas nas instalações da Egas Moniz –  instituição de enquadramento do estudo – , espaços cedidos por associações recreativas, centros de dia e lares, ou, em casos mais residuais, e por solicitação dos entrevistados, na sua própria casa.

Depois de devidamente esclarecidos sobre as finalidades e o carácter anónimo e confidencial das entrevistas e de solicitada a autorização para gravar a entrevista, os participantes subscreveram um Consentimento Informado, apresentado numa linguagem susceptível de fácil descodificação, em particular no caso dos entrevistados menos escolarizados e menos familiarizados com os procedimentos de investigação. Procurou-se igualmente esclarecer os papéis de entrevistador e entrevistado, demonstrando a inexistência de hierarquias de saber, de forma a dissipar receios revelados por alguns entrevistados de que as suas prestações durante a entrevista não correspondessem ao esperado.

Estes vários procedimentos permitiram o estabelecimento de um clima de confiança propício à produção das narrativas. Essa confiança traduziu-se, em alguns casos, na solicitação, por parte do entrevistado, de uma proximidade que geralmente não se estabelece em processos de recolha de informação que recorrem a instrumentos padronizados. Entre outros exemplos, refira-se o de uma das entrevistadas que, após relatar a sua história, convida a entrevistadora a ver um álbum de fotografias que vai folheando. O que fazer? Remeter-se ao silêncio, assumindo uma postura de distanciamento? Ou, pelo contrário, aceitar essa proximidade, comentar as fotografias e as pessoas, mostrar agrado? Não enveredar pela segunda opção seria, quanto a nós, uma postura pouco defensável do ponto de vista ético, geradora de perturbação e desconforto no entrevistado.

Em outras situações, tal como expectável quando as histórias de vida são as histórias de uma vida longa, repleta de memórias, de alegrias e tristezas, a entrevista deu lugar à manifestação de sentimentos e emoções, umas vezes mais contida, outras mais expressiva. Quando as memórias dolorosas se expressam, nomeadamente através de lágrimas, o que fazer? Não interferir, esperando que o entrevistado retome o seu discurso? Ter uma palavra de conforto? São questões às quais os recursos técnicos (padronizados) do entrevistador dificilmente dão resposta e que apelam à sua capacidade de improvisação, em função da avaliação da singularidade de cada caso.

A experiência da entrevista: ilustrações

Os excertos que a seguir se apresentam ilustram, na voz dos entrevistados, os significados atribuídos à experiência da entrevista. Neles se descortinam expectativas face à entrevista, benefícios e riscos da situação de entrevista, bem como aspectos que remetem para a relação entrevistador-entrevistado.

O prazer de narrar a vida e as expectativas de utilidade

“Eu vim para esta conversa, para esta série de conversas, como quiser… Porque é que eu me ofereci? Para ser útil. Foi só uma maneira de ser útil. E depois tenho verificado que isso também me faz bem, o estar a participar em alguma coisa que me parece que pode ser útil, e há de ser, e eu espero que vos seja útil.

(…) Para já, estas conversas, não sabe, talvez imagine, gostei de ter estas conversas, embora isto seja quase um monólogo, mas isto faz bem, talvez a nós idosos, faz bem conversar, e dizer coisas sobre nós, especialmente sobre nós”.

(E8, Homem | 71 anos | Ensino secundário | Domicílio)

“Gostei, então não gostei? Claro que gostei. Para já eu gosto de falar com as pessoas quando a conversa é agradável como esta. Os assuntos que abordámos foram aquelas coisas que nós às vezes até precisamos mesmo de falar. E se estou a contribuir para alguma coisa de útil, que é com certeza, óptimo.”

(E9, Mulher | 76 anos | 1º ciclo básico | Domicílio)

Os “efeitos terapêuticos” das histórias de vida

“Gosto, gosto. Pois, que nunca mais me tinha lembrado, recordar o passado, sim senhora. E haver alguém ainda que nos puxa a nossa memória, para fixar, que afinal ainda há coisinhas boas e bonitas, e que nós, e que eu talvez nunca mais falasse, que era o mais certo, e passar aqui estes tempinhos bons com a menina. (…) Ai, eu estava aqui até à noite, não me cansava nada. Primeiro porque a menina é muito simpática, e segundo porque nós estamos a falar em coisas que nos fazem viver, que a mim faz-me, recordar… Depois vou para a minha cama pensar nisto, quando eu falo com a menina aqui, vou para a cama, “ela disse-me isto, disse-me aquilo, pois é, é verdade”, e a gente assim fica mais viva.”

(E13, Mulher | 82 anos | 1º ciclo básico | Centro de Dia )

Autores: Elsa Pegado, Joana Zózimo, Noémia Lopes

Download
2018-03-27T14:21:42+00:00