Notas para uma reflexão crítica sobre a publicação internacional em sociologia da saúde

Nº 3 - junho 2011

Tiago Correia, Investigador do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL), Lisboa, Portugal. Docente da Escola Superior de Saúde Egas Moniz (ESSEM). Endereço electrónico: tiago.correia@iscte.pt.

Abstract: The role of the international publication for the peer recognition in science is undeniable. However, in the access to scientific journals dynamics of gatekeeping processes coexist with the expected transparency of scientific criteria. Scientific journals are, then, analyzed as enclosed fields, what means the more is the previous knowledge of and the recognition from that field the greater is its access. The perspective is critical in relation to the instrumentalization of the manuscripts’ content and to the risk of decline in certain topics less relevant for the international debate. Should be equated, then, the diverse possibilities for the scientific dissemination.

Keywords: sociology of health; international publication, science, gatekeeping processes.

Resumo: É inegável a importância da publicação internacional para o reconhecimento científico. Contudo, contrariamente à expectativa de um acesso marcado por critérios científicos transparentes, as revistas científicas acabam por revelar formas de fechamento que ultrapassam esses critérios. As revistas científicas constituem-se como verdadeiros campos científicos, cujo acesso é tanto mais facilitado quanto maior for o (re)conhecimento previamente detido. A leitura é crítica quanto a processos de instrumentalização dos trabalhos e a um potencial esvaziamento de certos domínios de debate pouco relevantes para a escala internacional. Importa, ainda, equacionar a diversidade de palcos existentes para a disseminação internacional.

 Palavras-chave: sociologia da saúde; publicação internacional; ciência; fechamento social.

1. Aspectos introdutórios sobre a publicação internacional

É hoje um dado consensual o papel conferido às publicações internacionais para a legitimação científica, espelhando uma alteração da base do reconhecimento interpares no interior da academia. Da mera divulgação científica de produtos de investigação, actualmente é o acesso ao campo da publicação, sobretudo anglo-saxónica, que traduz a qualidade e o mérito dos intervenientes na ciência.

Pressão que se sente não só ao nível individual, na gestão das carreiras e percursos científicos dos investigadores, como também na afirmação científica dos próprios centros de investigação a uma escala que ultrapassa as fronteiras geográficas. Publicar “lá fora” acaba por se revelar um dos mais importantes indicadores, senão o principal, para aferir a qualidade científica da matéria produzida.

Ao tentar perceber este actual estado da ciência é-se rapidamente transportado para dinâmicas sociais mais amplas como a globalização e a disseminação dos meios de informação e comunicação. Os fluxos de informação são cada vez mais intensos, produzidos mais rapidamente e de acesso mais facilitado e barato. De facto, é possível atribuir à internet uma forte responsabilidade no papel assumido pela publicação científica internacional e, consequentemente, no reforço da língua inglesa como primeira língua internacional, como pelo acentuar da condição periférica do mundo não anglo-saxónico. Afinal de contas estão em presença factos sociais que importa destacar, tendo em vista a compreensão da estruturação da produção científica.

Esta apreciação quanto à publicação internacional em revistas científicas de sociologia da saúde é assumidamente crítica sem ser depreciativa. Não se contesta o papel destes contextos de debate para a elevação científica, nem para a valorização individual dos investigadores e das próprias instituições científicas. Além disso, publicar é também um dever para com as entidades financiadoras das investigações, de natureza maioritariamente pública. Contudo, salientam-se formas de fechamento destes contextos aos protagonistas externos ao espaço anglo-saxónico, cujo acesso é muitas vezes restringido com referência a argumentos que ultrapassam filtragens científicas. Um não domínio fluente do inglês escrito é, por ventura, o mais habitual e estruturante destes espaços de debate. Sem que se ponha em causa a necessária qualidade linguística que deve espelhar um trabalho desta natureza, importa em todo o caso, não ignorar que a principal função que estas revistas respondem é – ou deveria ser – a divulgação científica sob critérios estritamente científicos.

Outra dinâmica de fechamento claramente identificada prende-se com o papel verdadeiramente de gatekeeper desempenhado pelos editores das revistas, ao filtrarem sob critérios muitas vezes não justificados aos autores a razão dos artigos não passarem para a fase de blind referee ou, noutros casos, instrumentalizando o conteúdo dos manuscritos em função dos seus próprios critérios editoriais. Seguindo a terminologia de Bourdieu (1989), em causa estão verdadeiros campos estruturados em que o seu acesso a outsiders é tanto mais facilitada quanto maior for a aceitação dos seus mecanismos estruturadores e quanto mais consentânea for a sua actuação em relação às expectativas científicas produzidas no interior desse campo. Simplificando, o reconhecimento e aceitação por parte do campo não se coadunam com acções desviantes ao padrão institucional que moldam as alternativas. No entanto, como é frisado por Merton (op. cit. Crothers, 1987), o desvio à norma tende a ser uma condição relativamente normal de posições disjuntivas em relação às posições centrais.

Outras formas de fechamento poderiam ser equacionadas, como por exemplo o pagamento de verbas para aceder à submissão de manuscritos. Não se pretende contudo explorar todas estas vertentes, mas sobretudo demonstrar que o acesso a estes espaços de publicação respeita princípios que ultrapassam a argumentação científica e que a rejeição destas revistas não se traduz necessariamente em problemas conceptuais, analíticos ou metodológicos do produto submetido. Por outro lado, este argumento irá conduzir a uma reflexão sobre os efeitos perversos que se atribuem à centralidade da publicação internacional para a própria produção científica à escala nacional.

2. Delimitação do campo da sociologia da saúde

Considerando que as fronteiras entre os campos científicos se definem fundamentalmente por relações conceptuais entre os fenómenos empíricos (Bourdieu et al, 1999), torna-se necessário explicitar as delimitações que estiveram na base desta pesquisa às revistas internacionais em sociologia da saúde.

A primeira forma de delimitação foi em termos do objecto, centrando a produção científica no campo sociológico. No entanto, e porque o objectivo é perceber processos específicos à saúde, optou-se por incluir apenas revistas que a perspectivassem simultaneamente como objecto teórico e empírico. De fora ficaram espaços de reflexão de sociologia geral, de teoria social e de outros campos sociológicos que, embora próximos à saúde, se têm constituído como espaços conceptuais relativamente autónomos. Foi o caso concreto do corpo, da sexualidade e do envelhecimento, cujas abordagens ultrapassam os referenciais teóricos da saúde. Note-se que esta delimitação é puramente analítica e respeita os objectivos desta pesquisa. Defende-se, aliás, uma concepção relativamente aberta dos diversos campos sociológicos, não lhes atribuindo a posição monolítica e estanque responsável por formas de balcanização das teorias sociológicas (Turner, 2001).

Em todo o caso, e porque a sociologia da saúde de hoje decorre da clássica herança da sociologia ‘da’ medicina (Strauss, 1957), os critérios de inclusão dos objectos basearam-se na centralidade em relação ao espaço empírico da medicina e dos seus processos constituintes. Ora, tanto o envelhecimento, como o corpo ou a sexualidade são áreas de reflexão que há muito ultrapassaram essas fronteiras, constituindo os seus próprios referenciais teóricos nem sempre ligados a questões relativas à saúde e à doença.

Ainda dentro da delimitação quanto ao objecto, percebeu-se que esta produção científica é muitas vezes atravessada por cruzamentos teóricos que ultrapassam as fronteiras científicas da sociologia. De facto, uma primeira incursão sobre o mapeamento das revistas internacionais passíveis de serem elegíveis para esta reflexão demonstrou uma significativa abrangência científica, em que revistas de referência para a sociologia da saúde são, na verdade, orientadas para o domínio mais alargado das ciências sociais. Este traço característico e impossível de ignorar, sob pena de deixar de fora os principais palcos de reflexão em saúde, conduziu à tarefa nem sempre fácil de escolher as revistas caso a caso. Excluídas da análise ficaram revistas assumidamente construídas noutros campos que não o sociológico, como o caso da psicologia, da educação, da economia ou dos estudos feministas. Excepção feita à antropologia dada a sua relevância e proximidade para a evolução da própria sociologia da saúde (e.g. Uchôa e Vidal, 1994 para uma sistematização dos contributos antropológicos a este nível).

Neste sentido, os principais critérios considerados entre as revistas externas ao campo sociológico foram o espaço da indexação dos abstract em domínios das ciências sociais, abrindo-se, no entanto, o leque em alguns casos a outras revistas associadas simultaneamente a espaços de filosofia e políticas de saúde. A decisão nestes casos residiu numa breve análise ao âmbito dos artigos contidos, sendo coincidentes com os espaços de reflexão teórica habituais em sociologia da saúde. Um exemplo claro quanto à necessidade desta abertura diz respeito às revistas de saúde pública que, não sendo do domínio estrito da sociologia, constituem espaços de habitual divulgação científica por parte dos sociólogos em saúde. Por outro lado, importa não esquecer diferentes processos de institucionalização da sociologia, e em particular da sociologia da saúde, estando muitas vezes localizada em escolas e revistas científicas de áreas como a medicina ou a saúde pública (como é o caso de importantes revistas brasileiras).

A segunda forma de delimitação foi em termos operativos. Não se assegurando uma amostragem exaustiva das revistas internacionais, o suporte da pesquisa residiu no cruzamento entre a base de dados disponibilizada pelo Journal Citation Reports® da Thomson’s ISI Web of Knowledge para as ciências sociais e a base de dados da Scielo®. No primeiro caso as categorias seleccionadas foram ‘saúde pública’, ‘serviços de saúde’, ‘sociologia’, ‘ciências sociais’, ‘saúde ocupacional e ambiental’, e no segundo ‘medicina’, ‘medicine’, ‘medical’, ‘saúde’, ‘salud’ ou ‘santé’.

3. Um olhar sobre a publicação internacional em saúde: da centralidade anglo-saxónica à emergência brasileira

Decorrente dos critérios de inclusão e de exclusão considerados para a delimitação da produção científica em sociologia da saúde, é possível compreender algumas das dinâmicas de configuração deste campo. O primeiro grande traço característico é o facto de não se poder fechar os canais de disseminação científica da sociologia da saúde nessa delimitação mais restrita. Com efeito, um olhar pelos títulos das revistas seleccionadas permite a identificação das seguintes dimensões em saúde: políticas de saúde/saúde pública/gestão dos serviços de saúde (n=17), ciências sociais aplicadas à saúde (n=12), doença/morte (n=5), sociologia da saúde (n=3), antropologia da saúde (n=3), metodologia em saúde (n=1), profissões de saúde (n=1).

Tabela 1 – Média dos factores de impacto para 2009 por grupo temático[1]

Notas: Metodologia em saúde[2]; Profissões de saúde[3]

Como se observa na tabela 1, apesar desta abrangência relativa dos canais de disseminação da produção científica em saúde, a ponderação dos factores de impacto das revistas permite situar o núcleo da publicação deste campo no domínio circunscrito da sociologia da saúde, nomeadamente por intermédio da Sociology of Health & Illness, Health Sociology Review e da Social Theory and Health. Dimensões como a doença e morte – AIDS and Behavior, AIDS Care-Psychological and Socio-Medical Aspects of AIDS/HIV, OMEGA-Journal of Death and Dying, Journal of Palliative Care ou Death Studies –, e as próprias metodologias em saúde – Qualitative Health Research – compõem um segundo nível de centralidade em torno dos temas em saúde.

A relevância destes dados é que não obstante as revistas de natureza científica mais alargada, como é o caso das ciências sociais em saúde ou das políticas de saúde, terem condições para apresentarem factores de impacto superiores – ou seja, serem mais citadas – precisamente pela abertura conceptual permitida e um consequente alargamento dos seus públicos-alvo, são notórios os temas por onde o campo da saúde mais se estrutura.

Desagregando agora as revistas pela sua origem, constata-se o predomínio do espaço anglo-saxónico, com as revistas americanas, inglesas, canadianas ou australianas a cobrirem um total de 28 das 42 revistas analisadas. Com 5 revistas cada, segue-se o Brasil e o espaço espanhol da América Central, Latina e Espanha. Uma revista francesa, outra norueguesa e uma terceira holandesa compõem aquilo que se designou por Europa não Anglo-saxónica, seguida por uma revista indiana – vd. tabela 2.

Ao contrário dos restantes pontos geográficos, o mundo anglo-saxónico, além de cobrir as 7 dimensões definidas no campo da saúde (tabela 1), assegura em todas elas as revistas com maiores factores de impacto. É o caso da Qualitative Health Research (EUA) na metodologia em saúde, da Sociology of Health & Illness (Inglaterra) na sociologia da saúde, da AIDS and Behavior (EUA) na doença/morte, da Social Science and Medicine (Inglaterra/EUA/Nova Zelândia/Canadá) nas ciências sociais aplicadas à saúde, da Evaluation & The Health Professions (EUA) nas profissões de saúde, do American Journal of Public Health (EUA) nas políticas de saúde e da Medical Anthropology (EUA) na antropologia da saúde. Em todo o caso, é necessário considerar que apesar deste predomínio, o mundo anglo-saxónico não pode ser tido como um espaço homogéneo de produção teórica e empírica[4].

Por seu lado, as revistas brasileiras centram-se tanto nas políticas de saúde/gestão dos serviços de saúde como nas ciências sociais em saúde, enquanto as revistas escritas em espanhol e as do espaço europeu não anglo-saxónico apenas se encontram nessa primeira dimensão[5].

Importa salientar o papel da publicação brasileira para a emergência internacional da língua portuguesa na sociologia da saúde. Embora a primeira revista surja praticamente a meio da tabela com um factor de impacto de 1,006, a Revista de Saúde Pública (Universidade de São Paulo) publicada em brasileiro (permitindo também a publicação em inglês) aparece à frente de revistas oriundas do espaço anglo-saxónico como a Medical Anthropology ou o Journal of Medicine and Philosophy, do espaço francófono, com a Sciences Sociales et Santé e de todo o universo espanhol. Como se verá em seguida, é pertinente constatar a potencialidade que as publicações brasileiras tenderão a assumir dada a possibilidade de publicação multilingue.

De facto, apesar de uma tendencial linearidade entre a origem geográfica da publicação e a língua oficial (cf. gráfico 1), em que as revistas anglo-saxónicas publicam em inglês, as revistas brasileiras em português e as revistas da América Latina/Espanha em espanhol, a opção é em alguns casos entrar no universo apelativo da língua inglesa. É o caso da revista holandesa Health Care Analysis e da revista norueguesa Scandinavian Journal of Public Health.[6].

Dando conta um pouco da situação da publicação francófona, constata-se a existência de apenas uma publicação com cotação nas bases de dados consideradas, além de que esta ocupa uma posição abaixo de revistas menos consagradas no meio de origem espanhola ou brasileira. A disseminação da língua francesa no espaço académico parece assim corroborar uma posição sentida um pouco pelas mais diversas áreas como a política, a cultura ou as artes. A centralidade indiscutível na produção sociológica com autores consagrados como Foucault, Herzelich ou Chauvenet, incontornáveis também no espaço da saúde em Portugal (cf. Antunes e Correia, 2009), contrasta com os mais recentes palcos preferenciais para a disseminação dos produtos científicos claramente dominados pelo inglês, português e espanhol.

Fazendo a ponte para o pensamento de Merton (1938; op cit. Crothers, 1987) a dominância linguística dos espaços científicos traduz o papel das esferas económica e política dos países. Só assim se percebe a centralidade e consequente disseminação da língua inglesa e o recente ímpeto da lusofonia graças à posição emergente do Brasil. Aliás, considerando que tanto as revistas como os cientistas pensam cada vez mais a língua das publicações em termos do maior alcance possível dos seus públicos-alvo, as políticas editoriais da grande maioria das revistas brasileiras com cotação mais elevada centra-se no incentivo à publicação em português, inglês e espanhol, o que lhes confere uma posição mais competitiva em relação ao mundo anglo-saxónico. Será assim de esperar no futuro uma consolidação brasileira na produção científica internacional em sociologia da saúde.

4. Formas de fechamento dos espaços de publicação internacional

É relativamente fácil encontrar entre os investigadores casos de rejeição de manuscritos em revistas internacionais. Umas vezes porque o artigo tem falhas efectivas do ponto de vista da sua construção, outras por o inglês não estar apelativo ou por não se respeitarem as políticas editoriais. Outras ainda sem que haja grande fundamentação para essa decisão, o que deixa no ar todo um conjunto de falsas questões que o investigador não consegue nem tem vontade de rebater.

O paradoxo é bem evidente: se por um lado sem publicações no espaço anglo-saxónico dificilmente se consegue legitimar a competência científica do investigador, o seu acesso é tanto mais facilitado quanto mais publicações anteriores houver nesses espaços[7]. Ora, como conseguir publicar quando não se detém o capital social necessário para o fazer? O objectivo deste trabalho não é dar resposta a esta questão, mas sobretudo evidenciar formas de fechamento que se encontram nas publicações internacionais e como essas dinâmicas são responsáveis pela inclusão de poucos e exclusão de muitos.

A primeira forma de fechamento, em especial para o mundo não anglo-saxónico, prende-se com a língua. As revistas mais cotadas têm uma noção clara quanto ao interesse e concorrência que envolve a publicação nesses palcos, que muitas vezes actuam como verdadeiros trampolins para os investigadores. É por isso relativamente fácil encontrar serviços de tradução técnica disponibilizados nos próprios sites das revistas. Trata-se de uma forma de incentivo à publicação a conjuntos mais alargados de investigadores, permitindo um acesso mais democratizado a estes espaços. Por outro lado, pode ser entendido como um dos mecanismos responsáveis pelo reforço da posição central destas revistas no universo competitivo da procura de artigos que potenciem os respectivos factores de impacto. A concorrência entre os investigadores está verdadeiramente globalizada.

Ora, não obstante esta aparente abertura, o espaço para a publicação nestas revistas acaba por manter formas de estruturação em torno dos países designados anglo-saxónicos, como o caso do Reino Unido, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Da análise a 135 artigos publicados em 8 números de 2009 na revista anglo-saxónica Social Science and Medicine, cerca de 78% provinham de um destes países[8]. Segue-se 13% de artigos oriundos de países europeus não anglo-saxónicos sobretudo do centro e norte europeu (e.g. Holanda, Alemanha, França, Suécia, Áustria ou Bélgica), 6% de países do resto do mundo como Israel ou Índia, 2% do Brasil e 1% da América Central, Latina e Espanha.

Foi um dado de grande importância perceber que apesar deste fechamento da publicação no mundo anglo-saxónico uma parte significativa dos artigos publicados respeita a realidades internacionais diversificadas como situações muito específicas na Ásia ou África. A questão é que o acesso à revista por parte dos autores oriundos desses contextos acontece, na maioria das vezes, por intermédio de um co-autor pertencente a instituições anglo-saxónicas. Raras são as vezes em que um autor ou conjunto de co-autores fora da centralidade anglo-saxónica conseguem publicar sem a intermediação de alguém pertencente a esse campo.

Quem já passou pela experiência de submissão de manuscritos para publicação em revistas desta natureza sentiu a dificuldade de entrada nesse espaço: por isso é de salientar que apesar do curto período dos artigos analisados (de Setembro a Dezembro de 2009) encontrou-se 24 autores que publicaram 2 vezes nesta revista e um que publicou 3 vezes. Um olhar pelos seus historiais de publicação na Social Science and Medicine permite comprovar como traço de regularidade a abertura conquistada neste espaço com publicações anteriores. Outro dado significativo é que 20 destes 25 autores são oriundos de países anglo-saxónicos como o caso dos EUA (9 autores), Reino Unido (7 autores), Canadá (3 autores) e Austrália (1 autor).

Tabela 3 – Origem dos autores nas duas revistas internacionais de maior cotação em Ciências Sociais em Saúde do espaço Anglo-Saxónico e brasileiro (valores em %)[9]

A situação da revista brasileira mais cotada no domínio das ciências sociais em saúde é algo distinta[10]. Como habitual nas revistas brasileiras, a Ciência & Saúde Coletiva aposta numa publicação com menos estruturações, permitindo artigos em inglês, português e espanhol. Seguindo uma ideia prévia, este traço pode ser interpretado como revelador de um estado emergente das revistas brasileiras numa fase de conquista do seu espaço na esfera das publicações internacionais de referência. Não obstante o domínio internacional do inglês escrito e falado, a aposta multilingue é, sem dúvida, um aspecto potenciador destas revistas em relação às anglo-saxónicas, ao permitir o acesso a públicos mais diversificados. Apesar de o inglês ser totalmente residual nos números consultados (4%) a publicação em inglês nestas revistas de cotação intermédia pode ser uma estratégia por parte dos investigadores fora do mundo anglo-saxónico para disseminarem mundialmente o seu trabalho. O objectivo é claramente utilizar estes espaços como rampa de lançamento, deixando acessível em bases de dados internacionais contributos passíveis de serem acedidos além fronteiras.

Portanto, mais do que um fechamento linguístico e de filiação institucional, como aquele que se encontra na revista anglo-saxónica, a preponderância da língua portuguesa e de autores brasileiros é revelador de que, por um lado, o número de autores brasileiros é por si só suficiente para catapultar estas revistas para o palco internacional e que, por outro, as revistas brasileiras estão longe de conseguir competir com o fechado mercado de revistas anglo-saxónicas. Aliás, em rigor nem será possível falar numa competição entre estes espaços dado que um traço característico que se retira da análise aos artigos é a existência de várias sociologias da saúde nestes dois universos linguísticos. Obviamente que se identifica um quadro teórico e de publicação que, invariavelmente, é convocado na reflexão sociológica brasileira. Mas a parte mais significativa da sua produção passa por uma conjugação de influências americana, francesa, brasileira e alguma portuguesa. Esta ideia comprova que a sociologia da saúde é actualmente constituída por um conjunto de intervenientes e palcos de disseminação científica que não se extinguem apenas na centralidade anglo-saxónica.

A existência de várias sociologias da saúde na Social Science and Medicine e na Ciência & Saúde Coletiva torna-se inequívoca na reflexão que abaixo se apresenta. Uma outra dimensão de análise que se equacionou para provar a existência de formas de fechamento das publicações anglo-saxónicas disse respeito ao modo como consolidam a sua posição por intermédio dos respectivos factores de impacto. À partida, o que se espera que este indicador traduza é a importância da revista no panorama internacional, com artigos mundialmente reconhecidos e citados noutras revistas.

Não sendo o caso destas duas revistas, sabe-se de revistas internacionais altamente cotadas em sociologia que apresentam explicitamente nos seus editoriais, como critério de selecção dos manuscritos, a inclusão de referências a outros artigos da mesma revista. Deste modo, procedeu-se a uma contagem da representatividade da auto-citação nestas duas revistas como forma de concluir se a posição detida pelas revistas decorre efectivamente da disseminação dos seus artigos ou de uma reprodução das suas citações nas suas próprias referências (em 269 artigos repartidos por 135 da Social Science and Medicine e 134 da Ciência & Saúde Coletiva).

Este indicador por si só deve ser interpretado com algumas cautelas. Em primeiro lugar, as referências dependem em muito do tema em análise, não sendo expectável encontrar acessível os mesmos assuntos de uma forma transversal na publicação internacional. Em segundo lugar, se se comprovou o fechamento da publicação anglo-saxónica em autores anglo-saxónicos não será de estranhar que esse seja o espaço preferencial para o desenvolvimento de debates específicos. Nessa medida, tem que ser equacionado o próprio capital social dos investigadores, podendo ser considerado normal – não só no universo anglo-saxónico mas em todos os países – uma tendência para a publicação nos espaços mais próximos à filiação dos investigadores. Afinal, não é só no campo internacional que os investigadores tentam entrar, mas também noutros campos de âmbito mais restrito. Foi, por isso, um traço recorrente que os autores espanhóis referenciem mais outros autores espanhóis, autores brasileiros outros autores brasileiros, etc.

Deste ponto de vista, mais do que concluir sobre efeitos perversos da auto-citação das revistas, onde se pretende chegar é à crítica quanto à importância conferida aos factores de impacto como medida de aferição da qualidade da revista, dos artigos e dos autores, como se o não acesso a esse espaço pudesse ser de algum modo revelador da não qualidade ou pertinência dos restantes espaços de debate[11]. Afinal, na base das dinâmicas de publicações estão factos sociais responsáveis por formas de estruturação destes espaços.

Asseguradas as cautelas devidas quanto à interpretação dos resultados que se apresentam, os valores são reveladores do que se afirmou anteriormente. Na Social Science and Medicine, o rácio de referências a artigos da própria revista em relação a artigos das 41 revistas contidas na lista de publicações seleccionadas é de 12 para 10, ou seja, para cada 10 referências a artigos do conjunto das revistas do campo da sociologia da saúde encontram-se 12 referências a artigos da própria Social Science and Medicine. Os valores que este rácio atinge para autores fora do espaço anglo-saxónico são reveladores da tendencial ideia que a publicação tende a ser facilitada através da reprodução de citações a artigos da própria revista. Por exemplo, no caso de autores da Europa não anglo-saxónica, para cada 10 referências a artigos do conjunto das restantes revistas, foram contabilizadas cerca de 24 referências a artigos da Social Science and Medicine.

Reforça-se a importância destes valores pela própria natureza conceptual da revista. A opção de proceder a estas contagens em revistas de ciências sociais procurou demonstrar esta antítese entre a abertura conceptual dos temas permitidos e o fechamento aos autores, não sendo de esperar que para os assuntos estudados mundialmente apenas a Social Science and Medicine apresente os únicos referenciais teóricos e empíricos. Aliás, em termos absolutos esta não é a revista mais cotada na listagem apresentada.

Uma vez mais, a revista brasileira apresenta como dinâmica o não fechamento. O valor desse rácio desce para os 4 em 10, o que significa que para cada 10 referências a artigos do conjunto das restantes 41 revistas do campo da sociologia da saúde, encontraram-se apenas 4 artigos à Ciência & Saúde Coletiva.

Como se percebe estas duas publicações em análise evidenciam processos distintos no modo como o campo da saúde é estruturado. Se a ideia de competição entre as revistas anglo-saxónicas existe no senso comum dos investigadores, a revista brasileira parece apontar para a existência de espaços diversificados de reflexão teórica e epistemológica em sociologia da saúde, contrariando a ideia que a produção científica internacional se encerra no estrito número de países dotados e visibilidade científica e de origem linguística inglesa. Um claro indicador disso é a quantidade de artigos referenciados entre o conjunto das 42 revistas. No caso Social Science and Medicine contabilizaram-se cerca de 717 referências enquanto na Ciência & Saúde Coletiva esse valor baixa para 492. Estes valores demonstram a construção de um espaço mais balizado entre as publicações anglo-saxónicas, o que aliás não é de estranhar pois esta listagem é dominada por essas revistas. A Ciência & Saúde Coletiva acaba por mostrar um alargamento dos temas abordados a outros palcos e contextos de publicação externos ao domínio estrito das revistas mais cotadas em saúde.

5. Elementos de reflexão sobre a publicação internacional

Percebeu-se em que sentido a publicação no espaço restrito das revistas internacionais representa uma das principais formas da legitimação da qualidade científica dos investigadores. É uma consequência de um mercado científico globalizado onde os fluxos de informação têm cada vez menos fronteiras e a mobilidade dos cientistas é elevada para outras escalas.

Pretende-se, contudo, orientar esta reflexão final para as cautelas que a publicação nesses espaços deve envolver e os efeitos perversos que daí podem decorrer, tanto para os próprios trabalhos, como para os espaços de debate nacional. Em primeiro lugar, convém não esquecer que ‘nacional’ e ‘internacional’ são atributos de natureza relacional. O carácter nacional para uns é internacional para outros, e vice-versa, pelo que deve ser desmistificada a importância atribuída ao simples facto de se “publicar lá fora”. Esta ideia contém uma enorme carga simbólica, mas que na verdade não traduz – nem nunca poderia traduzir – por si só qualidade teórica e acutilância científica em detrimento do que se produz ao nível nacional.

Na decisão de onde se publica, a natureza internacional da revista é apenas um dos factores em equação juntamente com outros, tais como os objectivos da revista, o público-alvo a quem o debate se destina e, porventura, o mais importante, a não-aceitação de instrumentalização do trabalho. De facto, não é assim tão inusitada a experiência de filtragem exercida pelos editores das revistas anglo-saxónicas, bloqueando muitas vezes o acesso ao processo de peer review. Argumentos como o inglês não nativo ou o não cumprimento dos objectivos editoriais da revista podem ser apresentados para propor aos autores alterações substanciais na forma dos seus manuscritos. Note-se que não está a ser posta em causa a função dos editores nestas revistas, nem tão pouco a experiência científica detida para o exercício desse lugar. No entanto, o processo de avaliação exercido pelos editores nem sempre assume os contornos de clareza e de objectividade científica esperados ou, mais importante, a função principal das revistas científicas que é a disseminação e a consequente democratização do acesso à ciência.

Deve-se por isso ter presente que a aprovação de manuscritos para publicação internacional e a tendencial dificuldade de acesso por parte de outsiders a esse espaço respeita uma conjugação de dois factores: (1) a coincidência entre o tema do artigo e os objectivos editoriais da revista e (2) coincidência entre a qualidade do artigo e a expectativa do(s) referee(s). As revistas científicas são assim verdadeiros campos delimitados empírica e conceptualmente, cujo fechamento a enfoques e autores tende a privilegiar contextos próximos ao seu espaço de actuação (ideia também comprovada por Seale, 2008, entre os autores ingleses e americanos).

A questão para a qual se chama a atenção é que o facto de um artigo não respeitar os objectivos editoriais da revista não traduz por si só problemas de qualidade. Existem simplesmente temas e debates cujo sentido e importância residem numa escala distinta daquela que uma revista internacional pode e interessa cobrir. É, pois, com algumas cautelas que se deve encarar a publicação internacional, ponderando, o público-alvo potencial do artigo e a pertinência do âmbito de discussão. Nem sempre a lógica comparativa interessa à discussão e nem todas as realidades empíricas têm a mesma relevância para públicos tão vastos. Além disso, importa não esquecer as consequências que a posição política e económica dos países representa sobre a esfera científica (Cf. Merton, 1938, op. cit. Crothers, 1987), pelo que será relativa a relevância internacionalmente atribuída a algumas dimensões internas à realidade portuguesa.

Como já se teve a oportunidade de afirmar, a leitura às publicações internacionais é crítica sobretudo quanto aos seus processos de fechamento e aos efeitos perversos que uma atenção desmedida para esse nível pode representar para o estado da ciência interna a cada país. Por isso, em segundo lugar, há que ponderar com seriedade as consequências que uma excessiva atenção às publicações internacionais pode representar em relação à produção nacional, naquilo que pode ser um tendencial esvaziamento do debate teórico e das realidades empíricas estudadas. A necessidade de reconhecimento internacional do investigador pode e deve co-existir com o enriquecimento de debates que fazem sentido a um nível de análise mais específico.

Em último lugar, e no caso da efectiva pertinência na publicação internacional, comprovou-se a existência de outros espaços onde o acesso pode ser mais facilitado e ao mesmo tempo ser possível a publicação em língua inglesa, mantendo assim o universo anglo-saxónico debaixo de olho. A publicação internacional está longe de se esgotar nas revistas anglo-saxónicas, não obstante o seu lugar estrutural e estruturante na produção e disseminação científica em sociologia da saúde. É, porventura, uma alternativa mais acessível para os outsiders a esse campo irem construindo a sua posição.

 

Referências

ANTUNES, Ricardo; CORREIA, Tiago (2009), “Sociologia da saúde em Portugal: contextos, temas e protagonistas”, Sociologia, Problemas e Práticas, 61, pp. 101 – 25.

BOURDIEU, Pierre (1989), O Poder Simbólico, Lisboa, DIFEL.

BOURDIEU, Pierre, et al (1999), A Profissão de Sociólogo, Petrópolis: Editora Vozes.

CAMARGO JR., Kenneth (2010), “O Rei vai nú, mas segue impávido: os abusos da bibliometria na avaliação da Ciência”, Saúde & Transformação Social, 1(1), pp. 3 – 8.

CROTHERS, Charles (1987[1994]), Robert K. Merton, Oeiras, Celta Editora.

STRAUS, Robert (1957), “The Nature and Status of Medical Sociology”, American Sociological Review, 22, pp. 200-204.

SEALE, Clive (2008), “Mapping the field of medical sociology: a comparative analysis of journals”, Sociology of Health & Illness, 30(5), pp. 677 – 695.

TURNER, Jonathan (2001), “Sociological theory today”, in Jonathan Turner (org.), Handbook of Sociological Theory, New York, Kluwer Academic, pp. 1 – 17.

UCHÔA, Elizabeth; VIDAL, Jean Michel (1994), “Antropologia Médica: Elementos Conceituais e Metodológicos para uma Abordagem da Saúde e da Doença”, Cadernos Saúde Pública, 10(4), pp. 497-504.


 

Anexo 1 – Ordenação das revistas internacionais em sociologia da saúde por factor de impacto para 2009 e respectiva origem

Nota: SOCIAL SCIENCE & MEDICINE, 2,71, Anglosaxónica[12]

[1]Esta contagem é feita para um total de 40 revistas dado que em duas delas não foi possível apurar os respectivos factores de impacto. Uma pertence à temática ‘ciências sociais aplicadas à saúde’ e a outra à ‘sociologia da saúde’ . O factor de impacto para o ano n é calculado através da soma das citações de artigos da revista nos anos n-1 e n dividindo pela soma de artigos publicados pela revista nos anos n-1 e n.

[2]Apenas está contabilizada uma revista, pelo que não se trata de um valor médio.

[3]Apenas está contabilizada uma revista, pelo que não se trata de um valor médio.

[4]De acordo com Seale (2008) existem traços distintivos marcantes entre a publicação inglesa e americana. A tendência maioritária é para a publicação de autores nativos ao espaço da revista, a que se associa a um maior enfoque dos estudos americanos em metodologias quantitativas e sobre temas marcantes da sociedade americana como a raça e outras formas de divisão social, enquanto os autores ingleses estão mais centrados em questões relativas a aplicações da teoria social em saúde.

[5]Excepção feita à revista francesa inserida nas ciências sociais em saúde.

[6]É de referir que embora se encontre na listagem das revistas em anexo uma publicação canadiana altamente cotada internacionalmente cujo título está escrito em francês (Revue Canadienne de Santé Publique), as línguas oficiais da revista são tanto o inglês como o francês, o que permite compreender a sua posição central no universo da publicação em saúde.

[7]Mais adiante será referido um conjunto estrito de autores que publicaram numa importante revista anglo-saxónica mais do que uma vez no curto espaço de 4 meses. Um traço comum a todos eles é um historial de publicação já consolidado nessa revista.

[8]A escolha desta revista deveu-se ao seu factor de impacto dominante para a dimensão ‘ciências sociais em saúde’. A opção por trabalhar revistas desta dimensão prendeu-se com a sua natureza estar associada ao domínio geral das ciências sociais, o que à partida favorece uma menor estruturação da possibilidade de publicação. Por outras palavras, escolheu-se uma dimensão, que pela sua natureza conceptual alargada, será mais difícil de comprovar dinâmicas de fechamento da publicação internacional. Ao serem efectivamente comprovadas fica demonstrado que nem a abertura conceptual das revistas favorece o acesso a estes espaços. A escolha de números de 2009 disse respeito ao ano a que se referem os factores de impacto apresentados na tabela em anexo, tendo-se escolhido 8 números por ordem cronológica (de Dezembro a Setembro), exceptuando 1 número temático.

[9]No caso de co-autoria foram considerados como critérios para a definição da pertença institucional a origem da maioria dos co-autores ou, no caso, de empate, a filiação do primeiro autor.

[10]À semelhança da opção metodológica que orientou a pesquisa na revista anterior, consultaram-se 134 artigos de 4 números de 2009 escolhidos por ordem cronológica. Seguiu-se o mesmo critério para a definição da pertença institucional dos autores.

[11]Em Camargo Jr. (2010) encontra-se uma reflexão semelhante, onde se explora as limitações e efeitos perversos de tomar os factores de impacto das revistas como principal critério indicativo da qualidade da produção científica.

[12]Dado que o corpo editorial estende-se maioritariamente por países como Inglaterra, EUA, Nova Zelândia e Canadá.

Autores: Tiago Correia

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2018-02-26T16:49:18+00:00