Ser Sociólogo: A construção profissional de um ethos. Pistas para a profissionalização dos sociólogos em contexto não académico

Nº 9 - maio 2015

Luís António C. Quaresma, Licenciado em sociologia pelo ISCTE-IUL em 2014. Tem colaborado em várias investigações nas áreas da sociologia da ciência, tecnologia e inovação, e da cultura, educação e integração social. Atualmente trabalha como técnico de estudos de mercado na Ipsos APEME, onde desenvolve análise de dados quantitativa e quantitativa aplicada ao mercado.

Resumo: O forte aumento do número de formados em sociologia, especialmente após a revolução do 25 de Abril de 1974, tem vindo a reconfigurar a posição dos sociólogos no mercado de trabalho em Portugal. Neste ensaio a importância dos vários aspetos da sociologia na integração profissional dos sociólogos são analisados à luz da relação entre aqueles que são referidos como os seus três pilares: ciência, formação e profissão. No geral procurou-se responder a questões levantadas na problemática da integração dos sociólogos no mercado de trabalho e identificar algumas pistas para a afirmação profissional dos sociólogos em contexto não académico

 

Palavras-chave: cultura profissional; formação; ciência; sociologia da sociologia.

Abstract: The great increase of the number of graduated in sociology, especially after the democratic revolution of April’s 25th of 1974, have reconfigured the position of sociologists in the Portuguese labor market. In this essay the importance of several aspects of sociology in the sociologists’ professional integration is analyzed in the light of the relation of those that are considered the three pillars of the sociology of professions: Science, education and profession. Overall we tried to answer the questions raised in the problem of integration of sociologists in the labor market and identify some clues to the assertion of sociologists in non-academic professional context.

Keywords: professional culture; education; science; sociology of sociology.

Introdução

Uma breve descrição do contexto social europeu mostra-se necessária, ainda que de forma breve, e simplista até, para melhor se perceber o desenvolvimento da busca pelo reconhecimento de cientificidade da sociologia e de algumas das questões que daí surgem. Um maior detalhe deste processo histórico incontornável, a que comummente se chama iluminismo, poderá ser obtido através da consulta de obras como a de Caldas e Ferreiro (2011).

O Iluminismo na Europa, tendo adquirido maior fulgor no séc. XVIII, teve as suas raízes no pensamento de intelectuais como Descartes, Locke, Bacon, e Newton, entre outros, que no século anterior lançaram as bases do racionalismo como a única forma de conhecimento aceitável, questionando e rebatendo assim os dogmas, principalmente religiosos, que se apresentavam como fonte principal do conhecimento até então. Este movimento voltou a atenção das sociedades para ideais como a liberdade e o progresso, numa perspetiva antropocêntrica sobre o mundo da época (Caldas e Ferreiro, 2011).

Esta perspetiva impulsionou uma reflexão generalizada do homem sobre si próprio e sobre a sociedade, se é que a distinção entre ambos não faça sentido apenas analiticamente. Posteriormente esta reflexão compartimentou-se e especializou-se dando origem a várias disciplinas (Elias, 2005).

Ora estas disciplinas procuraram desde cedo a afirmação do seu carácter científico e foram alcançando o reconhecimento da sua cientificidade pela validação, por parte da comunidade científica, de métodos e teorias construídos e empiricamente testados e comprovados.

Não obstante as diferenças substantivas e históricas, principalmente quanto à época em que apareceram como ciências, entre as ciências chamadas “naturais” e as ciências “sociais”, tendo as primeiras alcançado bastante mais cedo um carácter de autonomia e reconhecimento como ciência, tomamos em conta a “cientifização” do saber como um processo uno de compartimentação das disciplinas e especialização do conhecimento. A sociologia faz parte deste conjunto de áreas do conhecimento que tem construído a sua identidade na afirmação da sua cientificidade.

Esta afirmação de cientificidade é encarada como central na discussão da relação entre a sociologia como ciência e como profissão, pelo que um dos objetivos deste ensaio será o de contribuir para a discussão desta relação.

Outro dos objetivos será perceber a relação entre formação e profissão tendo em conta o carácter científico da perspetiva, dos métodos, das teorias e das técnicas aprendidos e que são considerados como intrínsecos à disciplina.

Entender algumas das dinâmicas de afirmação do sociólogo no mercado de trabalho, tendo como base a problemática da relação ciência-profissão será também uma finalidade.

Assim começar-se-á por definir a questão apresentando a problemática de uma forma breve, e aprofundar-se-á a mesma para em seguida dar uma, também breve, resposta a algumas das questões levantadas.

Numa fase posterior será sugerida uma análise à forma como se desenvolve a ciência, e como as condições sociais da sua produção e o seu carácter social podem influenciar a afirmação dos sociólogos em contexto profissional não académico.

Procurar-se-á também caracterizar a cultura científica dos sociólogos e propor uma tipologia de perfis profissionais de sociólogos baseada na relação entre os três aspetos considerados fulcrais da sociologia das profissões: ciência, formação e profissão. E aplicar-se-á esta tipologia numa análise de conteúdo realizada sobre as entrevistas realizadas a dois sociólogos em atividade.

Definindo a questão

Comecemos por perceber o potencial de aplicação às profissões “não académicas”[1] que a sociologia encerra, isto para ajudar a desmistificar a ideia que alguns defendem de que, “quem faz sociologia não exerce uma profissão, e quem exerce uma profissão não faz sociologia” (Costa, 1988, p. 111). Neste sentido, António Firmino da Costa responde: “’A sociologia? É o que fazem os sociólogos!’” (2009, p. 13). O autor acrescenta ainda que, “a sociologia, como qualquer especialidade científica e profissional, só se aprende efetivamente praticando-a” (2009, p. 26). A prática é então componente essencial daquilo que é a sociologia. É possível então ser sociólogo porquanto de alguma forma se utilize a sociologia na profissão/atividade profissional.

Mas por outro lado a sociologia é um conjunto de conhecimentos, teóricos e metodológicos, que se aprendem – o mesmo autor oferece uma definição da sociologia pelo objeto de estudo e pelos métodos e teorias – (Costa, 2009, p. 26) independentemente da forma como se aplicam (Incluindo atividades que alguns consideram como sendo inerentes a esta, como a investigação ou o ensino). Esta ideia surge também como resposta à questão:

Mas como aplicar a sociologia, sem primeiro a ter aprendido? Até porque se considera que sociólogo é também o profissional com formação académica em sociologia, e aqui tem-se em conta pelo menos o nível de licenciatura.

Assim, considerando o carácter fortemente científico da formação académica da sociologia, procurou-se caracterizar alguns aspetos da relação entre formação académica e profissão em sociologia, pelo que entre outras, surge a questão:

Como é que o profissional formado em sociologia articula a formação académica que denota um ethos tão marcadamente científico com o trabalho que realiza em contexto institucional, que não recorre a métodos científicos?

Assumindo que a formação de base é fundamental para a existência da profissão (Machado, 1996, p. 51), para chegar ao cerne da questão, é necessário explicitar alguns aspetos desta relação entre formação académica e profissão.

Mas não só, é necessário perceber também a implicação que a dimensão científica da sociologia tem nesta relação entre formação e profissão.

O problema recolocado

São duas as questões em específico que se mostram particularmente importantes na caracterização desta relação entre formação e profissão. A primeira consiste na relação dita multívoca que a formação em sociologia tem com a aplicação profissional das competências adquiridas em que, a uma formação corresponde um vasto leque de papéis profissionais possíveis (Costa, 2004, p. 47), ao contrário do que acontece com áreas do conhecimento como a medicina ou a arquitetura, só para referir os mesmos exemplos dados por António Firmino da Costa (2004), em que a uma formação corresponde uma profissão específica.

A segunda questão encarna a problemática identificada também por este autor como a dicotomia de culturas profissionais entre dois modelos de relação entre ciência e profissão: o modelo de associação e o modelo de dissociação[2] (Costa, 1988, p. 110).

Parece-me, contudo, que esta discussão vai além da problemática identificada por António Firmino da Costa quanto à dicotomia de culturas de associação/dissociação entre ciência e profissão por parte dos sociólogos, pois independentemente daquilo que estes possam considerar ser a relação entre ciência e profissão é preciso considerar que a sociologia se trata de uma área do conhecimento multívoca (Costa, 2004, p. 47) e que portanto não tem correspondência única com uma profissão, e ainda que é nesta combinação entre o carácter de múltipla correspondência de papéis profissionais da formação em sociologia com a dialética de associação/dissociação entre ciência e profissão que reside então a problemática da profissionalização de um conhecimento científico específico como o da sociologia.

O autor apresenta a resposta à problemática lançada da relação entre ciência e profissão com duas ideias que se mostram pertinentes nesta análise quando combinadas entre si.

A sociologia faz-se valer de um conjunto de metodologias, teorias e perspetivas que podem ser aplicadas a um vasto leque de exercícios ou papéis profissionais. Isto permite a aplicação destes métodos e teorias a atividades ditas não científicas. E então? A ciência só o é enquanto se mantiver “pura”? – Isto é, enquanto não se mistura com conhecimentos “não científicos”?

É então esta possibilidade de múltiplos papeis não definidos aprioristicamente que complica a relação entre ciência e profissão e que de alguma forma se reflete “[no] conjunto de normas, valores e representações de que os indivíduos são portadores, sobre a sociologia enquanto disciplina científica e enquanto atividade profissional…” (Costa, 1988, p. 107) a que se pode chamar cultura profissional dos sociólogos. Ou melhor, as culturas próprias dos sociólogos, porque se entende que não existe uma única cultura mas antes existam tantas culturas quantas seja possível que resultem de diferentes combinações de diferentes normas, valores e representações que os profissionais daquela área partilham entre si de forma não homogénea.

Outro aspeto a ter em conta quanto à multiplicidade de culturas entre os sociólogos está intimamente ligado ao facto de a sociologia, ao contrário do que acontece com outras profissões, ter como grande referente identitário a cientificidade da sua atividade.

Daqui surge novamente a questão:

Então como é que se relaciona o estatuto e representação de ciência próprios da sociologia com o trabalho não científico? – Aqui considera-se trabalho não científico o trabalho em que a aplicação de métodos ditos científicos, não é evidente, ou que pelo menos não mostra um nível de evidência comparável ao da formação.

Um dos condicionalismos à relação entre a sociologia como saber científico e como profissão provém da necessidade de esta se afirmar como ciência, e em que a dotação de protocolos de cientificidade tem tão grande poder constrangedor sobre o ethos da prática sociológica que o facto de a prática profissional não comportar uma devoção a protocolos de cientificidade hermeticamente delineados parece incomportável com a prática de uma área do saber científico.

a sociologia como ciência, diz respeito, fundamentalmente, a um conjunto específico de critérios e instrumentos cognitivos, conhecimentos acumulados e práticas de investigação. Núcleo constitutivo da sociologia, confere-lhe configuração própria enquanto uma das áreas consolidadas do saber contemporâneo, sendo ainda a base principal a partir da qual se desenvolvem as outras duas componentes (Costa, 2004, p. 35).

Isto levanta uma questão importante se tivermos em conta a evolução que a profissionalização da sociologia tem conhecido em Portugal, com o alargamento do número de papéis profissionais para além dos inicialmente instituídos de investigador e docente universitário. É que com o aumento dos “pedidos sociais”[13 (Costa, 1988, p. 112) realizados à sociologia aumentou também o número de sociólogos que trabalham em outras áreas de atividade como formadores, consultores, animadores, técnicos de marketing, técnicos de recursos humanos, técnicos superiores da administração pública, jornalistas, professores e outros, de forma a responder a estas diferentes formas de requisição do trabalho do sociólogo[4].

O aumento dos pedidos sociais em sociologia vem, em parte, do reconhecimento de que os métodos e as técnicas utilizadas pelos sociólogos são pertinentes para a análise da sociedade, o que se traduz num reconhecimento social científico dos conhecimentos que a sociologia acumulou.

Ora uma certa cultura de dissociação entre ciência e profissão vê como impossível a relação ética e deontológica do sociólogo com um objeto de estudo encomendado, e muitas vezes, construído por terceiros segundo critérios que não obedecem de forma rígida a uma cientificidade própria da profissão. Ao fazê-lo os apologistas de tal cultura de dissociação entre ciência e profissão levantam uma barreira entre cientistas e “profissionais de sociologia”, separando-os entre “puros” e “impuros” como Sainsaulieu (1987) nos mostra ter acontecido também em França num estádio de desenvolvimento da sociologia semelhante ao que esta atravessa hoje em Portugal.

Isto é passível de ser visto com especial destaque na relação entre problemas sociais e problemas sociológicos. Vejamos o que dizem Bourdieu, Chamboredon e Passeron acerca deste assunto:

Allen Barton e Paul F. Lazarsfeld observam que expressões como “consumo ostentatório” ou “crime do colarinho branco” constituem objetos específicos, irredutíveis aos objetos comuns, chamando a atenção para factos conhecidos que, pelo simples efeito da incorporação, a assumem um novo significado, mas a necessidade de construir designações específicas que, ainda que compostas por palavras do vocabulário comum, constroem novos objetos através da construção de novas relações entre os aspetos das coisas é pouco mais que um índice do primeiro grau de uma rotura epistemológica com objetos pré-construídos de sociologia espontânea (Bourdieu, Chamboredon e Passeron, 1973, p. 53)[5].

Na relação entre problema social e problema sociológico em contexto de pedidos sociais feitos à sociologia – quando o sociólogo trabalha fora da academia, contexto em que um certo estudo lhe é encomendado, por exemplo – o objeto de estudo em questão pode não ter um interesse verdadeiramente sociológico, podendo encerrar “apenas” um problema social. Nesta medida parece interessante perceber de que forma é entendida a aplicação dos métodos sociológicos (científicos) nestes casos. Parece também necessário evitar – a bem do desenvolvimento e afirmação da profissão de sociólogo fora do contexto académico e de investigação – a ideia, implícita, de que os problemas sociológicos pertinentes são exclusivamente epistemológicos.

Pode-se então dizer que a abordagem sociológica tem capacidade de fazer ciência transformando os objetos comuns em objetos científicos, isto é, transformando os problemas sociais em problemas sociológicos, através da aplicação de métodos científicos à realidade segundo teorias validadas.

Tendo em conta, por exemplo, os profissionais com formação em sociologia que “não desempenham funções profissionais como quadros ou técnicos superiores mas sim tarefas intermédias ou de execução”, e que representavam em 1996 cerca de 9% dos membros da Associação Portuguesa de Sociologia (Machado, 1996, p. 74), interessa perceber até que ponto estes podem ser considerados sociólogos.

Neste problema reflete-se novamente a importância dos papéis profissionais ligados à disciplina serem múltiplos. Não existe uma correspondência unívoca entre a formação e uma profissão. Esta multiplicidade de papéis profissionais possíveis varia assim, entre outros fatores, com a maior ou menor aplicação de metodologias, teorias e conhecimentos de base de formação em contexto profissional e com os níveis de aplicação de conhecimento científico, e faz também variar a cultura e representações dos profissionais.

Identifica-se então o que parece ser uma dualidade de perspetivas, por vezes antagónicas, quanto à relação entre ciência e profissão.

A resposta

Fernando Luís Machado (1996, pp. 83-84) refuta esta imagem de antagonismo, ao afirmar que “Não há um só contexto onde se faz sociologia – o dito campo académico –, mas que ela se faz numa pluralidade de outros contextos profissionais”, e como tal rejeita a dicotomia entre o “prático” e o “teórico”, o “fundamental” e o “aplicado” e sobretudo entre o “puro” e o “impuro”, pois, “os sociólogos que aí [fora da academia] desenvolvem atividade são eles próprios, para retomar uma expressão de Sainsaulieu, “portadores de questões e proposições teóricas”.”

Assim se verifica como é que uma incorporação do “saber sociológico” por parte do profissional que o utiliza, conforme se mostra necessário em contexto de trabalho é parte integrante daquilo a que se chama “fazer sociologia”.

As três componentes da sociologia das profissões, ciência, formação e profissão, “não existem umas sem as outras” (Costa, 2004, p. 37), e isto acontece porque se condicionam mutuamente, mas sobretudo nota-se a influência da vertente científica sobre as outras duas, de forma que esta condiciona largamente a componente profissão, sendo que a consideração que se tem da profissão enquanto sociologia cresce com o aumento da cientificidade dos procedimentos utilizados na profissão.

A profissionalização dos sociólogos, mas não só, faz-se com recursos combinados de saberes e competências de vários géneros que, como indica António Firmino da Costa (2004, p. 49), variam entre

  1. saberes e competências de base, isto é, diretamente provenientes dos programas de formação curricular iniciais;
  2. saberes e competências contextuais, decorrentes da experiência profissional adquirida nos contextos concretos de exercício da atividade;
  3. saberes e competências complementares, obtidos em cursos de formação, cada vez mais a nível pós graduado, no prolongamento direto da formação inicial ou em domínios por vezes bastante diferentes.

Na modalidade de relações multívocas entre formação e profissão, em que a sociologia se insere, faz-se corresponder à maior diversidade potencial e menor definição prévia de âmbitos de profissionalização e de papéis profissionais, uma maior diversidade de combinatórias de saberes e competências de base, contextuais e complementares, sendo que os respetivos pesos destes variam também resultando em diferentes perfis a que correspondem também variadas identificações profissionais (Costa, 2004, p. 49).

Contudo a relação das competências com os conhecimentos não é assim tão linear, pois:

estas [as competências], para além dos conhecimentos, em si mesmos, supõem a capacidade de, perante cada nova situação que se apresente e cada novo problema a enfrentar, selecionar os conhecimentos a mobilizar, de entre o leque de possibilidades disponíveis, e de os acionar de maneira especificamente adequada ao caso concreto (Costa, 2004, p. 57).

Mas ainda mais reveladora é a forma como o autor afirma que estas competências são desenvolvidas:

Ora esta capacidade só tem uma maneira de se adquirir e desenvolver: é a partir do respetivo treino concreto e exercício continuado, em situação [profissional], e, tanto quanto possível, com acompanhamento e orientação de colegas mais experientes neste processo (Costa, 2004, p. 58).

Aqui se percebe, de forma clara, a importância da experiência profissional para a aquisição de competências sociológicas efetivas. E também da formação contínua para a completa estruturação destas.

Tendo em conta que apenas numa fase mais tardia da inserção em contexto profissional se faz uma aplicação específica da sociologia à profissão, entende-se, somente a partir daí, existir uma verdadeira profissionalização da sociologia, pois é então que o profissional recorre à formação para responder a uma necessidade profissional que se pode interpretar como a necessidade de aplicar em contexto de trabalho, métodos e conhecimentos científicos, neste caso específico da sociologia, mas que creio se possa verificar com outras áreas do conhecimento. Isto não significa que a formação de base da sociologia seja incapaz de fornecer instrumentos adequados a um leque alargado de papéis profissionais, antes se reconhece que a profissionalização de uma área do conhecimento cuja relação com a profissão é multívoca se faz pela aplicação de conhecimentos especializados dessa área às necessidades da profissão e que essas necessidades só podem ser reconhecidas/identificadas pelo profissional e, em contexto de trabalho.

A cientificidade como separador

O facto de a formação em sociologia ter um carácter fortemente científico[6] parece ser de suma importância no que se refere à relação entre ciência e profissão. Pois se uma formação académica é científica, como é que a atividade a que esta dá origem pode não ser científica?

Não será somente no facto de a sociologia ser uma ciência que esta ideia assenta mas também, e sobretudo, na medida em que a profissão desempenhada pelo sociólogo pode, ou não, ser independente desta identidade científica.

Em primeiro lugar vejamos as ideias de Thomas Kuhn sobre o carácter social da ciência em geral, segundo nos mostra Barry Barnes quando assinala: “[the] constitutively social character of knowledge generally” (1982, p. x prefácio)

Assumimos que a ciência no geral seja produto de uma construção social. É feita, digamos, em comunidade, e é o tipo de comunidade científica em que se desenvolve uma ciência que define muito do que ela é, ou virá a ser. Vejamos o caso, em específico, da sociologia:

A interrogação sobre se a sociologia é uma ciência e uma ciência como as outras, deve ser substituída pela interrogação sobre o tipo de organização em que se insere o cientista e do funcionamento da mesma na medida em que é favorável ao surgimento e desenvolvimento de um objeto submetido a controlos estritamente científicos. (Bourdieu, et al., 1973, p. 103).

A ciência é então o fruto de uma comunidade, é o produto da “lavoura intelectual” que os indivíduos dessa comunidade fazem com recurso aos instrumentos teóricos e metodológicos, em suma a um paradigma aceite pela comunidade cientifica como válido: “…um paradigma é uma descoberta científica existente, uma abordagem específica da relação problema-solução, que ganhou aceitação universal ao longo de um campo científico como um procedimento válido e como um modelo de procedimento válido para uso pedagógico” (Barnes, 1982, p. 17).

A validação de um modelo ou problem-solution é intrínseca e devida à aplicação de métodos que são aceites pela comunidade como científicos. Sobre esta mesma questão Barnes diz-nos ainda que “Em ciência não existe o equivalente ao jornal do dia seguinte[7]: não existe uma base de validação superior à do julgamento contingente coletivo da comunidade que partilha esse mesmo paradigma”. (1982, pp. 50-51)

Ou seja, o conhecimento produzido segundo os métodos estipulados como científicos por uma determinada comunidade científica não necessita da aprovação externa, pois é a própria comunidade a entidade superior no referido campo de conhecimentos.

Ora os métodos, e teorias são aceites e validados como científicos por convenção numa determinada cultura científica.

Se a avaliação científica resulta da interpretação ativa de convenções, também assim será acerca daquilo que é considerado ciência. A fronteira entre o que é ou não científico deve ser ela própria uma convenção, gerada por um processo social (Barnes, 1982, p. 90)

O que é ou não ciência é decidido por convenção dentro da dita subcultura científica. E não só, mas também é por convenção dentro desta cultura que se definem quem são as entidades que, sendo produtores de ciência, ganham o estatuto de avaliadores do que é ou não conhecimento científico.

Assim a avaliação do conhecimento é em parte a avaliação da conformidade de aplicação dos métodos, teorias e demais instrumentos com os modelos de aplicação estipulados no seio da comunidade científica. Mas os cientistas de uma determinada comunidade não avaliam só o conhecimento. Avaliam também quem faz parte dessa comunidade, quem são os seus pares:

Tal como a avaliação da própria pesquisa e da de seus pares, eles [os cientistas] tem que definir quem esses pares são. Em conjunto com o resto da sociedade, eles devem decidir o que é um campo científico e o que é um pseudocientífico, o que é um argumento propriamente científico e o que não é… (Barnes, 1982, p. 90)

Este aspeto de convenção da ciência é de grande importância, vejamos novamente a sua aplicação ao caso particular da sociologia:

A esta nova questão [se a sociologia é uma ciência, e uma ciência como as outras], não podemos responder em termos de tudo ou nada: devem ser analisados, em cada caso, os múltiplos efeitos de múltiplos fatores que contribuem para definir as chances de desenvolver uma produção mais ou menos científica e distinguir, mais precisamente, os fatores que contribuem para aumentam as chances de cientificidade de uma comunidade científica como um todo e as chances que cada cientista a beneficiar dessas oportunidades em função da posição que ocupa dentro da comunidade científica (Bourdieu, et al., 1973, p. 103).

Bourdieu, Chamboredon e Passeron (1976) mostram que o aparecimento e produção de ciência pode ser influenciado por fatores que à partida poderiam parecer em nada influenciar esta produção. Uma vez mais, Pierre Bourdieu mostra a importância do carácter social da ciência no seu desenvolvimento:

Em suma, tal como Bloor e Barnes, os cientistas insistem no facto de os dados experimentais não bastarem por si para determinar em que medida uma experiência pode validar ou invalidar uma teoria, e é o consenso no seio de um núcleo central (core set) de investigadores interessados que determina se uma questão está ou não solucionada. Este consenso depende em grande parte de juízos sobre questões de honestidade, competência técnica, vínculo institucional, estilo de apresentação e nacionalidade (Bourdieu, 2006).

Isto mostra como, em parte, aquilo que uma comunidade científica considera como sendo científico, ou não, pode fazer parte de uma estratégia de proteção do estatuto da comunidade e das estratégias de cada cientista ou grupo, tendo em vista a manutenção ou promoção da sua posição dentro da comunidade científica referida. Neste sentido, por exemplo, um trabalho que inclua uma crítica ao trabalho de um sociólogo ou grupo, reconhecidos e com estatuto elevado poderá ter dificuldade em ser aceite como científico. Tem tudo a ver com a aceitação, por parte do grupo, de um comportamento (trabalho) que contraria a norma. Tendo em conta a ideia de Kuhn – conforme apresentada por Barry Barnes (1982, p. 52) – de que a (ciência) comunidade científica é uma subcultura, em que os paradigmas substituem as leis, contrariar um paradigma instituído é contrariar uma lei essencial ao funcionamento daquela cultura em que assenta todo um sistema de comunicação, e que, em casos mais extremos, pode comprometer o estatuto da disciplina como ciência.

Esta coerência entre membros de uma comunidade é fortalecida através de uma prática e de um conhecimento comuns. “Ao concordar em sobre um paradigma, cientistas não aceitam um produto acabado: em vez disso, eles concordam em aceitar uma base para trabalho futuro, e para o tratamento de todas as suas imperfeições e defeitos aparentes, como ilusórias ou elimináveis” (Barnes, 1982, p. 46).

Note-se a perspetiva do cientista de produção cega de conhecimentos em que todas as provas que contrariam o modelo aplicado são vistas como anomalias sem que o modelo seja colocado em causa. Isto comprova que a comunidade científica tende a reunir esforços para que o modelo de ciência aplicado se confirme.

Neste sentido verifica-se a importância da afirmação e da aspiração ao reconhecimento geral de cientificidade da sociologia na relação desta com a profissão, pois nem todo o conhecimento que é produzido em contexto de trabalho obedece às regras formais da academia. Antes surge como resultado do uso de instrumentos em que a teoria e métodos próprios da disciplina estão imbuídos, como assinala Pierre Bourdieu, quando refere “o papel dos instrumentos que, como dizia Bachelard, são saber formalizado feito coisa” (Bourdieu, 2006, p. 61).

O contexto histórico da disciplina também ajuda a explicar esta relação complicada entre ciência e profissão. Tendo em conta o que Barnes nos diz do pensamento de Kuhn: “O conhecimento adquirido a partir de uma formação científica é de facto o conhecimento da natureza; no entanto, ao mesmo tempo, é um sistema de convenções”. (Barnes, 1982, p. 41).

E sendo que o conhecimento científico se traduz num sistema de convenções, interessa saber como é que esse sistema de convenções surge.

O nosso sentido do que é convencional deriva da nossa atividade cognitiva em comunidade, e não vice-versa. Convenções são produto de processos cognitivos que envolvem decisões e acordos contingentes, e são continuados e desenvolvido através de outros processos cognitivos da mesma espécie. (Barnes, 1982, p. 41)

Aqui Pierre Bourdieu (2006) reforça esta ideia quando diz:

E citaria aqui Popper, que, numa intenção e numa lógica diferentes, sustenta, como Polanyi, que é a natureza social da ciência a responsável pala sua objetividade: “de forma muito paradoxal, a objetividade está intimamente ligada ao carácter social do método científico, porque a ciência e a objetividade científica não resultam (e não podem resultar) das tentativas de um cientista individual para ser “objetivo”, mas antes da cooperação amigavelmente-hostil de numerosos cientistas. A objetividade científica pode ser descrita como a intersubjetividade do método científico” (Popper, 1945, apud Bourdieu, 2006, p.115).

A imagem/representação que uma ciência tem deriva daquela que é a sua atividade desenvolvida por uma determinada comunidade, e esta imagem tende a manter-se até que a atividade da comunidade se altere substancialmente. Uma vez que a imagem da sociologia, enquanto ciência, foi formada com base nos desenvolvimentos teóricos e metodológicos conseguidos em contexto principalmente de investigação, mas também de ensino, a imagem da sociologia enquanto ciência estará intimamente ligada à investigação e ao ensino, até que outras áreas de aplicação da sociologia se afirmem, ou exista um reconhecimento da necessidade que a sociedade tem destas.

Aqui cria-se um ciclo vicioso, pois para uma afirmação destas outras áreas da sociologia é necessário, em parte, o reconhecimento destas por parte da comunidade científica, que pelo seu fechamento sobre si, até como estratégia de preservação, vai negando a estas outras atividades da sociologia, que não a investigação e o ensino, um reconhecimento da sua validade social que em muito poderia contribuir para o fortalecimento da posição dos sociólogos no mercado de trabalho.

Parece ser este o sentido da afirmação de Pierre Bourdieu: “A sociologia é socialmente fraca, e tanto mais, sem dúvida, quanto mais científica for.” (2006, p. 123). Isto certamente porque o fechamento da sociologia sobre si mesma com base na cientificidade da sua prática enfraquece a sua visibilidade social como prática com utilidade social.

Ora a sociologia tende, fruto do seu cariz reflexivo, a interessar-se por si própria e pelo seu produto. Mas se enquanto ciência esta se interessa, se autoexamina, enquanto objeto desse exame esta só tem interesse se tiver um impacto social significativo. Ou terá mais interesse quanto maior for o seu impacto social. Outra razão porque a utilidade da sociologia, e do sociólogo, se façam necessariamente sentir. Pois se a sociologia é uma ciência (com todos os instrumentos teóricos e metodológicos), esta é também uma profissão e o produto dessa profissão deve ser identificado e reconhecido socialmente.

 

A ciência como uma cultura, e tipificação de perfis profissionais de sociólogos

Segundo António Firmino da Costa, ciência, profissão e formação são os três pilares daquela que é chamada a sociologia das profissões. Tendo já tratado aqui as duas primeiras, importa ainda referir a componente da formação e a importância que esta tem na problemática apresentada.

Parte da aceitação do trabalho do sociólogo como ciência depende do reconhecimento que a formação em sociologia tem, como dotadora de instrumentos científicos. Isto porque a perspetiva, as teorias e os métodos científicos são comummente, e à vez, indicados como a valência maior dos formados em sociologia.

Entremos mais a fundo na questão para percebermos, aqui também, o peso da formação na cultura científica.

A definição de cultura de Anthony Giddens é, possivelmente, das mais comummente aceites e utilizadas pela comunidade científica da sociologia: “A cultura consiste nos valores de um dado grupo de pessoas, nas normas que seguem e nos bens materiais que criam”(Giddens, 2009, p.23).

Na conceção que faz da ciência, Thomas Kuhn concebe a mesma como uma cultura em que os paradigmas substituem as normas: “Ele [Kuhn] considera paradigmas como os componentes distintamente valiosos da cultura científica (…) A ciência é demarcada de outras formas viáveis de cultura pelo uso de paradigmas em vez de regras…” (Barnes, 1982, p. 52).

A ciência como uma forma de cultura que assenta em paradigmas em vez de regras. É compreensível esta conceção da ciência porque é ela própria geradora de normas, leis e, sobretudo, representações e artefactos.

Ora o papel fundamental da formação está na reprodução de uma certa forma de cultura através da transmissão de conhecimento, como Barnes uma vez mais nos mostra ser o pensamento de Kuhn:

A continuação de uma forma de cultura implica mecanismos de socialização e transmissão de conhecimentos, procedimentos para exibir o leque de significados e representações aceites, método de ratificação de inovações aceites e dar-lhes o selo de legitimidade (Barnes, 1982, p. 9)

Para esta transmissão são necessários mecanismos de socialização e métodos de ratificação de inovações. Este processo é feito através da formação, mas também da aplicação prática em contexto de trabalho.

Para de alguma forma resumir e caracterizar “as culturas” dos sociólogos, propôs-se a criação de uma tipologia que agrupasse os sociólogos segundo vários aspetos da sua cultura. A tipologia proposta não arroga ser exaustiva nem totalmente abrangente, antes tem como objetivo sugerir uma classificação simples “das culturas” profissionais de sociólogos. Para tal cruzaram-se aspetos objetivos como o tipo de profissão; se se resume à docência ou investigação em contexto universitário, ou não[8]; a formação complementar, se é na área da sociologia ou numa área complementar definida pela necessidade de resposta às exigências do mercado de trabalho; a utilização de métodos e técnicas específicos da sociologia em contexto profissional; bem como o tipo de trabalho produzido, com aspetos subjetivos como a representação que os sociólogos têm de si e da sociologia (ou do seu trabalho como científico ou não).

O cruzamento destas dimensões, todas elas dicotomizadas, deu origem a um número de perfis desnecessariamente elevado e com dimensões sobrepostas, pelo que se juntaram dimensões como o tipo de profissão com o tipo de trabalho produzido. E o tipo de formação com o tipo de métodos e técnicas utilizados em contexto de trabalho.

Esta junção deu-se por se assumir que à divisão do tipo de profissão em docente universitário ou investigador e, “profissional de sociologia”[9] corresponde a divisão do tipo de trabalho produzido, que é ele essencialmente teórico no caso dos investigadores e docentes universitários, e teórico-prático no caso dos profissionais de sociologia.

O mesmo critério foi tomado para a junção do tipo de formação, que se divide em concisa e difusa, tendo em conta se o prosseguimento da formação para além da licenciatura é realizado numa área específica da sociologia ou noutra área do conhecimento, com o tipo de métodos e técnicas utilizadas em contexto de trabalho. Atendendo a que uma especialização em sociologia conduz a uma maior utilização dos métodos próprios da disciplina, seja porque essa especialização potencie o acesso a profissões em que os métodos utilizados são essencialmente esses, ou seja porque, frequentemente, a escolha de uma especialização em sociologia se deve à necessidade de aprofundar conhecimentos numa determinada área, necessidade essa desenvolvida em contexto de trabalho, assumiu-se que uma formação concisa estaria ligada a uma maior utilização de métodos próprios da sociologia. Enquanto uma especialização noutra área do conhecimento pressupõe uma maior articulação de conhecimentos transversais – ou difusos.

As duas dimensões subjetivas consideradas foram divididas, quanto às representações que os profissionais têm da cientificidade do seu trabalho, entre aqueles que consideram ciência aquilo que fazem e os que não. Neste caso foi também considerado se os indivíduos se consideram a eles próprios como cientistas, ou não.

Assim construiu-se uma tipologia que conjuga as três principais áreas da sociologia das profissões: ciência, formação e profissão, e que classifica os sociólogos essencialmente em duas vertentes da sua cultura: a profissão e a formação segundo a influência que a imagem de cientificidade tem sobre estas (ver quadro 1).

Os perfis profissionais apurados revelam utilidade para classificar os sociólogos quanto ao tipo de profissão e tipo de trabalho desenvolvido, como “Cientista estabelecido” ou “Sociólogo militante”[10], a que correspondem respetivamente, por não se considerarem como cientistas ou como científico o seu trabalho, o “Professor por vocação” e o “Profissional desligado”.

Quanto à formação e ao tipo de métodos utilizados os sociólogos são divididos por este modelo em “Especialista militante” e “Cientista social”, tendo como correspondentes “não-científicos” o “Especialista desinteressado”[11]e o “Profissional da área”.

Quadro 1. Perfis profissionais de sociólogos

 

O facto de algumas dimensões poderem sobrepor-se fala da pertinência do modelo no que diz respeito à junção de categorias, enquanto o facto de estas apresentarem alguns aspetos essencialmente distintos dá razão à existência das categorias em que se inserem.Assim analisam-se os perfis profissionais dos sociólogos nas dimensões profissão e formação tendo em conta a forma como cada uma se relaciona com a imagem de ciência que os sociólogos têm da profissão, criando perfis coexistentes por se referirem a dimensões diferentes.

Contudo este modelo carece de comprovação empírica mais aprofundada, se bem que se trate apenas de uma proposta e os perfis resultantes apresentados sejam apenas uma indução de perfis possíveis e relativos à cultura do sociólogo, sem pretender dicotomizar nem apurar divisões já refutadas.

Cruzamento de especificidades, a formação de perfis profissionais de sociólogos

Procurou-se conhecer, ainda que a título de exemplo, alguns perfis profissionais de sociólogos com base na relação entre profissão e formação, experimentada por estes em contexto de trabalho, mas também nas representações de cientificidade de que estes são portadores acerca da sociologia e respetiva cultura profissional que incorporam.

Para tal entrevistaram-se dois sociólogos a trabalhar, um como formador no IEFP[12] e outra como docente universitária e investigadora. Filipa Almeida e José Terruta[13] são dois profissionais com percursos diferentes e que de alguma forma refletem a variabilidade de valores e representações passíveis de serem incorporados pelos sociólogos.

Identidade

Filipa é licenciada em sociologia e mestrada em sociologia da saúde e identifica-se como socióloga, mas afirma essa identidade em contexto profissional, eu defino-me como socióloga! A minha identidade profissional é socióloga. É ser socióloga. Como é que eu sou socióloga? Sou professora e sou investigadora. José por sua vez é licenciado em sociologia e mestrado em estudos africanos e assume uma identidade diferente: Considero-me um formador que aplica uma vertente da sociologia.

Estes dois casos são exemplos de como a identidade profissional é formada. Filipa assume-se como socióloga, e afirma a profissão de professora e investigadora como modo de expressão da sua identidade profissional. Assim, deixa perceber a importante questão de que é possível ser socióloga independentemente da profissão que se desempenha, e de que a sua identidade profissional provém da formação.

Já José afirma a sua identidade profissional como tendo origem na prática profissional, mais de que na formação.

Neste sentido são variados os conhecimentos transversais que se mostram muito úteis na aplicação de conhecimentos específicos ao contexto de trabalho, e cuja combinação contribui para a formação da identidade profissional do sociólogo.

Existe uma certa incorporação dos conhecimentos da sociologia em conjunto com outras áreas do conhecimento que cooperam para uma identidade difusa, que muitos continuam a considerar própria do sociólogo, e que outros assumem como resultando da resposta às necessidades do mercado de trabalho. José é exemplo disso e fala da força que os conhecimentos variados e transversais têm na sua identidade: somos absorvidos pela designação de formador, é mais um formador da área comportamental. Assumes essa identificação de formador da área comportamental. Enquanto Filipa utiliza métodos quase totalmente sociológicos, José utiliza muitos métodos de outras áreas do conhecimento, sendo que esta questão se reflete na identidade profissional de cada um.

Formação

O papel da formação não é aqui unidirecional, conduzindo o sociólogo à profissão, pois o inverso também se verifica. Na procura de responder aos desafios que se colocam em contexto profissional, o sociólogo procura, muitas vezes, responder com uma especialização do seu conhecimento, por exemplo, através da aquisição de conhecimentos e competências complementares, na sua área de formação ou noutra.

Aqui os critérios de aquisição de conhecimentos são variados e para além da procura de aprofundamento sobre uma área profissionalmente pertinente, fatores como o gosto pessoal ou a estratégia de garantir um maior leque de saídas profissionais possíveis, investindo numa área que de alguma forma possa complementar a formação inicial, podem ter uma importância elevada. Em termos de eu de adquirir competências mais aprofundadas que me permitam fazer o meu trabalho melhor, o doutoramento é importante, é muito importante! Isto demonstra também a utilização instrumental que é algumas vezes feita da formação.

A compatibilização da ciência com a profissão passa sempre pela formação complementar do sociólogo, muitas das vezes feita em contexto académico, como resposta aos desafios colocados/enfrentados em contexto profissional. Como refere Filipa: “É tudo um encadeamento, ou seja, eu não conseguia chegar ao doutoramento, ou, o doutoramento não faria sentido, se eu não tivesse a profissão que tenho, o doutoramento é o passo a seguir neste percurso profissional”. Verifica-se aqui que é o contexto profissional que determina a necessidade de prosseguimento da formação académica, e verificando-se esta necessidade, qual a área de estudos a prosseguir.

Esta formação pode ter efeitos variados na identidade do profissional, de reforço se a formação complementar for no sentido da formação de base, ou de difusão caso a formação complementar seja numa outra área, muitas vezes definida pelo contexto profissional. Aqui tem elevada importância a requisição que algumas profissões fazem de conhecimentos de áreas do conhecimento variadas.

José fala-nos desta necessidade de domínio de conhecimentos variados como sendo criada pelo mercado de trabalho: O mundo profissional obriga-nos a isso [a conjugar conhecimentos da sociologia com conhecimentos de outras áreas]! Eu não posso estar fechado na minha concha e dizer: ‘eu sou sociólogo, eu só faço isto’.

Sobre esta questão Isabel Garcias afirma que “A formação exigida é cada vez mais uma formação cruzada” (Garcias, 1999, p. 184). Esta ideia parece ser partilhada por José que afirma que, [a] competência de um sociólogo tem que ser necessariamente anexa a outras competências sociais.

A profissionalização tende a levar o sociólogo em contexto de trabalho a uma especialização de conhecimentos, independentemente de esta ser realizada formal ou informalmente e que resulta na combinação de conhecimentos e competências contextuais e complementares, segundo a definição dada por António Firmino da Costa (2004).

Experiência profissional

Mas o contrário também é verdade e existe uma necessidade premente de operacionalizar os conhecimentos aprendidos durante a formação de base, e até como forma de afirmação profissional pois nos contextos profissionais a afirmação do papel de sociólogo faz-se muito por uma postura de flexibilidade e adaptação ao mercado de trabalho fazendo valer essa capacidade de adaptação no sentido de mostrar facilidade de conjugar com a sociologia outros conhecimentos necessários à realização da tarefa, ou seja em termos individuais eu acho que nós temos que ter a capacidade de traduzir o que é que significa ter uma licenciatura em sociologia em competências objetivas, quer sejam transversais, quer sejam específicas (Filipa).

Até porque, segundo Filipa, a formação, [o doutoramento] não substitui a experiência profissional que eu tenho. Se na formação da identidade, a formação académica de base se sobrepõe à prática profissional, já a formação contínua não parece ser considerada como mais importante que a experiência profissional.

A experiência profissional ganha aqui um outro sentido importante, pois o facto de ambos os entrevistados terem escolhido a primeira atividade profissional como forma de aproximação à sociologia, leva a que tal experiência seja encarada como forma de exprimir os conhecimentos próprios da sociologia, o que nos trás de volta à problemática dos pedidos sociais em que o sociólogo tenta fazer a sua afirmação individual através do melhor desempenho profissional possível, o que acaba por contribuir para a afirmação da profissão como um todo.

Filipa diz que a afirmação do sociólogo, faz-se por esses dois lados. Pela profissão, pelo grupo em si, que é representado por uma associação. E essa associação tem, ou deveria ter um papel de afirmação profissional. Enquanto sociólogos [Individualmente], nós sabemos que não depende da nossa capacidade de afirmação nós afirmarmo-nos. Contudo acrescenta: em termos individuais eu acho que nós temos que ter a capacidade de traduzir o que é que significa ter uma licenciatura em sociologia em competências objetivas, quer sejam transversais, quer sejam específicas.

Pode notar-se em Filipa, que afirma ser sócia da APS, onde desempenha algumas funções, uma maior integração institucional, do que em José, que reconhece não ser associado de nenhuma associação profissional ligada à sociologia.

Percebe-se também que existe uma maior procura de afirmação da imagem de ciência em contexto institucional, pelo que a integração institucional pode influenciar a representação de cientificidade que os indivíduos têm de si e da sua profissão.

Cientificidade

José não se considera um cientista, e quanto à relação da profissão com a ciência afirma a necessidade de Sobrevivência! Eu acho que o sociólogo acaba por adaptar-se e ter de sobreviver, e fazer coisas a que, muitas vezes, até nem está habilitado, enquanto reconhece uma maior ligação com a ciência em contexto de investigação e ensino.

Já Filipa considera-se uma cientista social, mas no mesmo sentido afirma que o grau de adaptabilidade do sociólogo às necessidades das entidades empregadoras deve ser Total. Total tendo como fronteira o código deontológico.

A relação entre formação e profissão mostra-se complexa, considerando as relações entre dois aspetos subjacentes a cada um dos campos, a saber: a cientificidade da formação e a necessidade de integração e adaptação ao mercado de trabalho.

Identificação de perfil

Quanto à tipologia criada identificamos então Filipa Almeida como “cientista estabelecida” quanto à profissão e ao tipo de trabalho produzido, e como “especialista militante” quanto à formação e técnicas utilizadas em contexto de trabalho, enquanto José Terruta será melhor identificado como “profissional da área” quanto aos métodos utilizados e à formação e como “desligado” no que diz respeito à sua profissão e representação de cientificidade.

Conclusão

É possível que este ensaio coloque mais questões de que aquelas a que responde, contudo mostra-se possível apresentar algumas respostas às questões já lançadas.

A relação entre as componentes ciência, formação e profissão da sociologia não é linear, nem fácil de perceber no contexto pertinente de integração do sociólogo no mercado de trabalho não académico.

Parece aqui haver uma hierarquia de posições que tem como topo a sociologia como ciência, que é por assim dizer o lugar ou o estágio de sua criação. A vertente de formação da sociologia representa, essencialmente, as respostas da comunidade científica, no sentido de reproduzir a cultura científica da sociologia, ainda que esta dinâmica se aplique também a outras disciplinas. Por último, temos a sociologia como profissão, onde são aplicados os conhecimentos e onde a relação se complica.

Em certo sentido a comparação entre a profissão académica e de investigação, e não académica é inadequada se tivermos em conta as posições na hierarquia que cada uma ocupa, pois de certa forma são estágios diferentes de um mesmo processo e têm, como tal, funções diferentes. Compará-las é como comparar valores de ordens diferentes.

Uma cultura, científica ou não, não se pode reproduzir indefinidamente, independentemente de uma aplicação prática, sem a criação de bens, à sociedade em que se insere. Aqui se mostra a importância da profissionalização dos sociólogos, e tendo em conta a evolução do número de formados, esta profissionalização tem obrigatoriamente que ser realizada fora do contexto académico.

A relação entre ciência e profissão tem sempre a mediação da formação e, respondendo à questão anteriormente colocada:

Como é que o profissional formado em sociologia articula a formação académica que denota um ethos tão marcadamente científico com o trabalho que realiza em contexto institucional que não recorre a métodos científicos?

Podemos dizer o mesmo que diz Fernando Luís Machado: “os sociólogos que aí [fora da academia] desenvolvem atividade são eles próprios, para retomar uma expressão de Sainsaulieu, “portadores de questões e proposições teóricas”.” (1996, pp. 83-84)

É então uma certa incorporação “do saber sociológico” por parte do profissional que permite fazer sociologia em meios adversos (ou pelo menos diversos) do ponto de vista epistemológico. Aquilo que o sociólogo faz é aplicar os métodos, técnicas e teorias validadas pela comunidade científica, sendo que o produto dessa aplicação é, segundo o que nos mostra Kuhn, ciência. A realidade é que os métodos científicos são incorporados pelos sociólogos durante a formação, que depois os colocam em prática em contexto profissional. Assim cabe ao sociólogo decidir se os métodos que utiliza são os científicos, adquiridos na formação, ou quaisquer outros.

Todavia esta relação entre profissão de sociólogo e formação não tem um sentido único, ou seja, não é só a formação que determina a profissão, senão que o contrário também é verdade. Também o profissional em busca de conhecimentos específicos para dar resposta aos desafios profissionais que lhe são colocados, recorre a um aprofundamento da sua formação em sociologia, ou noutra área. Daqui surgem duas questões: a primeira é que o profissional escolhendo prosseguir a sua formação académica aprofundando o seu conhecimento em sociologia, faz uma afirmação da sua identidade como sociólogo, se bem que esta escolha também possa resultar de uma resposta às exigências do mercado de trabalho, à necessidade de “sobrevivência”; a segunda tem a ver que sendo a sociologia, como já se referiu, uma área do conhecimento multívoca, só após o reconhecimento dessas necessidades de especialização, o sociólogo pode escolher como prosseguir a sua formação, e esse reconhecimento só é possível em contexto profissional.

O reconhecimento da cientificidade da prática dos profissionais em sociologia pode ser retardado por estratégias de fechamento e defesa de posição da academia quanto aos cânones científicos da profissão, pelo que esta afirmação pode procurar fazer-se pelo desvendar da utilidade social da prática sociológica, e isto não é somente uma necessidade dos profissionais de sociologia, mas também um empreendimento sociológico.

Este reconhecimento pode ser facilitado pelo aumento dos pedidos sociais feitos à sociologia, nomeadamente no que diz respeito à investigação realizada fora do contexto académico confundindo a lógica anteriormente referida, colocando “os profissionais” a fazer investigação, a fazer sociologia e refutando a ideia de que “quem faz sociologia não exerce uma profissão, e quem exerce uma profissão não faz sociologia” referida por António Firmino da Costa (1988). Desta forma um reconhecimento da cientificidade da prática profissional não académica, por parte da comunidade científica não coloca em risco a imagem da sociologia como ciência, o que certamente facilitará este reconhecimento.

É então através da prática profissional que o reconhecimento científico da prática profissional dos sociólogos poderá surgir.

Referências bibliográficas

Barnes, Barry (1982), T. S. Kuhn and Social Science, New York, Columbia University Press.

Bourdieu, Pierre (2006), Para uma Sociologia da Ciência, Lisboa, Edições 70.

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Caldas, José e Maria Ferreiro (2011), “A economia política clássica”, Notas pedagógicas (policopiado).

Carreiras, Helena et al. (orgs) (1999), Profissão Sociólogo, Oeiras, Celta editora.

Costa, António Firmino da (2004), “Será a sociologia profissionalizável?”, in Carlos Manuel Gonçalves, Eduardo Rodrigues e Natália Azevedo (orgs.), Sociologia no Ensino Superior: Conteúdos, Práticas Pedagógicas e Investigação, Porto, Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pp. 35-59.

Costa, António Firmino da (1988), “Cultura profissional dos sociólogos”, Sociologia problemas e práticas, 5, pp. 107-124.

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Elias, Norbert (2005), Introdução à Sociologia, Lisboa, Edições 70.

Garcias, Isabel (1999), “O carácter plural do sociólogo na empresa”, em Helena Carreiras et al. (orgs), opcit, pp. 175-184.

Giddens, Anthony (2009), Sociologia, Lisboa, FCG.

Machado, Fernando Luís (1996), “Profissionalização dos sociólogos em Portugal: contextos, recomposições e implicações”, Sociologia Problemas e Práticas, 20, pp. 43-103.

Valente, Isabel, Fernando Luís Machado, António Firmino da Costa (orgs.) (1995 [1990]), Experiências e Papéis Profissionais de Sociólogos, Lisboa, Associação Portuguesa de Sociologia.

[1] Por profissões “não académicas” referimo-nos ao conjunto de profissões realizadas fora do contexto académico de ensino e investigação e, neste contexto, às quais os conhecimentos adquiridos com a formação em sociologia podem ser aplicados com reconhecido proveito.

[2] António Firmino da Costa refere-se a estes dois modelos como correspondentes a duas culturas de sociólogos que se dividem principalmente pela sua representação da possibilidade de a prática da sociologia fora do contexto académico (de ensino e/ou investigação) poder, ou não, ser científica e que se traduz em diferentes pontos de vista acerca de questões como a relação entre problemas sociais e sociológicos, preocupações deontológicas e atitude quanto à profissionalização entre outros.

[3] Por pedidos sociais entende-se as requisições para aplicação prática do saber sociológico por parte do mercado de trabalho e que se traduzem no aumento da quota de mercado de trabalho dos sociólogos.

[4] Para uma consulta mais aprofundada da diversidade de perfis profissionais dos sociólogos consultar: Valente, Machado e Costa (orgs.) (1995 [1990]).

[5] Todas as citações em língua que não o português foram pelo autor.

[6] Esta não é uma condição exclusiva da sociologia, contudo o exemplo usado serve o propósito de reflexão sobre um objeto em específico: a sociologia e a sua relação com a formação académica e profissão.

[7]Barry Barnes refere-se ao facto de, por norma, os jornais diários apresentarem a solução/validação dos quebra-cabeças e palavras cruzadas no número do dia seguinte.

[8] Esta divisão tem razão de ser na evolução histórica daquelas que têm sido as principais ocupações profissionais dos sociólogos.

[9] São assim chamados, para efeitos de distinção analítica, os profissionais com formação em sociologia que exercem profissões em contexto não académico, mesmo tendo em conta que professores universitários e investigadores são também profissionais de sociologia.

[10] Este é assim chamado pelo facto de considerar o seu trabalho científico apesar de não estar ligado ao ensino universitário nem à investigação em contexto académico, o que mostra “certa militância” quanto cultura de sociólogo-cientista defendendo de certa forma uma posição de associação entre ciência e profissão.

[11] Apesar de ter formação continuada em sociologia não se vê como cientista, apresentando-se desinteressado dessa imagem de sociólogo enquanto cientista.

[12] Instituto de Emprego e Formação Profissional.

[13] Os nomes dos entrevistados foram ficcionados para preservação do anonimato dos mesmos.

Autores: Luís António C. Quaresma

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2018-03-09T17:40:52+00:00