Sociografia dos inscritos e algumas reflexões sobre as modalidades de participação no VII Congresso Português de Sociologia

Nº 5 - novembro 2012

Cátia Santarém. Licenciada em Sociologia pela Universidade do Porto. Membro do Secretariado do VII Congresso Português de Sociologia. Endereço eletrónico: csantarem@gmail.com

Maria Ajuria. Licenciada em Antropologia Social e Cultural e Licenciada em Economia pela Universidade do País Basco. Membro do Secretariado do VII Congresso Português de Sociologia Endereço eletrónico: m.ajuria.hernandez@gmail.com

Paulo Machado. Doutorado em Sociologia pela Universidade Nova de Lisboa. Vice-presidente da APS. Professor Auxiliar na FCSH/UNL. Endereço eletrónico: pfmachado@fcs.unl.pt

Resumo: O VII Congresso Português de Sociologia realizou-se na cidade do Porto e contou com a presença de mais de um milhar de participantes, maioritariamente portugueses. A caracterização dos inscritos neste Congresso é um imperativo para se conhecer melhor quem participa, os trabalhos que são apresentados, as grandes tendências em termos temáticos. O VII Congresso registou uma presença massiva de ‘inscritos’ (n= 1086), um novo recorde de ‘documentos’ apresentados (n= 688, entre comunicações, textos distribuídos em sala e posters) e tornou evidente a vivacidade das 24 Áreas Temáticas que integram presentemente o cardápio da Sociologia que se pratica em Portugal, embora com dinâmicas distintas. Os dados revelam, igualmente, uma crescente juvenilização e feminização dos ‘inscritos’ e dos ‘autores’ dos ‘documentos’, bem como a progressiva internacionalização deste evento, cada vez mais participado por colegas que não têm uma formação académica em Sociologia, ou nem tão-pouco são provenientes das ciências sociais. Este facto, em si mesmo, sugere uma reflexão sobre a eventualidade de uma progressiva interdisciplinaridade sociológica.

Palavras-chave: Congressos Portugueses de Sociologia, Sociologia portuguesa, áreas temáticas

Abstract: The VII Portuguese Congress of Sociology held in Porto and was attended by more than a thousand participants, mainly Portuguese but also by an increasing number of foreigners from a growing set of countries. The characterization of those enrolled in this Congress is imperative to learn about who participates, the papers presented, and the major thematic trends. The Seventh Congress registered a massive presence of researchers (n= 1086), a new record of papers and posters presented (n= 688) and made evident the vitality of the twenty four Thematic Areas (Research Networks) that currently comprise the menu of sociology developed in Portugal.  The data reveal also an increasingly juvenilization and feminization of the ‘enrolled’ as well as the ‘authors’ of the papers (including posters), as well as the gradual internationalization of the event, attended by more colleagues who do not have an academic background in Sociology, or even on social sciences. This may suggest an increasing sociological interdisciplinarity tendency.

Keywords: Portuguese Congress of Sociology, Portuguese sociology, sociological development, research networks

Epígrafe

No Mundo contemporâneo estão a decorrer processos de mudança social com uma amplitude sem precedentes nas últimas décadas. A sociedade Portuguesa não é uma excepção a esse padrão, marcado pela intensidade, volatilidade e, em muitos casos, dificuldade de explicação dessa mudança, não se devendo perder de vista as permanências e os imobilismos.

A chamada crise financeira, fortemente mediatizada e de largo impacte à escala mundial, nacional, regional e local, denuncia e ofusca a existência de movimentos de reconfiguração profunda das instituições sociais: educação, trabalho, família, justiça, economia, ciência. Mas a crise é, afinal, um fenómeno social total, que importa captar através de uma reflexão sociológica profunda, apontando pistas de superação num sentido emancipatório. Recorrendo a uma ideia central do pensamento de Michael Burawoy, Presidente da International Sociological Association, e 1º Conferencista do próximo VII Congresso Português de Sociologia, o apelo primordial deste Congresso vai no sentido de reconhecer a ciência sociológica como uma interpelação crítica e construtiva da sociedade. A comunidade científica está, hoje, diante de um desafio de elevado risco: claudicar da sua autonomia analítica e subscrever as teses apriorísticas e convencionais do discurso leigo sobre a sociedade, ou agarrar o seu desígnio da compreensão e explicação da complexa realidade social, não como uma narrativa coadjuvante, mas sobretudo como narrativa crítica e construtiva.

Ao longo de mais de 25 anos, os sociólogos Portugueses responderam à chamada da Associação Portuguesa de Sociologia, reunindo um espólio de irrefutável qualidade científica e quantitativamente muito expressivo, assumindo as suas responsabilidades éticas e profissionais perante o colectivo.

O VII Congresso Português de Sociologia, a realizar na Universidade do Porto nos dias 19 a 22 de Junho de 2012, inscreve-se nesta tradição científica e cívica, e com ele se procurará demonstrar, uma vez mais, a vitalidade da nossa comunidade sociológica e a oportunidade do exercício dos sociólogos no quadro dessas profundas reconfigurações societais.

Texto de apresentação do VII Congresso Português de Sociologia, publicado on line em setembro de 2011

1. Introdução e nota metodológica

O VII Congresso Português de Sociologia, subordinado ao tema Sociedade, Crises e Reconfigurações, realizou-se entre 19 e 22 de junho, no Porto, promovido pela Associação Portuguesa de Sociologia (APS) e com o suporte de uma Comissão Local composta por representantes da Faculdade de Letras (FLUP) e da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPCE) da Universidade do Porto.

Os Congressos Portugueses de Sociologia realizam-se desde 1988 com uma periodicidade quadrienal, assumindo-se como a reunião magna da comunidade sociológica portuguesa: a grande festa! Sem exceção, todos os Congressos até agora realizados foram da responsabilidade direta da Direção em exercício, que para o efeito constitui uma Comissão Organizadora, composta por elementos do elenco diretivo, e que se alarga a Comissões Locais, parcialmente responsáveis pela realização destes eventos. Por tradição, estas Comissões Locais integram colegas sociólogos que exercem a sua atividade nos estabelecimentos de ensino superior onde os Congressos têm lugar.

A APS tem demonstrado, no âmbito da realização dos seus Congressos, uma preocupação em caracterizar a respetiva afluência, procedendo a breves sociografias. Todavia, a utilização de critérios de contagem diferenciados de evento para evento não favorece o conhecimento da evolução do número de inscritos e a alteração do seu perfil, ainda que os dados disponíveis e a experiência de participação permitam afirmar que o número de inscritos tem vindo a aumentar progressivamente, e o perfil a sofrer uma mutação no sentido de uma maior diversidade em termos de origem geográfica (com acentuada internacionalização), rejuvenescimento e nível académico atingido.

Nesta caracterização a principal unidade de análise é o ‘inscrito’ participante, entendendo-se como tal a pessoa que se registou no site do Congresso e que teve a sua entrada validada em qualquer um dos quatro dias do Congresso, independentemente de se encontrar na qualidade de ‘autor’ de um ‘documento’ (i.e., de comunicação, texto a distribuir em sala ou poster) ou de ‘assistente’ (sem documento submetido e aprovado).

Para a determinação do número total de pessoas presentes neste evento, haveria que acrescentar aos 1086 ‘inscritos’ (i.e., que validaram a sua entrada) todos os restantes colegas que foram convidados e que não tiveram que se registar no site do Congresso (ver ainda Anexo). Estimamos que o conjunto dos convidados (oradores das Sessões Plenárias, das Mesas Redondas, Sessões Especiais, Sessões de Esclarecimento e participantes nas iniciativas culturais) tenha sido de aproximadamente 100 pessoas, o que permite estimar em 1186 o número total de presentes no VII Congresso[1].

O projeto de caraterização sociográfica realizado neste documento incide, prioritariamente, sobre o universo dos 1046 ‘inscritos’ participantes, tal como o conceito foi definido anteriormente. Outras perspetivas de análise, nomeadamente as que incidem sobre os ‘documentos’ apresentados, são igualmente esboçadas, defendendo-se a sua pertinência para um conhecimento alargado deste evento.

2. Perfil dos inscritos

2.1 Estatuto dos inscritos

Entende-se por estatuto do inscrito a condição perante o trabalho da pessoa que se registou no site do Congresso[2].

Dentro da categoria mais representada, a dos ‘inscritos’ a exercerem uma atividade (com 492 registos – ver Gráfico 1), há a considerar, desde logo, as 78 inscrições com a modalidade de pagamento designada por voucher, a qual compreendia, além da inscrição no Congresso, uma inscrição na APS. Tal significa que a participação no Congresso alterou o estatuto desses participantes (passando a serem sócios da APS). Não se deve esquecer que os associados da APSIOT foram igualmente contabilizados nesta categoria (mas o seu número foi muito reduzido).

 Gráfico 1 – Inscritos, segundo a condição perante o trabalho

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

A segunda categoria com mais frequências, a dos estudantes, representou 46% do total das inscrições, com 479 registos. Nos termos das condições de inscrição definidas pela Comissão Organizadora, quem se encontrasse a frequentar um curso do ensino superior ou politécnico, incluindo alunos de pós-doutoramento, poderia registar-se como estudante. Ainda que não existam, como se referiu, dados estatísticos de Congressos anteriores que sejam diretamente comparáveis, admite-se como altamente provável que este tenha sido o Congresso que registou um maior número absoluto e percentual de estudantes.

É frequente que o número de sócios aumente nalgumas dezenas no período que antecede um Congresso, facto que ocorria antes mesmo da introdução da modalidade de voucher, em 2008.

Há uma referência a fazer à percentagem de inscritos com o estatuto de ‘desempregado’, que se situou nos 4% e correspondeu a 45 inscritos. Face ao número de sociólogos que estimamos estarem atualmente desempregados (ver Machado, 2011), este número corresponderá a cerca de 10% desse total. As condições de ingresso eram as mais vantajosas de todas as existentes (preços mais baixos). As dificuldades reais por parte destes colegas em assistirem a atividades que agregam centenas de diplomados em Sociologia e diplomados noutras ciências sociais, e dão a conhecer o estado da ciência sociológica e da sua profissionalização, pode configurar uma situação de dupla desvantagem para os colegas que não se encontram a exercer uma atividade.

2.1.1 Autores e assistentes

A categorização dos ‘inscritos’ participantes pode igualmente efetuar-se através da distinção entre ‘autores’ – participantes inscritos e que subscreveram a autoria de comunicações, textos a distribuir em sala e posters – e ‘assistentes’, i.e., aqueles que estiveram presentes e participaram nas diferentes Sessões, mas que não haviam submetido propostas.

Podemos constatar (Gráfico 2) que 64% dos inscritos foram autores, contribuindo assim muito significativamente para a dimensão que este evento tomou. Os restantes 36% participaram como ‘assistentes’. Pelos dados disponíveis de Congressos anteriores, a tendência para que a maioria dos participantes sejam ‘autores’ tem vindo a acentuar-se, e cruzando este atributo (de orador) com o estatuto (da inscrição), não constituirá surpresa saber que neste VII Congresso Português de Sociologia 45,6% dos ‘autores’ foram ‘estudantes’. Trata-se, de resto, de uma percentagem idêntica à que os ‘estudantes’ representam no conjunto dos ‘inscritos’.

Estes dados elucidam sobre as características estruturantes destes eventos da APS e do seu papel, relevantíssimo, de divulgação de trabalho de investigação de parte significativa dos ‘autores’ (quase metade da totalidade), muitos ainda em processo de formação. Estes Congressos desempenham uma função socializadora em termos de cultura científica, de autorreconhecimento (identidade grupal) e de proximidade às presenças carismáticas (Baptista e Machado, 2010)[3] (cuja função integradora não deve ser negligenciada), ou seja, e como referia Ferreira de Almeida em 1988 no seu discurso de abertura do I Congresso, apontando um caminho: “cumprindo objetivos de interconhecimento, de troca, de contacto e aprendizagem”. Estes dados esclarecem-nos, ainda, sobre a importância decrescente dos Congressos de Sociologia como eventos de plateia.

Gráfico 2 – Número de inscritos ‘autores’ e ‘assistentes’

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

2.2 Proveniência geográfica e idioma

Apesar da esperada predominância de ‘inscritos’ de nacionalidade portuguesa, é de evidenciar o elevado número de participantes inscritos estrangeiros (num total de 292), especialmente oriundos do outro lado do Atlântico, que apesar da distância física evidenciaram interesse e empenho na divulgação da sua produção científica, marcando presença neste Congresso: 199 do Brasil e 17 de outros países da América Central e do Sul; 3 da América do Norte (ver Gráfico 3). Também a presença de colegas provenientes de Espanha foi a maior de sempre (n= 29).

Esta distribuição determinou que as línguas mais representadas no universo dos ‘autores’ (colegas com comunicações, textos a distribuir em sala e posters) tivessem sido o Português, o Castelhano e o Inglês, por ordem decrescente dos falantes oradores nas Sessões Temáticas (cf. Gráfico 4).

Gráfico 3 – Inscritos, segundo a proveniência

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

Gráfico 4 – Autores por idioma de apresentação das comunicações, textos e posters

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

É interessante, na perspetiva do conhecimento das Áreas Temáticas que registam maior interesse por parte dos colegas estrangeiros que submeteram trabalhos ao VII Congresso, conhecer a distribuição dessas mesmas participações (Gráfico 5).

Estes dados não podem ser tomados como indicadores diretos de um maior intercâmbio temático entre sociólogos portugueses e estrangeiros, nem tão-pouco da vitalidade destes campos temáticos (ou subdisciplinas sociológicas) nos respetivos países de origem. Porém, para a Sociologia portuguesa são bastante úteis porque não deixam de refletir uma influência mais direta sobre os sociólogos que presenciam estas apresentações e conhecem os seus autores, mas também sobre todos aqueles que, posteriormente, acedem a estes textos uma vez publicados nas Atas dos Congressos (todas elas disponibilizadas na Biblioteca virtual do vortal da APS).

Gráfico 5 – Autores por áreas temáticas, segundo a língua utilizada

 

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

Assim, a leitura do Gráfico 5 permite concluir que todas as Áreas Temáticas, com exceção de ‘Saberes e Experiências Profissionais’, receberam contributos de autores estrangeiros, dos quais se destacam os colegas brasileiros, e estes com bastante presença em ‘Crenças e Religiosidades’, ‘Ambiente e Sociedade’, ‘Sociologia da Edução’, ‘Sociologia do Consumo’. É mesmo de salientar que nas duas primeiras o número de apresentações de estrangeiros ultrapassou o número de apresentações da responsabilidade de colegas portugueses. Em relação à Área Temática ‘Globalização, Política e Cidadania’, o número de ‘documentos’ em inglês é bastante impressivo (11).

Por ora, estes dados não permitem uma interpretação sustentada em qualquer hipótese, mas interessará aprofundar uma questão exploratória sobre a existência de diferenças nos perfis temáticos da produção sociológica entre as comunidades sociológicas dos diferentes países (no caso, e pensando nos colegas brasileiros, que pensam e escrevem em português). O que os dados inequivocamente apontam é para uma muito elevada resposta ao repto lançado pela Comissão Organizadora (i.e., submissão de propostas, que atingiu no final da 2ª chamada, em fevereiro, o número de 1367 propostas aprovadas[4], correspondendo a um total de 1599 autores[5]), significando que a comunidade viva, ativa e empenhada na análise das diferentes reconfigurações societais, numa lógica de crescente interdisciplinaridade e beneficiando de uma progressiva internacionalização do Congresso, esbatendo fronteiras.

Interessa, de resto, neste domínio da análise à participação de estrangeiros nos congressos portugueses de Sociologia, conhecer um pouco mais aprofundadamente as duas maiores comunidades: a brasileira e a espanhola.

2.2.1 A presença brasileira e espanhola no VII Congresso

No que respeita aos colegas brasileiros inscritos no Congresso (n= 199), observamos que a sua participação se traduziu num total de 112 ‘documentos’, distribuídos em várias Áreas Temáticas (ver Tabela 1).

Em relação à sua proveniência não se verificou qualquer hegemonia de uma universidade, tendo-se registado, outrossim, presenças de colegas originários de vários Estados.

Já em relação aos colegas provenientes de Espanha (num total de 29), há a registar uma ampla representação da Região Autónoma da Galiza (Gráfico 6), que se explica pela proximidade geográfica ao evento (Porto), mas porventura ainda mais pela experiência de intercâmbio entre as universidades portuguesas do Norte do País e as universidades galegas[6].

Por outro lado, no total foram apresentados por colegas espanhóis 10 ‘documentos’, tendo sido a Área Temática ‘Migrações, Etnicidade e Racismo” a mais participada (ver Gráfico 7).

Tabela 1 – Número de documentos apresentados pelos inscritos brasileiros

 Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

 Gráfico 6 – Procedência dos inscritos espanhóis, por universidade

 

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso. Nota: As universidades destacadas pertencem à Região Autónoma da Galiza.

Gráfico 7 – Número de ‘documentos’ apresentados por inscritos espanhóis, por Área Temática

 

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

2.3 Perfil sociodemográfico dos ‘inscritos’

2.3.1 Idade

A distribuição etária, dos que responderam a essa questão, revela que a maior fatia dos participantes se concentra no escalão entre os 26 e os 35 anos (20%) e entre os 36 e 45 anos (15%) – ver Gráfico 8. Trata-se, com efeito, de um universo de participantes bastante jovem, porventura ainda mais jovem que em Congressos anteriormente organizados pela APS. De notar que o número de jovens com menos de 25 anos é equivalente ao dos ‘inscritos’ com idades entre os 46 e os 55 anos de idade. De resto, uma outra observação é possível: o número daqueles que têm menos de 35 anos é praticamente o mesmo daqueles que têm mais de 35 anos.

Gráfico 8 – Inscritos, segundo o escalão etário

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

2.3.2  Sexo

Na diferenciação por sexo (ver Gráfico 9), um dos aspetos que desde logo ressalta é a maior percentagem de ‘inscritos’ do sexo feminino (64,2%), face aos do sexo masculino (35,8%). Esta relação assimétrica, favorável às mulheres, é congruente com os dados que dispomos sobre a relação de masculinidade dos diplomados em Sociologia, e convergente com o que ocorreu em anteriores Congressos, designadamente a partir do III Congresso. Adiante (ver o ponto O Congresso e a participação nas áreas temáticas) retomar-se-á esta variável numa apreciação estatística bivariada sobre a participação nas Áreas Temáticas.

Gráfico 9 – Inscritos, segundo o sexo 

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

2.3.3 Área de formação

Ainda que limitados pela circunstância de 58% dos participantes inscritos não terem preenchido o campo de informação relativo ao seu background académico – que aqui operacionalizámos dicotomicamente entre ‘sociólogos’ e ‘não sociólogos’ (ver Gráfico 10) -, dos 423 que acionaram essa distinção a distribuição é quase simétrica.

Gráfico 10 – Inscritos, segundo a formação disciplinar

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

Não obstante, a observação direta e o conhecimento de muitos dos colegas presentes permite hipotetizar que de entre os 603 relapsos a maioria eram ‘sociólogos’. Tal não significa que se despreze um dado da maior importância: pelo menos 220 ‘inscritos’, quase seguramente várias dezenas mais, não eram diplomados em Sociologia. E este facto é, em si mesmo, uma novidade nos Congressos organizados pela APS, porquanto essa proporção sempre foi bastante diminuta, ou mesmo residual.

A interpretação que caberá fazer sobre a presença de ‘não sociólogos’ no VII Congresso remete-nos, entre outras, para a importância da crescente interdisciplinaridade das práticas científicas, mutação que importa explorar com observação adicional e outro grau de completude em documento próprio.

2.3.4 Experiência profissional dos sociólogos e saberes parceiros da Sociologia

Já quanto à experiência profissional verificamos (ver Gráfico 11) que na categoria ‘sociólogos’ há uma maior proporção de profissionais de longa duração: nomeadamente 39% dos sociólogos ‘inscritos’ já estão inseridos no mercado de trabalho há mais de 10 anos; 26% entre 5 e 10 anos de atividade, e 35% do total de inscritos com menos de 5 anos de atividade profissional.

Em certa medida, os ‘inscritos’ no Congresso, diplomados em Sociologia, estão polarizados pela longa e curta experiência profissional. A categoria intermédia acaba por representar pouco mais de ¼ (26%) dos sociólogos que participaram neste evento.

Dentro da categoria dos “não sociólogos” permanece um grande número de respostas incompletas (n= 54), sem indicarem área de pertença (ver Gráfico 12). Dos restantes 171, é de realçar a maior participação de pessoas ligadas às áreas das ‘ciências da comunicação e jornalismo’, ‘ciências económicas e gestão’, ‘ciências da educação e pedagogia’ e ‘antropologia’.

Gráfico 11 – Sociólogos: anos de profissão

 

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

Gráfico 12 – Não sociólogos: áreas de formação

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

Com menor número de participantes, mas demonstrando um alargamento da proximidade interdisciplinar da Sociologia a outras áreas do conhecimento, podem reconhecer-se outras ciências sociais e humanas (‘história’, ´geografia’, ‘ciência política’, ‘psicologia’, ‘direito’) mas também outras áreas do conhecimento tradicionalmente com menor proximidade à Sociologia (‘educação física e desporto’, ‘engenharia’, ‘arquitetura’).

3. O Congresso e a participação nas Áreas Temáticas

3.1 Os ‘documentos’ aprovados e as Áreas Temáticas

À semelhança dos Congressos anteriormente organizados pela APS, também o VII Congresso se estruturou, no que respeita às 221 Sessões Temáticas realizadas, em torno das Áreas Temáticas hoje existentes (aprovadas em Assembleia-geral). Estatutariamente, algumas delas foram constituídas em Secções[7], outras permanecem como Áreas[8], correspondendo a processos de desenvolvimento subdisciplinar distintos no quadro da APS. Cabe relembrar que este VII Congresso foi o primeiro no qual as Secções e as Áreas Temáticas (as primeiras com representantes já eleitos; as segundas por via de colegas indicados pela Direção) foram diretamente responsáveis pelo blind refereeing das propostas.

Não é, de todo, despiciendo o esforço de caracterização da participação no Congresso, segundo as 24 Áreas Temáticas reconhecidas na APS (ver Gráfico 13)[9], cujo volume de ‘documentos’ gerados é bastante desigual, como vem ocorrendo de há muito tempo a esta parte.

Gráfico 13 – ‘Documentos’ aprovados, por Área Temática

 

Fonte:    APS/Base de Dados do VII Congresso. Nota: Julgou-se importante integrar uma 25ª área, designada por intertemática, porque corresponde a ‘documentos’ cujo conteúdo foi entendido pelos referees como intersticial em relação às Áreas Temáticas existentes, mas julgado procedente para efeitos da sua apresentação no VII Congresso Português de Sociologia.

 

Impõe-se uma clarificação dos dados agora apresentados, em concordância com as preocupações que se deixaram expressas logo no início deste documento. Com efeito, o número de ‘documentos’ aprovados (ou validados pelos referees, se se preferir) foi de 1373 – num total de 1445 submetidos -, a que corresponde uma taxa de aprovação global de 95%. Porém, o número de ‘documentos’ efetivamente apresentados no VII Congresso foi de apenas 688, ou seja, 50% do total de ‘documentos’ aprovados. O Gráfico 14 permite apreciar os ‘documentos’ apresentados, ordenados por Área/Secção Temática, decrescentemente.

Gráfico 14 – ‘Documentos’ apresentados, por Área Temática

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

3.1.1  O caso particular das desistências

Ainda que não sejam inéditas desistências de participação nos Congressos da APS (como se presume que ocorra em todos os eventos científicos), e não dispondo de dados numéricos comparativos, somos levados a admitir que esta percentagem de ausências de autores com ‘documentos’ aprovados foi uma das maiores desde que se realizam Congressos Portugueses de Sociologia, se não mesmo a maior desde 1988 (data do I Congresso). Embora não exista uma causa única para tão elevado número de desistências, não será alheia a este facto a difícil situação financeira das Universidades e dos Centros de Investigação, bem como de outras entidades (públicas e privadas) empregadoras de sociólogos, a limitada disponibilização de financiamentos públicos e a própria situação financeira de muitos colegas, incapazes de suportar os custos da sua participação no Congresso e presença no Porto. Esta é uma realidade que acentua fortemente um problema que não é novo[10], mas que se agravou, comprometendo a presença de centenas de sociólogos e retirando visibilidade ao seu trabalho.

A comparação entre os indicadores de desempenho dos VI e VII Congressos, respetivamente em 2008 e 2012, não evidencia diferenças relevantes em termos do número de comunicações por Sessão, do número de pessoas presentes nas Sessões, do tempo consagrado à discussão, ou mesmo do nível de satisfação expresso pelos Moderadores (ver Gráfico 15).

 Gráfico 15 – Indicadores de desempenho dos VI e VII Congressos Portugueses de Sociologia

 

Fonte:    APS/Inquéritos aos Moderadores das Sessões. Notas: A escala do Nível de Satisfação de 2008 (de 6 pontos) foi adaptada para efeitos de comparação com a utilizada em 2012 (de 7 pontos). Em 2008 realizaram-se 140 Sessões Temáticas (Mesas): em 2012 realizaram-se 221 Sessões Temáticas. Esta diferença significa que as taxas de resposta dos Moderadores ao Inquérito realizado foi em 2008 e 2012 foi, respetivamente, de 94,3% e 64,3%.

Porém, esta equivalência dos perfis dos eventos de 2008 e 2012 teria sido diferente (eventualmente inexistente) se a percentagem de desistências não fosse a registada. Aliás, a observação crítica em 2012 mais frequente por parte dos Moderadores (e de muitos dos presentes) foi, precisamente, a ausência previamente não comunicada por parte de muitos ‘autores’: se favoreceu o tempo disponível para discussão, também comprometeu a dinâmica de algumas Sessões e gorou expectativas de quem pretendia ouvir ‘oradores’ (que afinal estiveram ausentes). Dir-se-ia que o seu efeito foi, em termos gerais, de uma (falsa) estagnação do potencial da comunidade sociológica que aderiu ao Congresso, quando os dados iniciais (submissões) indicavam um crescimento muito acentuado.

Finalmente, estas desistências levantam um problema metodológico não despiciendo – diante dos objetivos do presente documento – e que consiste em perceber que dinâmicas caracterizam as Áreas Temáticas da Sociologia portuguesa (e da que nos visita) nos últimos anos. É que, se por um lado, e face aos dados disponíveis (para eventos anteriores), se pode comparar diretamente os ‘documentos’ apresentados nos Congressos, por outro lado a comparação com os ‘documentos’ submetidos e aprovados acaba por parecer a mais adequada para a compreensão dessas mesmas dinâmicas. Procura-se no ponto seguinte desenvolver uma análise que concilia, o melhor possível, estas duas abordagens.

3.2. As Áreas Temáticas em perspetiva histórica

É indiscutível que as cinco Áreas com maior número de ‘documentos’ submetidos e aprovados em 2012 foram as seguintes (ver Tabela 2):

  • ST5 – Trabalho, Organizações e Profissões (n= 127)
  • ST1 – Sociologia da Educação (n= 104)
  • ST12 – Arte, Cultura e Comunicação (n= 97)
  • Globalização, Política e Cidadania (n= 85)
  • Cidades, Campos e Territórios (n= 80)

No conjunto, elas representaram mais de 1/3 (36%) do total dos ‘documentos’ aprovados até abril de 2012 (na 1ª e 2ª avaliações efetuadas), o que não surpreende porque são Áreas com tradição na investigação sociológica em Portugal, muito embora nem sempre tenham tido a mesma posição relativa no conjunto das Áreas Temáticas mais concorridas (ver Tabela 2 e Tabela 3, adiante, para uma análise mais exaustiva). Com efeito, na Tabela 2, referente a ‘documentos’ efetivamente apresentados (i.e., com os ‘autores’ presentes no Congresso), esta ordenação é ligeiramente afetada por troca das posições entre ‘Globalização, Política e Cidadania’ e ‘Cidades, Campos e Territórios’, pelo facto desta última ter tido uma percentagem de ausências menor (ver Tabela 3).

Todavia, em termos comparativos (entre Congressos), houve mudanças sensíveis entre as primeiras posições – e mesmo entre as outras posições – nos últimos oito anos (ver ainda Tabela 3 e Tabela 4). É evidente que se esta análise fosse realizada com a convocação do número de propostas aprovadas (incluindo as não apresentadas), verificar-se-ia a extraordinária explosão do número de submissões em praticamente todas as Áreas. Com exceção de ‘Saberes e Experiências Profissionais’ e de ‘Família e Género’ (que estabilizou o número de ‘documentos’) todas as restantes Áreas Temáticas teriam crescido, nalguns casos bastante acentuadamente.

Tabela 2 –    Áreas Temáticas mais concorridas – ‘documentos’ apresentados (dados dos V, VI e VII Congressos Portugueses de Sociologia)

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

Tal não foi, porém, o caso quando a análise incide sobre as propostas que chegaram até às Sessões Temáticas do VII Congresso. Nesta perspetiva, ‘ST12 Arte, Cultura e Comunicação’, ‘Saberes e Experiências Profissionais’, ‘Família e Género’, ‘Identidades, Valores e Modos de Vida’, ‘ST5 Trabalho, Organizações e Profissões’ e ‘Teorias e Metodologias’, registaram decréscimos de 2008 para 2012. No caso particular da Área Temática ‘Família e Género’ haverá que considerar o facto de propostas que no passado seriam submetidas no âmbito desta Área Temática poderem estar agora a ser submetidas em ‘Sexualidade e Género’.

Todas as restantes Áreas observaram crescimentos muito elevados, cabendo destacar aqueles que ocorreram em ‘Sociologia do Desporto’ (114,3%), ‘ST9 Segurança, Defesa e Forças Armadas’ (100%), ‘Crenças e Religiosidades’ (84,6%), ‘Modernidade, Incerteza e Risco’ (81,8%), e ‘ST2 Sociologia da Saúde + ST13 Sexualidade e Género’ (79,3%). Estas serão, muito possivelmente, as Áreas emergentes da sociologia portuguesa contemporânea, cuja dinâmica (nomeadamente nos interfaces estabelecidos com as Sociologias praticadas noutros países – e em especial naqueles que mais nos visitam aquando destes eventos) moldará as transformações em curso na Sociologia dos nossos dias, suscitando outras exigências, teóricas, metodológicas, e novas redes de interconhecimento científico entre sociólogos portugueses e estrangeiros. Estes dados foram retirados da Tabela 4, em conformidade com o ordenamento plasmado na Tabela 3, a qual constitui um exercício de equivalências das Áreas Temáticas, cuja recomposição assistimos nos últimos anos[11]. Ele permite, ainda, perceber que algumas Áreas têm crescimentos mais modestos ou mesmo negativos.

No extremo oposto ao que sinalizámos no parágrafo anterior, encontramos as Áreas que registaram um menor número de propostas submetidas:

  • ST11 – Sociologia das Emoções (n= 24)
  • ST4 – Classes e Desigualdades (n= 18)
  • Saberes e Experiências Profissionais (n= 5)

Na Área Temática ‘Saberes e Experiências Profissionais’ (5 ‘documentos’ aprovados, 3 ‘documentos’ apresentados) assistimos, quando comparados os valores de Congressos anteriores, a uma diminuição acentuada (e a uma correspondente redução da posição relativa), malgrado a sua forte implantação na Sociologia portuguesa – o pólo reflexivo para cuja importância chama a atenção Madureira Pinto (2004). O caso da Sociologia das Emoções parece diferente das duas Áreas anteriores, uma vez que se trata de uma subdisciplina com um historial de autonomização muito recente. Ou seja, e no que à história da Sociologia portuguesa respeita, este Congresso representou o seu take off. O mesmo se diria da ‘Sociologia do Consumo’, embora num patamar um pouco superior (50 submissões e 22 apresentações).

Tabela 3 – Evolução do número de ‘documentos’ entre 2004 e 2012, por Secção/Área Temática

1 a) O somatório de ‘documentos’ aprovados não inclui os 12 que figuram como pertencentes nas Sessões Intertemáticas, uma vez que eles foram aprovados previamente numa Secção/Área Temática, e posteriormente transitados (numa 1ª ou 2ª iteração entre Secções/Áreas Temáticas) para uma Sessão Intertemática. Significa que foram contabilizados na Secção/Área Temática que os aprovou como ‘documentos’ intertemáticos.

 Tabela 4 – Indicadores sobre a evolução da participação das Áreas Temáticas nos Congressos da APS, desde 2004, e indicadores de rejeição e ausências no VII Congresso Português de Sociologia

Diante do caráter extraordinariamente recente da esmagadora maioria das Secções já criadas, todas com menos de três anos[12], é ainda prematuro retirar conclusões sobre o seu papel na dinamização das respetivas Áreas, traduzida no aumento do número de participações. Pode, eventualmente, nem ser esse o objetivo estratégico prioritário que prosseguem.

3.2.1  As Áreas Temáticas e a participação de homens e mulheres sociólogos/as

Quando observamos o número de ‘documentos’ aprovados por Área Temática, atento o sexo dos 1ºs autores (Gráfico 16), para um n= 681)[13], há a realçar algumas diferenças acentuadas, percebendo-se que existem Áreas cuja presença masculina foi percentualmente muito baixa (‘Família e Género’; ‘Populações, Gerações e Ciclos de Vida’; ‘Sociologia das Emoções’; ‘Sexualidade e Género’).

 Gráfico 16 – VII Congresso: 1ºs Autores, segundo a Área Temática, por sexo

Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

Em nenhuma destas Áreas a relação de masculinidade[14] dos 1ºs autores foi superior a 30%. Por oposição, as únicas Áreas Temáticas que reuniram um maior número de 1ºs autores do sexo masculino, em detrimento do feminino, foram as de ‘Sociologia do Desporto’, ‘Crenças e Religiosidades’ e a de ‘Classes e Desigualdades’. Todavia, estes dados devem ser lidos com alguma prudência, em face das limitações indicadas.

No âmbito do debate sobre a diferenciação de género na produção sociológica portuguesa, Sandra Cunha (2008), suportada pela análise das comunicações apresentadas nos cinco Congressos Portugueses de Sociologia (i.e. até 2004), num total de 1172 comunicações, através da consulta às Atas destes mesmos Congressos, e do trabalho efetuado a 359 teses de doutoramento em sociologia, realizadas ou reconhecidas por universidades portuguesas, entre 1974 e 2006, conclui pela existência de uma “feminização de determinados campos de investigação na produção sociológica portuguesa e, logo, pela diferenciação de género na produção sociológica nacional”. E acrescenta: “Com efeito, a evolução das sociedades no sentido de uma crescente diferenciação do social e consequente proliferação de novos problemas sociais e, assim, de novos objectos de investigação fazem com que o género se afirme cada vez mais como uma variável potencialmente diferenciadora na investigação e produção sociológicas”.

Os dados agora disponibilizados sobre os 1ºs autores dos ‘documentos’ apresentados no VII Congresso Português de Sociologia reforçam a ideia avançada por Cunha (2008), no tocante à feminização de certas Áreas Temáticas, apresentando-se tal facto como um elemento estruturador desses mesmos campos temáticos, e porventura mesmo estruturadores das lógicas de profissionalização existentes.

4. Reflexões em torno dos dados disponíveis

Um documento com as características do presente não se presta a exercícios interpretativos muito desenvolvidos e que permitam conclusões estabilizadas sobre a Sociologia portuguesa. O seu primordial objetivo é de natureza essencialmente descritiva, baseando-se em dados estatísticos sobre um evento que reúne, de 4 em 4 anos, parte da comunidade sociológica portuguesa, e um número crescente de estrangeiros. A fonte é, em si mesma, limitada ao propósito de desenhar um perfil dos ‘inscritos’ nesse evento, e caracterizando brevemente o acervo de documentação produzida segundo as Áreas Temáticas. Este enquadramento justifica, a nosso ver, o caráter eminentemente sociográfico que procurámos atribuir ao texto, apontando-o logo no próprio título.

Para atingir este objetivo desenharam-se algumas regras metodológicas, começando por definir o que entendemos por ‘inscrito’ no VII Congresso, por ‘assistente’ do evento, por ‘autor’ e por ‘documento’ apresentado. Estes quatro conceitos não se encontravam totalmente estabilizados em edições anteriores dos Congressos Portugueses de Sociologia, motivo pelo qual se torna difícil, e nalguns casos mesmo impossível construir uma série estatística apoiada em sete momentos de observação (tantos quantos os Congressos já realizados desde 1998), e consequentemente traçar linhas evolutivas sobre o número de ‘inscritos’, de ‘assistentes’, de ‘autores’ e de ‘documentos’. A própria alteração da composição das Áreas Temáticas, facto relevante para a compreensão do estado dinâmico da Sociologia portuguesa, acaba por constituir um obstáculo suplementar para uma leitura mais diacrónica da participação dos sociólogos no maior evento realizado, quadrienalmente, pela APS. Neste documento esboçámos, porém, uma proposta de equivalências (ver Tabela 3) entre as Áreas Temáticas dos últimos três Congressos (2004,2008 e 2012), procurando captar algumas tendências nestes últimos oito anos (ver Tabela 4).

Se é certo que as estatísticas destes eventos servem, essencialmente, para memória futura, não é menos verdade que os Congressos Portugueses de Sociologia ganham uma importância crescente como fonte de informação para compreender as próprias mudanças que ocorrem na Sociologia captando regularidades e/ou mudanças que possam ter ocorrido entre Congressos. A primeira caracterização que conhecemos, e talvez mesmo a primeira que se realizou, está publicada pela Revista Sociologia, Problemas e Práticas, nº 20, e é da autoria de Cristina Lobo (1996). Sandra Cunha (2008) também se apoiou em dados destes Congressos para uma análise da produção sociológica portuguesa numa perspectiva de género, e Baptista e Machado (2010) beneficiaram de informação cotejada no acervo dos Congressos para empreenderem uma caracterização sobre a sociologia portuguesa contemporânea. Certamente que outros colegas, em contextos de trabalho que desconhecemos, poderão igualmente ter beneficiado desse mesmo acervo, reforçando-se, desse modo, o interesse que os Congressos ganham entre nós e para uma história da Sociologia portuguesa depois de 1988.

Todos os Congressos têm um marcador temático, de banda larga, e o VII Congresso Português de Sociologia, o primeiro que se realizou na cidade do Porto, não foi exceção. Esse marcador está reproduzido integralmente na epígrafe deste artigo, e com ele reiterou a Comissão Organizadora o apelo primordial do Congresso para que se reconheça a ciência sociológica como uma interpelação crítica e construtiva da sociedade, bem como se demonstre a vitalidade da nossa comunidade sociológica e a oportunidade do exercício dos sociólogos no quadro das profundas reconfigurações societais contemporâneas. O título do próprio Congresso foi congruente com este mote: Sociedade, Crise e Reconfigurações.

Em face deste enquadramento, e procurando ter presente o pólo histórico destes eventos, a primeira questão que se colocou prendeu-se com a caracterização sociodemográfica dos ‘inscritos’ no VII Congresso (ou seja, daqueles que se registaram no site do Congresso e que tiveram a sua entrada validada em qualquer um dos quatro dias do Congresso). Embora seja difícil de demonstrar, diante da falta de elementos diretamente comparáveis dos Congressos anteriores, os 1086 ‘inscritos’ terão constituído um dos maiores conjuntos de participantes de sempre, porventura mesmo o maior de todos eles.

Algumas novidades surgiram na análise dos dados disponíveis na base de dados do VII Congresso: um número muito elevado de estudantes (46% do total). Há sempre uma leitura positiva que se pode retirar destes números: uma recetividade crescente do evento fora da esfera de influência associativa direta da APS e uma motivação acrescida por parte dos que se encontram em formação (estudantes). Também a ausência de sociólogos desempregados (apenas 4% do total dos ‘inscritos’) deve suscitar alguma reflexão e, acima de tudo, medidas que contrariem o que nos parece ser uma dupla penalização: ausência de emprego e afastamento (porventura não desejado) dos eventos que promovem a Sociologia e o interconhecimento entre colegas com a mesma formação científica.

Um dado deveras importante para compreender o que significam, hoje em dia, estes Congressos Portugueses de Sociologia, respeita à proporção de ‘oradores’ no conjunto dos ‘inscritos’. Em linha com que havíamos observado para o VI Congresso, cada vez mais estes eventos são participados por quem apresenta ‘documentos’ (comunicações, textos distribuídos em sala, posters) e cada vez menos por ‘assistentes’. No Porto, em junho, quase 2/3 dos ‘inscritos’ foram ‘autores’, e destes 45,6% eram ‘estudantes’. Coerentemente com o propósito de se afirmar como um espaço de oportunidade para a apresentação de trabalhos, recentemente concluídos, ou mesmo em fase adiantada de execução, estes dados parecem provar a necessidade destes eventos, e porventura justificar que a sua periodicidade seja revista, diminuindo-se o intervalo de quatro anos (como foi proposto pela Lista que ganhou recentemente as eleições para a APS).

Em linha com dados referentes a Congressos anteriores, e num sentido que parece identificar uma tendência consolidada, a maioria dos ‘inscritos’ são mulheres (64%). De notar que em 1996 se registou, pela primeira vez, uma percentagem superior de mulheres, e que desde então nunca mais foram minoritárias nestes eventos. Se, como outros dados deixam perceber, nomeadamente os relacionados com a relação de masculinidade dos diplomados em Sociologia, esta tendência não surpreende, nem por isso deixará, como vários colegas têm sublinhado, de ser relevante para a compreensão da influência do género numa produção sociológica progressivamente feita no feminino.

De igual modo, o aparente rejuvenescimento dos ‘inscritos’ – muito pelo aumento da proporção dos muito jovens, com idades inferiores a 25 anos – leva-nos a redefinir um perfil de congressista que, pelas expressões numéricas maioritárias, se define como sendo portuguesa, mulher, com menos de 35 anos, socióloga, com elevada probabilidade de ser (ainda) estudante (talvez a frequentar mestrado ou doutoramento) e com uma experiência profissional relativamente reduzida (cfr. Gráfico 13).

A crescente internacionalização dos Congressos organizados pela APS (no Porto, mais de ¼ – 27% – dos ‘inscritos’) é algo que suscita uma particular satisfação, por se lhe atribuir um papel insubstituível para a divulgação da Sociologia portuguesa e como instrumento de intercâmbio científico e cultural, nomeadamente entre colegas brasileiros e espanhóis. Trata-se de duas proximidades – a da língua e a geográfica – que jogam muito favoravelmente para que esta internacionalização progrida.

Com efeito, foram mais do dobro os estrangeiros ‘inscritos’ no VII Congresso, quando comparamos diretamente esse número (n= 292) com os de Lisboa (em 2008, durante o VI Congresso), onde se tinham batido todos os registos anteriores. Em futuras iniciativas a aposta na divulgação multilingue com o apoio dos nossos parceiros internacionais (as associações nacionais e, muito principalmente a ISA e a ESA) deverá manter-se. Há que não esquecer, ainda, o facto destas presenças se manifestarem desigualmente (por Áreas Temáticas), como ficou evidente pelos dados que constam do Gráfico 5, o que significa que a própria call pode ser direcionada em função dos interesses específicos daqueles que nos procuram, e em benefício da própria internacionalização dos saberes e das práticas sociológicas.

A própria participação de ‘inscritos’ não diplomados em Sociologia acaba por ser um dado relativamente inesperado, sobretudo porque 220 é um número elevado e representa 21% do total dos ‘inscritos’. Esta abertura autoproposta (uma vez que não foram pessoas convidadas propositadamente) pode traduzir, cumulativamente ou não, o interesse que para esses profissionais a Sociologia consubstancia e o resultado de trabalho com níveis de interdisciplinaridade relevantes. Caberia explorar estas hipóteses, seja para alargar o campo de observação das práticas sociológicas (em contexto interdisciplinar), seja para pensar em modalidades mais abrangentes de divulgação destes Congressos.

Por último, a apreciação dos dados que respeitam aos ‘documentos’ apresentados, segundo as Áreas Temáticas, põe em relevo a desigual expressão numérica das Áreas, o que sugere um perfil da Sociologia portuguesa marcado pela posição (numericamente) dominante de três grandes Áreas (ver Gráficos 13 e 17) que, em 2012, captaram cerca de 24% do conjunto dos ‘documentos’ aprovados e apresentados no VII Congresso.

Gráfico 17 –   Posição relativa das seis primeiras Áreas Temáticas nos Congressos de 2004, 2008 e 2012

Legenda:  ACC = ST12 Arte, Cultura e Comunicação; TOP = ST5 Trabalho, Organizações e Profissões; SE = ST1 Sociologia da Educação; CCT = Cidades, Campos e Territórios; GPC = Globalização, Política e Cidadania; FG = Família e Género. Fonte: APS/Base de Dados do VII Congresso

Neste particular, e ao contrário do que Lobo (1996) fizera notar em relação ao período de 1988 a 1996, nos últimos oito anos (i.e., de 2004 a 2012) assistiu-se a uma turbulência nas posições (numericamente) dominantes das Áreas Temáticas, com clara perda da ‘Sociologia da Família e Género’ – embora a criação da Área Temática ‘Sexualidade e Género’ possa explicar parcialmente esta diminuição – e um crescimento (ainda que moderado) da ´Sociologia do Trabalho, Organizações e Profissões’ (entretanto constituída em Secção).

Estas mudanças podem ser interpretadas sob vários ângulos: por um lado, são alterações de posição que correspondem à própria alteração de valor que os diferentes temas têm na sociedade portuguesa; por outro lado, resultam das dinâmicas que se desenvolvem em determinadas subdisciplinas, agregando investigadores e vontades, captando recursos; ou, de um outro ângulo, à influência que é exercida do exterior sobre a Sociologia portuguesa (numa época em que a mobilidade dos investigadores é cada vez maior), o que poderá sobretudo notar-se nos chamados campos emergentes, tornando-as menos concorrenciais. Esta redução poderá, finalmente, significar alguma mutação nos interesses dos investigadores, canalizando temas e problemáticas para outras subdisciplinas, mas também inflexões nos modelos de formação sociológica nas Universidades portuguesas.

Independentemente da validade dos argumentos recorridos para a interpretação dos resultados agora disponibilizados, não pode deixar de ser sublinhado que o VII Congresso Português de Sociologia mobilizou, no conjunto das propostas submetidas e aprovadas, 1599 ‘autores’. Este dado expressa um fulgor que ninguém terá antecipado alguns anos antes, mas sobretudo responde categoricamente à crítica – tão difundida por entre os opinion makers dos nossos dias – de uma comunidade científica pouco relevante e menos necessária. O trabalho coletivo dos sociólogos e sociólogas presentes no Porto ficará disponível para consulta on line, no vortal da APS (em http://www.aps.pt), também como testemunho do seu valor para entender a sociedade contemporânea, os seus ritmos, dinâmicas, tensões e crises, bem como o sentido das suas reconfigurações.

5. Referências bibliográficas citadas

BAPTISTA, L., MACHADO, P. (2010). “A comunidade sociológica portuguesa. Pensando o papel e os dilemas da sociologia portuguesa contemporânea a partir da actividade da APS”, Revista Angolana de Sociologia, nº 4, Edições Pedago, Luanda: 255-283.

CUNHA, S. (2008). Quem estuda o quê em Portugal. Uma análise da produção sociológica portuguesa numa perspectiva de género, CIES e-WORKING PAPER Nº 51/2008, CIES, Lisboa.

LOBO, C. (1996). “Os congressos de sociologia em Portugal”, em Sociologia, Problemas e Práticas, nº 20, CIES, Lisboa: 113-130.

MACHADO, P. (2012). “Retos a la profesionalización de la sociología en contexto de crisis”, I Encontro Ibérico de Sociologia, FES/APS, Madrid (no prelo).

MADUREIRA PINTO, J. (2010). “A note on the evolution, the specificity and the social relevance of Portuguese sociology”, Revista de Sociologia on line, Nº 1 – Abril, APS, Lisboa.

 

Anexo

MOVIMENTO DE INSCRIÇÕES, ENTRADAS E SUBMISSÕES DE ‘DOCUMENTOS’ CIENTÍFICOS DO VII CONGRESSO PORTUGUÊS DE SOCIOLOGIA

  • Número de inscrições registadas (INS) na plataforma do Congresso = 1675

O número de inscrições registadas corresponde ao total de registos efetuados na plataforma do Congresso, independentemente de se tratar de inscrições repetidas, já canceladas ou entretanto objeto de desistência.

  • Número de inscrições validadas (INS) na plataforma do Congresso = 1285

O número de inscrições validadas corresponde ao total de registos, depurados de repetições e cancelamentos.

  • Número de inscrições pagas (INS) = 1086

Este número é datado de 2012.07.12: 15h00.

  • Número de desistências = 227

Este número corresponde às inscrições que foram validadas mas que não corresponderam quer a entradas no Congresso quer a pagamentos.

  • Número de entradas registadas no Congresso = 938

O número de entradas corresponde ao número de pessoas cujo cartão de inscrição foi validado durante os 4 dias dos trabalhos pelo sistema informático.

  • Número de ‘documentos’ (PAP) submetidos ao Congresso = 1445

O número de ‘documentos’ submetidos corresponde ao total de propostas contabilizadas a 9 de fevereiro de 2012, após prorrogação do prazo de entrega, e inclui repetições.

  • Número de ‘documentos’ (PAP) aprovados = 1373

O número de ‘documentos’ aprovados corresponde ao total de propostas avaliadas positivamente pelas Secções/Áreas temáticas, incluindo comunicações, textos a distribuir em sala e posters. 

  • Número de ‘documentos’ (PAP) apresentados = 688

O número de ‘documentos’ apresentados corresponde ao total de comunicações, textos distribuídos em sala e posters de facto apresentados durante os trabalhos do Congresso.

  • Número total de autores = 1599

O número total de autores corresponde a subscritores dos ‘documentos’ aprovados, independentemente da ordem (1º, 2º ou outros autores)

[1] Neste número não estão incluídas as pessoas que fizeram parte da equipa técnica assistente no local, os restantes colaboradores (a trabalhar remotamente), os elementos das equipas técnicas destacadas pelas Faculdades e outros elementos de apoio (paramédicos, agentes da PSP) que no total terão sido aproximadamente 60. Destas duas estimativas resulta, então, um volume total de 1250 pessoas diretamente envolvidas na preparação, realização e participação num dos maiores eventos da área das ciências sociais realizado em Portugal.

[2]O efeito prático da categorização da condição perante o trabalho refletiu-se no preço da inscrição, com valores mais baixos para desempregados e estudantes.

[3]Referimo-nos à presença nestes Congressos de sociólogos carismáticos, quase sempre a convite da Comissão Organizadora, presença que motiva muitos outros colegas, maioritariamente mais jovens, a ouvirem as suas conferências, trocando impressões com essas personalidades gratas, contribuindo para reforçar esse mesmo estatuto que designámos por carismático e que anteriormente definimos como aquele/a colega que concilia uma elevada capacidade reflexiva e uma profusa teorização, o que lhe confere um elevado reconhecimento dos seus pares e uma liderança no processo de regeneração sociológica, talvez mesmo superior à dos teóricos.

[4]O número de documentos aprovados corresponde ao total de propostas avaliadas positivamente pelos referees as Secções/Áreas Temáticas (em sistema de blind refereeing), incluindo comunicações, textos a distribuir em sala e posters. O conceito de ‘documento’ inclui comunicações, textos a distribuir em sala e posters.

[5]O número total de autores corresponde a subscritores dos documentos aprovados, independentemente da ordem (1º, 2º ou outros autores).

[6]Esta experiência tem vindo a ser consolidada em diferentes contextos e eventos, e também se manifesta noutras áreas do conhecimento (ver projeto de divulgação científica na Euroregião Galiza-Norte de Portugal, em http://ceercomunicaciencia.wordpress.com/).

[7]Nos termos do Ponto 2 do Art.º 35º dos Estatutos da Associação Portuguesa de Sociologia, aprovados a 11 de Janeiro de 2008, entende-se que “Uma Secção Temática é uma unidade funcional, sem estatuto de órgão social da APS, constituída por sócios efectivos, sócios-estudantes ou membros associados, que prossegue objectivos de promoção de ramos específicos da Sociologia, de modo organizado, dotada para o efeito de autonomia científica e cultural, sem prejuízo da salvaguarda do princípio da cooperação estratégica com os órgãos sociais da APS, nomeadamente com a sua Direcção”. Neste exercício, quando se trate de uma Secção, a respetiva designação é precedida da sigla ST, acrescida do número de ordem que corresponde à sua formalização.

[8]Uma Área Temática tem correspondência com um domínio subdisciplinar da Sociologia (i.e., um ramo específico), dotado de um corpo teórico e conceptual desenvolvido e que reúne um conjunto de investigadores que o partilham e conferem a esse domínio uma identidade própria. Presentemente, as Secções e Áreas Temáticas têm uma correspondência quase total com as research network da European Sociological Association.

[9]Optou-se por incluir neste Gráfico 13 todas as propostas aprovadas, num total de 1367.

[10]Em 2008 havíamos escrito no exercício de avaliação do VI Congresso o seguinte: “Menos positiva poderá considerar-se a ausência de alguns autores da Comunicações. Se é certo que essa ausência poderá ter ajudado a uma melhor gestão do tempo dos restantes intervenientes presentes, ela não deixa de constituir uma situação que defrauda quem se disponibiliza para a assistir às SESSÕES”.

[11]Há que lembrar que a Assembleia-geral da APS aprovou, desde 2004, dois ordenamentos nos campos subdisciplinares da Sociologia portuguesa, o que determina, para efeitos históricos comparativos, que este exercício de equivalências seja da inteira responsabilidade dos autores do presente artigo.

[12]Esta datação refere-se apenas à criação de Secções após a aprovação do Regulamento das Secções Temáticas e Núcleos Regionais da Associação Portuguesa de Sociologia de 13 de fevereiro de 2009. Antes desta nova fase de institucionalização existiram, em momentos diferentes, Secções com um caráter mais ou menos orgânico, mas cuja dinâmica não resistiu até 2009, tendo sido necessário recriar este movimento dentro da vida associativa da APS, que conta presentemente com 13 Secções em funcionamento (com órgãos eleitos e iniciativas próprias).

[13]Em rigor, esta informação apenas caracteriza o primeiro autor. Se um documento tem mais do que uma autoria, e se os respetivos autores forem de sexos diferentes, a informação sobre os 2ºs e outros autores fica omissa neste apuramento.

[14]A relação de masculinidade foi operacionalizada pelo quociente entre o número de oradores homens e o número de oradores mulheres, e expressa em percentagem.

Autores: Cátia Santarém, Maria Ajuria e Paulo Machado

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2019-02-14T16:01:32+00:00