Sociólogo, Professor e Cidadão: de que modo a formação em sociologia se relaciona com a prática profissional e o exercício de cidadania?

Nº 9 - maio 2015

Maria Teresa Correia de Melo, Licenciada em Sociologia pelo ISCTE-IUL, Instituto Universitário de Lisboa. Frequenta o 1º Ano do Mestrado em Sociologia no ISCTE-IUL. Trabalha na Direcção-Geral da Saúde, em particular no âmbito do Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA.

Resumo:Para efeitos desta pesquisa, a abordagem polissémica da sociologia estabelece representações simbólicas para ciência, ensino e profissão. A ciência associa os papéis formais e informais do sociólogo. O ensino, indissociável da educação e dos valores veiculados pela escola, representa as práticas ancoradas nas responsabilidades profissionais e sociais, integrando os pressupostos para a consciencialização social e a construção de personalidade dos jovens. A profissão define a escolha e a concretização de um ideal. Aos papéis, às práticas e à profissão é inerente o conceito transversal de vida e a conjugação de sonho e realidade para um futuro sociologicamente sustentado.
Palavras-chave: sociólogos fora da academia; papéis profissionais; práticas profissionais; ensino da sociologia.

Abstract: For the purpose of this research, the polysemic approach of sociology assigns symbolic representations to science, teaching and occupation. Thus, science associates the formal and informal roles of sociologist. Teaching represents anchored practices in social and professional responsibilities, integrating assumptions for social awareness and the construction of young people’s personality. Teaching is also inseparable from education and the values conveyed by the school. Occupation defines choice and accomplishment of a symbolic ideal in the current context. To the roles, practices and profession is embedded the cross-cutting concept of life and how to combine dream and reality for a sociologically sustainable future.

Keywords: nonacademic sociologists; professional roles; professional practices; teaching sociology.

Introdução

O sistema educativo português prevê que todos os alunos até ao 6.º ano, integrados no ensino público, tenham acesso a programas que pressupõem conhecimentos de ordem geral e prática que lhes proporcionem a aquisição de conhecimentos basilares. Esta abordagem visa o desenvolvimento futuro dos alunos enquanto cidadãos e profissionais, independentemente da origem social, da religião ou do contexto geográfico.
Significa que na prática cedo começam a fazer-se opções e, consequentemente, cedo começam as distinções:

“Os resultados de estudos diferenciais indicam que os alunos de 2.a Língua Estrangeira apresentam maiores índices de autoconceito académico e não académico, bem como conceções de inteligência mais dinâmicas e expectativas de autoeficácia académica mais elevadas comparativamente com os alunos de Educação Tecnológica, quer no 7.o quer no 9.o ano de escolaridade” (Simões, 2001, pp.432).

Sendo a aprendizagem um processo ativo, faz parte do crescimento do indivíduo ir tomando decisões à medida que os seus conhecimentos vão aumentando e que vai tendo as suas preferências, as quais podem ser influenciadas por fatores endógenos (a opinião ou a “tradição” da família) e exógenos (contexto político e social).

[No contexto macro] “as configurações culturais partilhadas pelos grupos e incorporadas pelos indivíduos na respetiva subjetividade […] [e] os interesses e as estratégias que as pessoas desenvolvem fazendo cálculos, de mais curto e de mais longo prazo, quanto a como otimizar as soluções de vida tendo em conta as limitações impostas pelas condições de existência e os recursos a que se pode deitar mão [são] o que orienta as escolhas e os gostos, as preferências e as prioridades, as esperanças e as expectativas, os planos de vida e o sentido das ações quotidianas das pessoas” (Benavente et all, 1987, pp. 83).

É aqui que tudo começa…

Este documento constituiu a proposta de trabalho individual da Unidade Curricular de Laboratório de Ética e Profissão em sociologia, inserida no 2.º semestre do 2.º ano da licenciatura de sociologia. Consistiu numa entrevista a um sociólogo que exerce a profissão fora da academia ‒ na área do ensino, neste caso‒, e visa dar resposta à questão: de que modo a formação em sociologia se relaciona com a prática profissional e o exercício de cidadania?, com base num guião composto por duas partes: uma primeira de definição das dimensões foi produzida em grupo, sendo comum a todas as entrevistas realizadas pelos elementos do grupo de trabalho; a segunda parte, desenvolvida individualmente, foi concebida especificamente para o perfil profissional do entrevistado, englobando questões fundamentadas nos conteúdos do Programa Curricular a abordar neste estudo.
Este trabalho de investigação tem por base o relatório individual produzido a partir de uma entrevista a um sociólogo, cuja atividade profissional se processa fora da academia. Foi abordada a relação da sociologia com a prática profissional e com o exercício de cidadania. A temática em estudo é a educação/ensino, vertente essencial ao funcionamento da sociedade e ao bem-estar social.
Abordar a perspetiva do papel do sociólogo no contexto deste estudo pressupõe debruçarmo- -nos sobre a influência da sociologia na profissão (fora da academia). Assim, pretende-se conhecer os aspetos em que se destacam as atividades deste sociólogo, determinados quer pela área ou setor de atividade e pelos seus condicionalismos específicos, quer pelas características pessoais / perfil do entrevistado.
Para tal, torna-se necessário responder à questão: educação – que papel no contexto sociológico? Mantendo como referencial o universo da sociologia para uma realidade essencial na sociedade, através da intervenção da instância pública.
“A escola procura transmitir um saber que não é o do senso comum – […)] um saber público realizado através de várias meta-linguagens. (…) Contudo, tanto implícita como explicitamente, a escola transmite valores e a moralidade que os acompanha, que afetam os conteúdos e contextos da educação” Bernstein (1982, pp. 27).

Operacionalização da pesquisa

Foram realizados três contactos prévios através de email e telefone com o sociólogo a entrevistar: a agradecer a disponibilidade para participar no projeto e a explicar sucintamente o processo (pedido de autorização para gravação da entrevista, informação da presença de pelo menos dois elementos do grupo); o segundo contacto teve como finalidade o envio de datas possíveis para a realização da entrevista e da informação sobre as dimensões a abordar – incluídas no guião); o terceiro contacto (telefónico) visou o agendamento da entrevista.
A recolha de informação foi realizada com a presença de outro elemento do grupo que fez as anotações relativas à observação direta. A conversa foi gravada e posteriormente transcrita integralmente.
Foram utilizadas grelhas enquanto instrumentos facilitadores do estudo a realizar (Quadro 1. Dimensões de análise e Quadro 2. Grelha de análise da observação direta).
Previa-se que a entrevista se realizasse na segunda quinzena de maio, na Escola Secundária da Amadora. Por impedimentos de vária ordem por parte dos intervenientes, veio a concretizar-se no dia 5 de junho de 2013.

Quadro 1. Dimensões de análise

Quadro 2. Grelha de análise da observação direta

Ciência, ensino e profissão

A sociologia desmultiplica-se em três vertentes: enquanto ciência, enquanto formação e enquanto profissão. A primeira traduz-se no conhecimento e na prática científica; a segunda incide sobre as opções formativas e o sistema de ensino; a terceira enquadra-se no contexto profissional, nos papéis, nas atividades e nas responsabilidades laborais, na cultura profissional e na componente associativa (Costa, 2004, pp. 35).
Jorge Pité interliga a prática da sociologia através da ciência como base da formação e da profissão, contextualizada em sociedade: Se durante os primeiros três anos a situação de aprendizagem teórica se tornava pouco apelativa, os dois últimos anos recuperaram a ideia de que a sociologia era uma ciência de sentido e com sentido. Recuperei a ideia que tinha da sociologia no princípio, exatamente no final do curso: construir hipóteses de solução para os vários e complexos problemas que a sociedade apresentava.
A configuração da relação do sociólogo com a sociedade adquire contornos muito particulares em termos dos “papéis/práticas profissionais de cada sociólogo [ou] do grupo/organização profissional do conjunto dos sociólogos, no caso da sociologia como profissão” (Costa, 2004, pp. 37-38). António Firmino da Costa considera que todo o conjunto de relações (com as organizações em que trabalham, com as entidades financiadoras, com os outros profissionais) obedece ao mesmo princípio e engloba todos os sociólogos, independentemente da área em que atuam (Costa, 2004, pp. 38).
No âmbito da educação, as reformas do ensino universitário que abrangeram a sociologia podem ser analisadas “a partir de um ponto de vista […] contextual e conjuntural” (Costa, 2004, pp.41). A aprendizagem torna-se mais sustentada através da interligação mais abrangente do conhecimento; da integração de uma componente prática transversal apoiada na vertente teórica e na oferta de outras temáticas, referenciadas à sociologia, com a finalidade de formar alunos tecnicamente competentes e mais competitivos para os desafios da atividade laboral (Costa, 2004, pp.42).
Em retrospetiva, Jorge Pité recorda que nem sempre foi assim. Deparou-se com uma realidade muito diferente: o curso não estava vocacionado para o meu contexto profissional. Se na altura houvesse uma área de educação, optaria por ela. E aí sim, a licenciatura teria sido importante na minha preparação profissional. Para executar a minha profissão tive que me formar noutras áreas ligadas à educação e ao ensino. Hoje, chamar-se-iam pós-graduações.
Baseado em artigos, monografias, inquéritos do ODES – Sistema de Observação de Percursos de Inserção de Diplomados do Ensino Superior e nos registos da Associação Portuguesa de Sociologia, António Firmino da Costa afirma que existem atualmente áreas de integração para os sociólogos em atividades qualificadas, como sejam as autarquias e os ministérios, os serviços públicos centrais, empresas de consultoria, associações, sindicatos, escolas de ensino secundário, centros de investigação, etc., oportunidade que Jorge Pité não teve: pensava aplicar os conhecimentos numa autarquia local, até porque a área de especialização em que me formara (sociologia urbana) se ligava a um hipotético trabalho de município. Cedo compreendi que as autarquias não estavam interessadas no trabalho dos que, amiúde, confundiam com o de um assistente social. Hoje em dia, já há mais sociólogos nas câmaras e em algumas juntas de freguesia.
Profissionalmente, há distinções entre a denominação, havendo casos em que se mantém a designação de sociólogo e outros, a maioria, em que a qualificação académica é absorvida pelo papel profissional ou função (Costa, 2004, pp. 45).
António Firmino da Costa considera que a dinâmica do processo de profissionalização tende a seguir dois sentidos: um eminentemente científico (“processos de profissionalização convergentes”, conotados com práticas científicas e técnicas de diversas áreas do saber) e outro mais técnico, em diferentes contextos de trabalho (“processos de profissionalização divergentes” em que a plataforma científica promove a possibilidade de desempenho de diferentes funções) (Costa, 2004, pp. 50).
As opções nem sempre foram tão abrangentes. Jorge Pité é disso testemunha: Quando terminei o curso, senti que estava minimamente preparado para assumir a profissão de sociólogo. Minimamente, porque […] o curso foi demasiado académico e no tempo em que o fiz seria pouco reconhecido como fundamental na resolução dos problemas sociais. A maioria dos meus colegas […] foi para o ensino. Os poucos que seguiram a área da sociologia como profissão ficaram-se pelas universidades.

Relações formação-profissão na sociedade atual

O ensino acabou por ser a opção de uma vida para Jorge Pité: […] Durante os primeiros anos da minha profissão estudei e trabalhei simultaneamente, lecionando disciplinas variadas na área da economia e da geografia e até mesmo da educação física. Quando terminei a licenciatura, obtive habilitação própria para o ensino […]. A partir daí, por todas as escolas por onde passei, exigi sempre que a sociologia passasse a ser ministrada por mim e pelos colegas formados na ciência.
O contexto atual é potenciador de oportunidades de trabalho para os sociólogos em novas áreas de mercado, ao mesmo tempo que as alterações sociais constituem domínio de ação para a ciência: “sobressai um entrecruzamento entre situações e processos diversos. Por um lado, testemunha-se a afirmação da profissão de sociólogo relacionada com os papéis profissionais de intervenção sociológica fundamentada, como técnicos especializados, de docentes e de investigadores […] É patente a diversidade de organizações […] em que se inserem profissionalmente os sociólogos” (Gonçalves, 2004, pp. 104-105).
Jorge Pité procurou o suporte teórico que apoiasse o seu espírito interventivo: O curso de gestão não me dizia nada […]. Suspendo os estudos durante um ano. Entretanto, abre o curso de sociologia, o primeiro em Portugal. Resolvo inscrever-me, motivado pelo momento: o sonho de conhecer uma sociedade nova, mudando a velha, ligava-se tanto à atividade política que tinha, como às problemáticas inerentes a todas as comunidades. Eram ideais. […] A sociologia, como ciência, parecia-me ser o elemento teórico fundamental para poder cumprir-me.
Em Portugal, a inserção profissional dos sociólogos foi dificultada pela falta de contacto com a sociologia. Da sua experiência, Jorge Pité afirma que a organização escolar não percebeu a importância e a vantagem de ter sociólogos no seu seio. A presença de um sociólogo é uma ausência consentida.
Atualmente, é reconhecido que “a sociologia permite saltos qualitativos na compreensão dos mecanismos diversos e complexos de funcionamento da realidade social […]. É hoje clara a necessidade da existência nas escolas de um corpo interdisciplinar de profissionais, científica e pedagogicamente preparados para apoiar os docentes na sua prática pedagógica. A esse corpo deveriam, em articulação com instâncias de planeamento e instituições de formação e investigação ser cometidas particulares responsabilidades na implementação de programas de inovação que permitissem uma mudança qualitativa no panorama do ensino em Portugal” (Valente et all (orgs.), 1995, pp.10-36). Jorge Pité acredita que a sociologia completa a formação dos jovens ao apelar às suas consciências para problemas que eles pensavam só serem debatidos em lugares comuns. A personalidade dos jovens constrói-se de uma forma sólida ou, pelo menos, mais sólida, com diversas vertentes do mundo que nos cerca, entre as quais através da ciência sociológica.
Do mesmo modo, “a intervenção dos sociólogos nas escolas poderá ser um importante catalisador de mudanças qualitativas que permitam uma efetiva democratização do Sistema Educativo. Presença ainda mais premente se nos recordarmos das visíveis dificuldades de autotransformação da pesadíssima máquina do Ministério da Educação e da fraca existência de movimentos pedagógicos autónomos de professores” (Sebastião, 1995, pp. 39).
Jorge Pité conhece bem esta realidade: muitas das dificuldades encontradas por colegas meus que não têm aquela formação e que lecionam a disciplina de sociologia no ensino secundário, nomeadamente os formados noutras ciências sociais e em filosofia, prendem-se exatamente com a ausência de uma formação de base em sociologia.
Convicto defensor de mudanças mais profundas, Jorge Pité afirma que: os alunos que escolhem a disciplina de sociologia (a disciplina é uma opção do 12.º ano) aprendem, por exemplo, a construir um projeto de investigação e a sua estrutura e, em alguns casos, a fazer a investigação de campo, o que é, só por si, uma excelente preparação para o futuro académico. Repare-se que é a única disciplina da área das ciências sociais, ministrada no ensino secundário, que tem uma unidade letiva dedicada à investigação.
Como refere João Sebastião, é consensual que “criar e institucionalizar a carreira do sociólogo escolar é hoje uma necessidade. Será esta uma das formas de fazer repercutir dentro do Sistema Educativo o esforço de educação levado a cabo pelas universidades portuguesas numa área que, apesar de recente, já mostrou possuir elevadas potencialidades na produção de saber e intervenção no processo educativo” (Sebastião, 1995, pp. 40).
Jorge Pité faz a distinção entre o sociólogo na educação e o sociólogo na escola: Estudar o funcionamento do sistema, enquanto estrutura de organização que serve diretamente a esfera da produção e o poder político. Não confundir com o sociólogo da escola, porquanto este deve examinar os processos de integração e de seleção dos indivíduos e dos grupos no aparelho onde se irá processar a transmissão ideológica da classe no poder.

Pluralidade de áreas e papéis profissionais: formais e informais

Jorge Pité tem, por inerência do seu papel profissional, uma perceção muito vincada da sua função na sociedade: Ser sociólogo é tomar consciência da desconstrução social para, logo de imediato, sentir necessidade de voltar a construir uma realidade nova.
O curso proporcionou-lhe “um conhecimento mais vasto e preciso sobre a realidade social, assim como a possibilidade de intervenção nos mais variados territórios sociais permite criar uma mais-valia que mais não é do que a consciencialização dos processos sociais que nos envolvem”. Papéis formais e informais cruzam-se, mas não se sobrepõem, complementam-se: algumas atividades relacionadas com a sociologia, como sejam a atividade letiva numa Universidade da Terceira Idade e o Grupo de Teatro de Amadores a que pertenço, e onde é possível fazer incidir muitos elementos sociológicos. […] Através do teatro procuro transformar o palco numa tribuna que, para além de levantar problemas, aponta saídas. […] Em obras de teatro, procuro influenciar o grupo a escolher peças sobre assuntos atuais e/ou de causas que estejam próximas das pessoas.
Estas competências são de suma importância na relação com os alunos: por exemplo, o que é suposto solucionar com medidas administrativas, procuro sempre, e em alternativa, a solução do indivíduo perante o grupo.

“O licenciado em sociologia, que ensina (sociologia, felizmente!) no ensino secundário, é professor ou é sociólogo? […] Eu […] sempre considerei como designação profissional a de professor. […] O professor (de sociologia) licenciado em sociologia é um professor como os outros […] A sua formação sociológica confere-lhe uma especificidade que não se esgota nos aspetos pedagógicos. A experiência tem-me ensinado a viver com o facto de ter, com frequência, sobre a escola e sobre os alunos uma sensibilidade particular, associada a atitudes por vezes diferentes das de muitos outros professores. Fico sempre na dúvida […] até que ponto estas minhas atitudes sofrem a influência da minha formação, da minha sensibilidade sociológica. É daquelas questões cuja resposta nunca saberei. Mas sei que fazem falta no ensino secundário, para ensinar sociologia professores licenciados em sociologia. Se são sociólogos (-professores) ou professores (-sociólogos), […] tanto faz. […] O professor de sociologia, sociólogo ou não […] é, antes de mais, um professor do ensino secundário, que partilha com todos os professores deste nível de ensino os constrangimentos que são conhecidos e cuja origem se situa em grande medida nos processos de massificação intensificados a partir de 1974. […] O período em questão correspondeu a uma indiscutível democratização do ensino que se traduziu numa enorme expansão de todo o sistema educativo: mais alunos, mais (e maiores) escolas, mais professores, em suma: a massificação. No ensino secundário o crescimento mantém-se na década de 80, o que se traduziu num número crescente de professores sem habilitação profissional, ou sequer própria, bem como na sua acentuada juvenilização e feminização. Cresceu também o número de professores para quem esta profissão não foi uma primeira escolha, sobretudo em áreas cuja formação não aponta de início para o ensino.” (Ribeiro, 1999: 33-34).

Princípios de ética e deontologia e responsabilidades cívicas

Os princípios orientadores do código deontológico estabelecem a relação dos sociólogos com a profissão e com a sociedade: responsabilidade, competência, autonomia e autoadesão estabelecem as regras para o entendimento. O princípio da responsabilidade constitui o referencial do código deontológico e estabelece a profissão de sociólogo no enquadramento social; o princípio da competência refere-se às capacidades técnicas e relacionais necessárias ao desempenho da profissão, qualquer que seja o âmbito em que se insere; o princípio da autonomia determina a utilização das capacidades e competências específicas no cumprimento da função; o princípio da autoadesão pressupõe a livre escolha pelos fundamentos deontológicos e a expressão dessa decisão através de condutas profissionais conformes (Costa, 1993).
Jorge Pité integra estes princípios no seu quotidiano: Procuro alertar as pessoas da minha comunidade para problemas sociais que precisam ser tratados de forma a contribuir para melhorar a qualidade de vida das mesmas, nomeadamente, incentivando-as a ser participativas. As responsabilidades sociais do professor vão, no entanto, mais longe pela manifestação de preocupação permanente com os outros. Para este sociólogo-professor, o que define a ética são os valores.
O ato de ensinar pressupõe a predisposição para transmitir o saber e a vontade de aprender, mas não é pacífico: “existe um conflito no ato de ensinar; trata-se de um processo cheio de tensões, aleatório” (Grácio & Stoer, 1982, pp. 188-191). De facto, um modelo que assenta no ascendente sistemático de uma das partes envolvidas ‒ pelo saber e pela autoridade, em parte conferida por aquele ‒, e a aceitação tácita e incondicional daquele papel por parte do aluno, desencadeia necessariamente atritos. “O ato de ensinar é fazer com que o aluno aprenda; e a tarefa do professor é controlar o conflito que os seus esforços possam provocar, é assegurar-se que a submissão é temporária e que o espírito do aluno fica intacto”. O modelo não resulta, está claramente ultrapassado e em dissonância da realidade da interação entre alunos e professores.
Jorge Pité adota uma posição de vanguarda ao defender que é necessário possibilitar um enquadramento mais coerente dos indivíduos e dos grupos no sentido destes adquirirem competências resultantes dos processos de ensino-aprendizagem, de modo a que os sujeitos se sintam, numa fase ulterior, preparados para se inserirem na esfera da produção, ao mesmo tempo que os conscientizam para os diferentes papéis que, hipoteticamente, venham a representar no futuro, porque, segundo ele, o aluno jovem necessita de uma formação que, quanto mais completa e diversificada, melhor. E nesse sentido, a sociologia fornece ao aluno aspetos importantes que permitem melhorar a sua formação.

Conclusões

A opção pela formação em sociologia está intrinsecamente relacionada com uma consciência da sociedade e do contexto social e o exercício ativo da cidadania: Trata-se de uma ciência moderna, necessária para compreender o mundo enquanto feito pelos homens, interventiva de forma a levantar os problemas infindáveis que a natureza humana cria no seu processo evolutivo, afirma Jorge Pité. E acrescenta: O papel dos sociólogos na sociedade atual deveria ser o de repensar o social, numa perspetiva de alternativa, intervindo de forma isenta na solução e na resolução dos problemas que assolam as diferentes sociedades.
A componente científica constitui a substrução da formação em sociologia e constitui o fundamento teórico, molda a forma de pensar e define as prioridades de âmbito social e sociológico: [O que aprendi com a licenciatura] essencialmente, a capacidade de análise, utilizando frequentemente os instrumentos apropriados às realidades diferentes. A possibilidade de realizar enquadramentos que respondam às diferentes solicitações da vida em sociedade. Por vezes vejo-me a ‘fazer’ sociologia à mesa do café. (…) E é aí, no dia-a-dia, que me ‘encontro’ na e com a sociologia e as competências que apreendi.
A profissão é o resultado de oportunidades, frustrações, coincidências e alguns reveses de um percurso notável que Jorge Pité construiu e dignificou. A sociologia está sempre ancorada na formação. Na escola: de duas formas. A primeira, na transmissão de conhecimentos adquiridos durante as aulas. A preparação teórica apreendida na formação em sociologia permite-me uma maior abrangência sobre os aspetos programáticos da disciplina no ensino secundário. (…) A outra forma onde sinto a importância da minha formação é na parte pedagógica aplicada na sala de aula. Perante cerca de vinte alunos, o professor encontra uma diversidade de situações para as quais deve estar minimamente preparado. A formação sociológica ensinou-me uma parte substancial da minha relação pedagógica com os meus alunos, fortalecendo a possibilidade de encontrar soluções para os problemas que se vão manifestando no decurso da atividade letiva.
O legado dos princípios deontológicos é contido, reflexo do ambiente social macro, mas também efeito do contexto social em que a escola está inserida: É mais fácil encontrarmos, tanto o altruísmo como a tolerância, em situações de competição [do que de competitividade, na profissão].
Sobre a moral, Jorge Pité deu uma definição técnica, desapaixonada: conjunto de regras aplicadas no quotidiano e usadas continuamente por cada cidadão.
A paixão, essa expõe-na na triangulação ciência – formação – profissão, não sem contudo refletir sobre o processo de Bolonha: voltaria a fazer o curso de sociologia por considerar que, no âmbito das ciências sociais, o suporte teórico que adquiri tem-me valido sobremaneira e de forma satisfatória para com a vida que tenho. (…) O curso (…) foi desvalorizado enquanto grau académico. Para se conseguir alcançar um estatuto idêntico a uma licenciatura de outrora, precisaria seguir para mestrado, ou mesmo doutoramento, o que implicaria grandes investimentos. (…) Voltaria a optar pela sociologia se pensasse exercer uma profissão na área desta ciência.
Jorge Pité é um eterno insatisfeito, um inconformado, um homem de mente inquieta, apaixonado pelo que faz, mas sobretudo pela vida: Trabalhar com pessoas implica estar constantemente em mudança e em adaptação, apreendendo novas situações. Talvez me sinta realizado quando morrer.

“Estudar é muito mas pensar é tudo!”
José Carlos Ary dos Santos (s.d.)

Referências bibliográficas

Benavente, Ana, António Firmino da Costa, Fernando Luís Machado, Manuela Castro Neves (1987), Do outro lado da escola, Lisboa, Edições Rolim, p. 83.

Bernstein, Basil (1982), “A educação não pode compensar a sociedade”, em Sérgio Grácio et al. (orgs.), Sociologia da Educação – II Antologia, A Construção Social das Práticas Educativas, Lisboa, Livros Horizonte, Lda., pp. 19-31.

Ribeiro, Ana Maria Alves (1999), “Profissão: professora do ensino secundário”, em Carreiras, Helena, Fátima Freitas, Isabel Valente (orgs.), Profissão Sociólogo, Oeiras, Celta Editora, pp. 33-44.

Costa, António Firmino da (2004), “Será a sociologia profissionalizável?”, em Gonçalves, Carlos Manuel, Eduardo Rodrigues, Natália Azevedo (coords.), Sociologia no Ensino Superior: Conteúdos, Práticas Pedagógicas e Investigação, Porto, Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pp. 35-59.

Costa, António Firmino da (1993), “Prática sociológica e deontologia profissional dos Sociólogos”, em AAVV, Estruturas Sociais e Desenvolvimento (Actas do 2º Congresso Português de Sociologia, vol. II), Lisboa, Editorial Fragmentos, pp. 785-792.

Geer, Blanche (1982), “Ensinar”, em Sérgio Grácio et al. (orgs.), Sociologia da Educação – II Antologia, A Construção Social das Práticas Educativas, Lisboa, Livros Horizonte, Lda., pp. 188-191.

Gonçalves, Carlos Manuel (2004), “Algumas notas sobre as relações ensino-aprendizagem e investigação científica”, Sociologia no Ensino Superior: Conteúdos, Práticas Pedagógicas e Investigação, Porto, ISFLUP, Atas do encontro realizado em 6 e 7 de Dezembro de 2002 na FLUP, pp. 103-114.

Simões, Luís e Luísa Faria (2001), “Características motivacionais e opções curriculares no Ensino Básico: Educação tecnológica vs. 2.ª língua estrangeira”, Análise Psicológica, 19 ( 3), pp. 417-433.

Sebastião, João (1995), “Sociologia na escola: entre a docência e a burocracia”, in Valente, Isabel, Fernando Luís Machado, António Firmino da Costa (orgs.), Experiências e Papéis Profissionais de Sociólogos, Lisboa, Associação Portuguesa de Sociologia, pp. 35-44 [edição oiginal: 1990].

Outras referências

INE, Instituto Nacional de Estatística, disponível em: http://smi.ine.pt/Conceito

 [1] Este artigo foi redigido com base numa comunicação apresentada no Seminário de LEPS: Desafios à Empregabilidade dos Sociólogos, que teve lugar no ISCTE-IUL, no dia 21 de Março de 2014.[2] Todas, com exceção das duas primeiras comunicações, apresentadas pelos docentes de LEPS − professor António Firmino da Costa, professora Rosário Mauritti e professora Luísa Veloso − e, que consistiram numa reflexão sobre o papel dos jovens sociólogos na sociedade portuguesa atual e na apresentação do panorama estatístico da inserção profissional efetiva dos cientistas sociais na atualidade, com especial atenção para os sociólogos.[3] Os sociólogos entrevistados – referenciados com nomes fictícios para preservação do anonimato – foram selecionados de forma não-aleatória, tratando-se portanto de uma amostra de conveniência e intencional. Os critérios para a sua seleção foram os seguintes: terem pelo menos uma formação de base em Sociologia, e estarem empregados num contexto profissional que fosse: a) relativamente qualificado; b) fora da academia e da investigação científica. A dimensão da amostra foi determinada a priori tendo em conta o tempo e os recursos disponíveis na altura da pesquisa.

Autores: Maria Teresa Correia de Melo

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2018-03-09T17:28:17+00:00