Sociólogos e campos profissionais na saúde: perfis de actividades e desafios

Nº 3 - junho 2011

David Tavares, Doutorado em Sociologia. Professor Coordenador da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa – Instituto Politécnico de Lisboa, Endereço electrónico: david.tavares@estesl.ipl.pt

Abstract: This is an introductory to the workgroup ‘Sociologists and professionals in health fields: profiles of activities and challenges “discussed at the Sociology of Health National Meeting, presenting the papers then submitted.

Resumo: Trata-se de um texto introdutório ao tema «Sociólogos e campos profissionais na saúde: perfis de actividades e desafios», debatido no Encontro Nacional de Sociologia da Saúde, e no qual se apresenta, sumariamente, as comunicações dos respectivos autores.

A preocupação dos sociólogos em aprofundar a reflexão sobre a sua prática profissional não é nova. Tem estado presente em Portugal nos últimos 25 anos, fez parte da agenda de reuniões que culminaram na fundação da Associação Portuguesa de Sociologia (APS) e na existência fugaz da Associação Profissional dos Sociólogos Portugueses, foi tema de um dos painéis do 1º Congresso Português de Sociologia realizado em 1988 («Condições de exercício e perspectivas profissionais da sociologia em Portugal»), foi objecto de duas publicações promovidas pela APS (Associação Portuguesa de Sociologia, 1995; Carreiras, Freitas e Valente, 1999) e de vários artigos divulgados por diversas revistas. Ainda assim, a relevância e a visibilidade do debate acerca dos diferentes campos profissionais da sociologia é relativamente escassa e no caso da saúde é praticamente nula. Neste âmbito, muito está por fazer, incluindo a identificação dos perfis de actividade e um levantamento das condições de exercício da profissão dos sociólogos inseridos nas diferentes organizações que intervém na área da saúde.

A introdução do tema «Sociólogos e campos profissionais na saúde: perfis de actividades e desafios» no programa do Encontro Nacional de Sociologia da Saúde, realizado na Covilhã, enquadra-se na intenção da Secção de Sociologia da Saúde da APS, de promover um debate, a alargar no futuro a um conjunto mais vasto de sociólogos da área da saúde, em torno de questões que, não sendo desligadas de preocupações comuns ao conjunto dos sociólogos dos vários sectores de actividade, são, contudo, dotadas de uma especificidade própria e carecem de maior aprofundamento.

As práticas dos sociólogos no campo da saúde não se restringem à sua dimensão académica, quer na componente de investigação quer de ensino, onde são produzidos e reproduzidos os principais conhecimentos teóricos e empíricos. Pelo contrário, é fundamental dedicar uma atenção particular às questões que se prendem com os modos de inserção da prática profissional da sociologia em instituições e organizações ligadas, directa e indirectamente, à saúde, não obstante a sua dimensão quantitativa ser relativamente reduzida, porque, a exemplo do que sucede com outros sectores onde ocorre a prática da sociologia, está «reconhecidamente abaixo das necessidades desses mesmos contextos em termos das competências profissionais fornecidas pela sociologia». (Machado, 1996: 44).

Os dois artigos que se seguem centram-se em experiências profissionais que decorrem de enquadramentos distintos, tendo como pano de fundo a intervenção na área da saúde, no contexto de organizações orientadas para a acção social (Santa Casa da Misericórdia de Lisboa) e para a intervenção autárquica (Câmara Municipal de Torres Vedras). A reflexão exposta pelos autores, ainda que tenha por base a sua vivência pessoal, permite suscitar questões e identificar desafios que certamente se colocam a um universo mais amplo de sociólogos da área da saúde.

As experiências expostas são ilustrativas das potencialidades e da multidimensionalidade da actividade sociológica, remetendo-nos para a abrangência dos domínios de intervenção da sociologia, a que não é, aliás, alheio o fenómeno de alargamento das fronteiras do campo da saúde que se tem afirmado de modo crescente nas últimas décadas. Os domínios de intervenção dos sociólogos nas autarquias locais são paradigmáticos dessa abrangência e diversidade, podendo incluir, para além da saúde, a habitação, planeamento urbano, cultura, avaliação de projectos de intervenção local, desenvolvimento local, formação e grupos específicos como jovens, idosos, etc., podendo os seus papéis distribuir-se pelo planeamento, investigação, relacional e operacional (Banha, 1999; Ribeiro, 1994). Por sua vez, o alargamento das fronteiras do campo da saúde a outras dimensões da vida social contemporânea que implicam a abordagem de variáveis e problemáticas emergentes situadas, por exemplo, no plano dos estilos de vida, hábitos alimentares, ambiente, desporto, exercício físico, condições de habitação, …, propicia maiores possibilidades de articulação entre a intervenção social, considerada de forma global, e a intervenção na área da saúde.

Nestes artigos, levantam-se questões relativas às dificuldades de inserção e de alargamento dos territórios de intervenção dos sociólogos na saúde quando confrontados com as estratégias de fechamento e de desvalorização accionadas pelos detentores dos poderes profissionais instituídos, assim como se questiona acerca do tipo de comunicação que se estabelece entre os sociólogos a exercer actividade neste sector e outros profissionais de saúde. O percurso profissional de um dos autores, iniciado num trabalho de voluntariado, é exemplificativo de um processo de construção da própria necessidade do contributo sociológico no desenvolvimento de projectos sociais locais na área da saúde, centrados numa autarquia.

A reflexão em torno das práticas profissionais de sociólogos no contexto de organizações de saúde suscita um conjunto de questões pertinentes, de que salientaria apenas algumas, como a relação entre a teoria e a prática profissional; as formas de articulação e de comunicação entre os sociólogos e outros profissionais da área da saúde; as relações e a eventual compatibilização ou contradição entre as agendas das instituições/organizações e as agendas do trabalho sociológico; as relações entre os compromissos/necessidades institucionais/organizacionais e a «dignidade científica» do trabalho sociológico, presente na cultura profissional dos sociólogos; a capacidade de mobilizar o distanciamento crítico característico da prática sociológica em situação de dependência face às instituições contratantes que tende a gerar a reprodução de modos de pensamento normativo sobre a saúde e a doença; a forma como pode o trabalho sociológico interferir nas mudanças necessárias, relativamente às práticas em saúde e às políticas de saúde.

O debate destas questões não pode ser feito com base numa suposta dicotomia entre as práticas dos sociólogos inseridos no contexto académico e as práticas dos sociólogos inseridos noutros contextos profissionais. Sendo certo que as instituições de ensino superior (quer em termos de investigação/produção do conhecimento, quer em termos de formação) e as organizações do campo profissional têm características e especificidades distintas, as primeiras com um cariz teórico mais vincado e as segundas com a maior presença de imperativos de ordem pragmática, os «mundos» da ciência e da profissão não são dissociáveis com base na «noção de que quem faz sociologia não exerce uma profissão, e de que quem exerce uma profissão não faz sociologia» (Costa, 1988:110). De facto, a intervenção dos sociólogos exige, em qualquer dos casos, a mobilização de atributos, teóricos, epistemológicos, metodológicos e técnicos (muitas vezes associados exclusivamente, de forma errada, à academia, na medida em que se consubstanciam, em qualquer contexto, como condição imprescindível para um desempenho de qualidade) e a capacidade de operacionalização que não constitui, obviamente, um atributo específico e, muito menos, exclusivo, de contextos profissionais exteriores às instituições académicas. Neste sentido, estamos perante contextos potencialmente convergentes que não são dissociáveis e, muito menos, dicotomizáveis.

 

Referências

Associação Portuguesa de Sociologia (1995), Experiências e papéis profissionais de sociólogos, Lisboa, APS.

BANHA, Rui (1999), “O exercício da sociologia no contexto do poder local em Portugal” in Helena Carreiras, Fátima Freitas e Isabel Valente, Profissão Sociólogo, Oeiras, Celta.

CARREIRAS, Helena, FREITAS, Fátima e VALENTE, Isabel (org.), (1999), Profissão Sociólogo, Oeiras, Celta.

COSTA, António Firmino (1988), “Cultura profissional dos sociólogos”, Sociologia, Problemas e Práticas, 5.

MACHADO, Fernando Luís (1996), “Profissionalização dos sociólogos em Portugal – contextos, recomposições e implicações”, Sociologia, Problemas e Práticas, 20.

RIBEIRO, Manuel João (1994), “Um quadro integrado da actividade sociológica: reflexões sobre uma experiência profissional” in AAVV, Dinâmicas culturais, cidadania e desenvolvimento local – Actas do Encontro de Vila do Conde, Lisboa, Associação Portuguesa de Sociologia.

Autores: David Tavares

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