2025, n.º 37, e20253714
Sandra Pinheiro
FUNÇÕES: concetualização, análise formal, investigação, redação do rascunho original, revisão
AFILIAÇÃO: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Departamento de Sociologia, Instituto de Sociologia
da Universidade do Porto. Via Panorâmica, s/n, 4150-564 Porto, Portugal.
CIES – Centro de Investigação e Estudos de Sociologia. Av. das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, Portugal
E-mail: pinheirosapi@gmail.com | ORCID: https://orcid.org/0009-0003-4488-0337
Leonor Medon
FUNÇÕES: investigação, revisão, redação do rascunho original
AFILIAÇÃO: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Departamento de Sociologia,
Instituto de Sociologia da Universidade do Porto. Via Panorâmica, s/n, 4150-564 Porto, Portugal
E-mail: leonor.medon@gmail.com | ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5813-8593
Rita Madeira
FUNÇÕES: investigação, revisão, redação do rascunho original
AFILIAÇÃO: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Departamento de Sociologia,
Instituto de Sociologia da Universidade do Porto. Via Panorâmica, s/n, 4150-564 Porto, Portugal
E-mail: ritacmadeira99@gmail.com | ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0527-5903
Sandra Couto
FUNÇÕES: investigação, revisão, redação do rascunho original
AFILIAÇÃO: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Departamento de Sociologia,
Instituto de Sociologia da Universidade do Porto. Via Panorâmica, s/n, 4150-564 Porto, Portugal
E-mail: sandrafmcouto@gmail.com | ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0304-0238
João Teixeira Lopes
FUNÇÕES: investigação, revisão, supervisão, validação, aquisição de financiamento
AFILIAÇÃO: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Departamento de Sociologia,
Instituto de Sociologia da Universidade do Porto. Via Panorâmica, s/n, 4150-564 Porto, Portugal
E-mail: jmteixeiralopes@gmail.com | ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6891-7411
Resumo: O Norte de Portugal desempenhou um papel importante no desenvolvimento da indústria mineira do país. As minas do Pejão e as minas de Regoufe assumiram particular relevância nesse processo, contribuindo para a transformação profunda das estruturas sociais e económicas locais e definindo relações, práticas e modos de vida das populações. Recorrendo a um processo de investigação-ação ancorado no teatro, nas histórias de vida de antigos mineiros e na educação não formal, o texto que se apresenta analisa processos de transmissão da memória da atividade mineira nos concelhos de Castelo de Paiva e de Arouca. Para além do potencial heurístico dos processos participativos, os resultados revelam que as memórias sobre o passado mineiro estão a ser transmitidas e atualizadas pelas gerações mais jovens, ainda que a níveis diferentes nos dois concelhos.
Palavras-chave: indústria mineira, memória, território, teatro e comunidade.
Abstract: The North of Portugal played an important role in the development of the country’s mining industry. The Pejão mines and the Regoufe mines were particularly significant in this process, contributing to a profound transformation of local social and economic structures and shaping the relationships, practices, and ways of life of the surrounding communities. Drawing on an action-research process grounded in theatre, life stories of former miners, and non-formal education, this text analyses the processes through which the memory of mining activity is transmitted in the municipalities of Castelo de Paiva and Arouca. Beyond the heuristic potential of participatory approaches, the results show that memories of the mining past are being transmitted and reinterpreted by younger generations, although at different levels in the two municipalities.
Keywords: mining industry, memory, territory, theatre and community.
Introdução
Todos os anos, a 4 de dezembro, celebra-se a Festa de Santa Bárbara, padroeira dos mineiros. É um dia dedicado à homenagem aos antigos trabalhadores da Empresa Carbonífera do Douro (ECD) e ao reencontro do Coro dos Mineiros do Pejão, em Castelo de Paiva. Durante a celebração, ouve-se o Hino de Santa Bárbara, canção que integra de forma recorrente o repertório simbólico dos mineiros (Leite & Miranda, 2022). Nos cafés e restaurantes da região, guardam-se gasómetros, capacetes, fotografias de antigos trabalhadores das minas e exibem-se recortes do jornal O Pejão. Os desfiles escolares recriam frequentemente cenas de trabalho, enquanto os antigos edifícios das minas se abrem para receber exposições e reconstituições teatrais.
Entre milieux e lieux de mémoire (Nora, 1989), estas imagens-edifícios-objetos revelam de que maneira a memória do passado industrial mineiro se conserva, atualiza e inscreve na vida quotidiana de uma comunidade do Norte de Portugal. Com origem no século XIX, a atividade mineira no Couto Mineiro do Pejão foi impulsionada pela procura de carvão durante a Primeira Guerra Mundial (Pereira, 2020). A Empresa Carbonífera do Douro, Lda., adquirida em 1933 por um grupo belga e nacionalizada nos anos 70, chegou a empregar cerca de 3000 pessoas. Foi oficialmente encerrada em 1994, deixando 500 trabalhadores sem emprego e desencadeando uma longa jornada de ação coletiva pela salvaguarda de postos de trabalho e sistema de reformas (Norte, 1994).
A importância da indústria mineira no Norte do país não se limitou ao Pejão. A aldeia de Regoufe, em Arouca, hoje com cerca de 20 habitantes e fortemente ancorada na pastorícia e agricultura, foi marcada pela extração de volfrâmio, especialmente durante a 2.ª Guerra Mundial. A Companhia Portuguesa das minas contribuiu para a modernização da aldeia e chegou a empregar cerca de 1000 pessoas, até ao seu encerramento nos anos 70 (Silva, 2011).
De forma a compreender o significado dos processos que se geraram no entorno destas duas áreas, o Projeto Soil Health Surrounding Former Mining Areas reuniu uma equipa de investigadores de várias áreas do saber[1], desde as Ciências da Terra, à Engenharia, passando pela Sociologia e Belas-Artes. Com objetivos específicos distintos segundo os diferentes intervenientes do projeto, a Sociologia[2] teve a oportunidade de mobilizar o seu olhar concreto e respetivas ferramentas metodológicas para o estudo de um fenómeno que não tem sido objeto de abordagens recentes na disciplina. Para analisar o papel das minas na (re)construção das identidades locais das populações (Lopes et al., 2023), procurou-se identificar o conjunto de memórias sobre as minas que são ativadas nos discursos dos residentes dos concelhos de Castelo de Paiva e de Arouca; identificar representações sobre risco e impacto ambiental associados às escombreiras; resgatar memórias e representações, individuais e coletivas, sobre a profissão de mineiro no seu entrosamento com o espaço social local, e apurar o conjunto de preocupações e planos futuros para as minas, tendo como foco as questões socioambientais e de patrimonialização.
Numa primeira fase da investigação, foi aplicado um inquérito por questionário a 301 residentes e realizadas 13 entrevistas semiabertas a agentes locais nos dois territórios. Estes resultados, já discutidos em trabalhos anteriores (Lopes & Pinheiro, 2023), sugerem que o risco associado às antigas escombreiras nas áreas envolventes é percecionado como mínimo ou inexistente, e que as memórias locais associadas à atividade mineira permanecem atuantes nos discursos dos residentes dos dois concelhos, ainda que adquiram uma maior centralidade em Castelo de Paiva. Apesar de ambas as populações identificarem a existência de um conjunto de iniciativas em curso voltadas para a valorização do património mineiro e para a divulgação da sua história, existe a perceção geral de uma intervenção pública ainda limitada na promoção do passado industrial das minas de Regoufe e das minas do Pejão (Lopes & Pinheiro, 2023).
Seguindo uma lógica de investigação-ação, numa segunda fase do projeto e com o objetivo de aprofundar os resultados obtidos, foram mobilizadas as metodologias do teatro e da educação não formal. Esta etapa incluiu a dinamização de um conjunto de oficinas nas escolas dos dois concelhos e a organização de um processo que envolveu teatro e a comunidade do Couto Mineiro do Pejão. Deste trabalho, recolheram-se novos contributos para a reflexão sobre o cruzamento entre território e memória mineira.
Comunidades mineiras e memória coletiva
As memórias das populações mineiras do Pejão e de Regoufe encontram-se enraizadas na atividade económica que estruturou a vida social e formas de organização do trabalho, práticas, valores e modos de estilização do quotidiano destes territórios. Analisar o estado atual das memórias associadas à mineração e as suas formas de transmissão e reatualização implica, em primeiro lugar, compreender as comunidades mineiras como formações complexas, constituídas por propriedades sociais particulares bem vincadas que se entrelaçam na produção e reprodução do espaço social local (Bourdieu, 2010[1979]).
Para além da centralidade atribuída à identidade profissional de mineiro e da reprodução de práticas particulares do trabalho industrial em sistemas relativamente fechados (Fonseca, 2006), as comunidades mineiras caracterizam-se por uma escassa mobilidade fora da sua origem social, por uma forte valorização da solidariedade e da convivência entre mineiros e por uma clara demarcação dos papéis de género nos contextos laboral e familiar (Schwartz, 1990, p. 82). São comunidades estruturadas por uma “consciência operária construída”, baseada no orgulho coletivo e na distinção simbólica entre “eles” e “nós” (Schwartz, 1990)[3]. Existem, no entanto, ambiguidades e tensões que se refletem nos seus processos de identidade coletiva (Fonseca, 2004). O trabalho de Inês Fonseca (2006) mostrou que, mesmo com o protagonismo partilhado entre atividade agrícola e indústria mineira na vila de Aljustrel, a população se apropriava coletivamente da identidade mineira.
Retendo “apenas do passado aquilo que está vivo ou capaz de viver na consciência de um grupo que a mantém” (Halbwachs, 1990, p. 82) a memória do passado industrial mineiro tem de ser percecionada como um fenómeno fortemente coletivo e situado (Halbwachs, 1990, p. 82). A memória forma-se em relação, no entrelaçar de experiências partilhadas e, por isso, é sempre memória coletiva, resultante de processos permanentes de reconstrução, seleção e disputa – de significados oficiais ou não oficiais, dominantes ou populares – por um grupo social, num tempo e espaço determinados.
Em última análise, os sentidos atribuídos ao passado industrial mineiro variam em função das trajetórias de vida e das posições sociais dos indivíduos (Bourdieu, 1993). Procurando maximizar proveitos, as memórias das minas são apropriadas e reinterpretadas pelos agentes com diferentes interesses em vista (Bourdieu, 1993). Geram-se dissonâncias quando determinados agentes enfatizam potencialidades estratégicas do turismo e da patrimonialização das minas; enquanto minimizam ou afastam perceções de risco e impactes ambientais associados às escombreiras ou obscurecem a dureza do trabalho, os processos de organização coletiva, ou os impactos para a saúde dos trabalhadores (Lopes et al., 2023; Fonseca, 2004).
As gerações mais jovens
De forma a compreender de que maneira as memórias e representações sobre as minas estão a ser apropriadas, reinterpretadas e reproduzidas pelas gerações mais jovens, foram dinamizadas várias sessões com 17 turmas, do 5.º ao 9.º ano de escolaridade, pertencentes à comunidade educativa dos dois territórios em estudo: na Escola Secundária de Arouca e na Escola E. B. 2,3 do Couto Mineiro do Pejão (Castelo de Paiva)[4].
As sessões com estudantes foram desenhadas com recurso a práticas de educação não formal e ao teatro do oprimido, ferramentas que permitiram colocar no centro das ações as perceções e interesses dos grupos de jovens das escolas. A educação não formal, “enquanto campo em aberto de infindáveis possibilidades de ação” (Martins, 2022, p. 7), foi mobilizada com o objetivo de convocar as experiências das gerações mais jovens sobre o seu território. Já o teatro do oprimido, metodologia que combina teatro, debate e intervenção social e política, — ao propor dissolver as barreiras entre quem está no palco e quem observa, criando espet-atores — atribui ao público responsabilidades, convocando-o a tomar posição sobre algo (Boal, 1991). Esta abordagem abriu caminhos para projetar novas possibilidades de olhar para a memória social das minas.
As sessões foram orientadas para três objetivos principais: divulgar a ciência e a sociologia junto dos públicos escolares, refletir sobre o território comum, e aceder às representações sociais existentes sobre a atividade mineira no concelho.
A estrutura das sessões integrou a apresentação do Projeto Soil e os resultados preliminares da investigação, uma discussão orientada sobre o território, e um conjunto de exercícios de teatro do oprimido em pequenos grupos, centrados no trabalho com objetos associados ao universo mineiro, cedidos por antigos mineiros, como capacetes, gasómetros, marmitas, carvão, fotografias antigas de mineiros, folhas de pagamento de horas, entre outros. A partir da exploração simbólica dos objetos, organizaram-se jogos de improvisação, elaboração de narrativas e debates em turma sobre as cenas produzidas. No final de cada sessão, lançou-se o desafio da realização de um trabalho livre sobre os temas abordados, como se encontra ilustrado na Figura 1.

Figura 1 Trabalho de um estudante do Agrupamento de Escolas do Couto Mineiro do Pejão (2023)
Ao longo das ações, optou-se por fazer registos sistemáticos em diário de campo e recolher os materiais produzidos. Posteriormente, procedeu-se à análise de conteúdo dos trabalhos realizados e das intervenções dos estudantes nas discussões, fazendo emergir dimensões que fazem divergir, mas também aproximar os dois territórios.
Realizámos o exercício inicial de identificar as palavras mais recorrentemente utilizadas nos debates e trabalhos escritos realizados, identificando núcleos temáticos marcados. Em Arouca, as palavras “minério”, “volfrâmio”, “Segunda Guerra Mundial”, “Ingleses”, “Alemães”, “Pedra”, “ruínas” e “armas” foram os termos mais utilizados para se referirem à memória da mina. Já em Castelo de Paiva, destacaram-se as palavras “carvão”, “pessoas”, “avô”, “trabalhar”, “salário”, “problemas”, “doenças”, “vidas” e “esforço”. Desde já, podemos dizer que, em Arouca, os discursos remetem sobretudo para o contexto histórico da atividade mineira e para objetos, estruturas e vestígios materiais. Em Castelo de Paiva, pelo contrário, os discursos evocam principalmente a dimensão humana da atividade, o trabalho e as relações familiares.
Se estamos perante uma memória social viva e atuante nos dois locais ao nível geral das populações; no caso das gerações mais jovens, identifica-se algum desconhecimento e um afastamento em relação à temática das minas, embora com intensidades totalmente diferentes nos dois contextos. Em Arouca, estamos perante uma desvinculação com a temática da mina. As minas de Regoufe são percecionadas como “algo do passado”, desligado das experiências quotidianas dos estudantes. A grande maioria dos jovens nunca esteve no local das antigas minas de Regoufe e as referências produzidas remetem maioritariamente para o contexto histórico da Segunda Guerra Mundial, para o rush mineiro e para as consequências do enriquecimento rápido. A memória da mina é transmitida, sobretudo, a partir de uma narrativa histórica, patrimonial e turística.
No Pejão, a relação com a memória é familiar e meio privilegiado para aceder em profundidade às histórias e memórias sobre as minas, e as representações imediatas remetem para os relatos familiares e experiências de vida dos pais, avós e tios. Algumas das cenas e narrativas produzidas pelos estudantes eram, de facto, histórias reais contadas por familiares próximos, o que demonstra um processo de transmissão contínua, estruturado pelo íntimo e sensível. Não será arriscado afirmar que, no Pejão, estamos perante memórias mediadas pela afetividade e mobilizadas no quotidiano, com efeitos práticos na forma como os jovens percecionam o lugar onde vivem.
Processo de construção do espetáculo Da Raiva ao Paraíso
Da Raiva ao Paraíso resulta de um processo de criação artística de base comunitária, desenvolvido entre novembro de 2022 a março de 2023, na União de Freguesias da Raiva, Pedorido e Paraíso, no concelho de Castelo de Paiva. De forma geral, toda a construção e metodologia do espetáculo inscreve-se num modo de fazer teatro que coloca no centro, desde a decisão dos temas até à interpretação, quem habita os lugares que se trazem para os palcos ou espaços de apresentação (Erven, 2001, p. 2). Reconhecendo que a experiência de vida situada dos participantes é um elemento estruturante da criação artística (Erven, 2001, p. 2), o processo criativo tomou como ponto de partida as expectativas, histórias e a vontade de dizer algo através do teatro (Boal, 1982). Entende-se o teatro como espaço de memória (Lehmann, 2017[1999]), capaz de articular o passado com o presente de forma sensível e dinâmica e combinar as subjetividades e trajetórias de vida dos agentes com os imaginários coletivos sobre o território e a atividade mineira.
Além da organização de um processo de criação artística comunitária através de oficinas livres de teatro, procedeu-se à recolha de histórias de vida de antigos mineiros do Pejão e à consulta de arquivos e registo documental. Estas ferramentas metodológicas foram articuladas de forma complementar e permanente ao longo de todo o processo.
As oficinas livres de teatro realizaram-se todas as semanas, aos sábados, na Casa do Povo da Raiva, associação cultural e recreativa com um papel importante na vida cultural da freguesia e com uma extensa tradição de teatro amador. O regresso dos participantes a este lugar ativou não apenas uma vontade de “voltar a fazer teatro”, mas também uma memória partilhada dos salões da freguesia cheios de público, numa época em que teatro era um motivo para reunir a comunidade local (Lopes & Pinheiro, 2023).

Figura 2 Salão de festas da freguesia nos anos 80, fotografia partilhada por um dos participantes das oficinas.
A participação nas oficinas incluiu residentes da União de Freguesias da Raiva, Pedorido e Paraíso, de diferentes faixas etárias, dos 6 aos 69 anos, com perfis sociais variados, motivações e formas de relação com as minas distintas. Ao longo das oficinas, estiveram presentes o Coro dos Mineiros do Pejão e a Associação Recreativa, Cultural, Patrimonial e Ambiental de Folgoso (ARCAF).
O processo de criação artística desenvolveu-se a partir dos diferentes recursos técnicos da improvisação, dos usos do teatro do oprimido, do trabalho de pesquisa com objetos e arquivos e da encenação. As primeiras sessões dedicaram-se ao reconhecimento do grupo e ao mapeamento de afinidades e modos distintos de perceber o território comum (Lopes & Pinheiro, 2023). Os exercícios do teatro do oprimido permitiram a análise das situações concretas vividas pelos participantes, a identificação de experiências semelhantes e a imaginação de alternativas. Em todas as sessões, partilharam-se textos e fotografias, que depois eram organizados pelo coletivo, servindo como matéria para improvisações e para a construção da dramaturgia do espetáculo.
Numa tentativa de captar as dimensões estruturais das disposições sociais e as singularidades dos percursos de vida de cada ex-mineiro (Bertaux, 1976), organizou-se a recolha de histórias de vida a 9 antigos trabalhadores das minas. Um excerto de uma das sessões de recolha de histórias está disponível para consulta no site do Museu da Pessoa, oferecendo acesso público a este acervo de memória coletiva (Instituto de Sociologia da Universidade do Porto, 2023).
Comecei a trabalhar com 19 anos aqui na galeria do zero, depois passei para o Posto 3 (…) e depois fui trabalhar para lá com o meu pai, até à morte dele. Tive um acidente (…) o capacete, que era de alumínio, fazia-me doer a cabeça. E eu era obrigado a trabalhar com ele, mas eu, às vezes, tirava e punha-o de lado. E ele (fiscal de segurança) andava sempre em cima de mim, sempre que me apanhava sem capacete, acusava-me ao Engenheiro. (Antigo mineiro das minas do Pejão, 2023, Castelo de Paiva)
Os relatos recolhidos a partir das histórias de vida foram incorporados no processo de criação artística, permitindo que a dramaturgia se sustentasse na experiência vivida “tal como a pessoa que a viveu a conta” (Bertaux, 1980). Os testemunhos abrangem desde a descrição dos processos de trabalho e da solidariedade entre mineiros às singularidades da vida de cada um – um pai que se recusa a mandar o filho para o interior da mina, um acidente de trabalho, o conjunto de disposições militantes de alguns mineiros. A utilização das histórias de vida no processo criativo permitiu que o teatro funcionasse como encontro entre trajetórias individuais e história coletiva. O registo documental e trabalho com os arquivos locais acompanhou todas as fases do projeto, incluindo fotografias, gravações áudio e vídeo das histórias de vida e das oficinas de teatro.
Num dia chegou a casa a carta e era a carta… a convocatória para ir para as minas do Pejão. Quando um jovem celebrava os 14 anos, a administração da empresa enviava uma carta aos pais a perguntar se os filhos queriam ir para a mina. Não havendo possibilidades, lá tive eu de ir para as minas. Não fui para o interior, fui para o exterior, o meu pai disse-me que se fosse chamado para o interior, à ordem dele, ia embora. (Antigo mineiro das minas do Pejão, 2023, Castelo de Paiva)
Da Raiva ao Paraíso teve lugar num antigo edifício de exploração mineira – o cavalete do Fojo. Junto à jaula que transportava os mineiros para o interior e exterior das minas, o espetáculo assumiu a forma de uma visita guiada ao antigo Couto Mineiro do Pejão, construída a partir das visões, memórias e representações do grupo. As cenas convocaram o quotidiano de trabalho, a vida cultural e teatral da freguesia, a relação com a paisagem natural, e as preocupações presentes associadas ao concelho. O público, composto por residentes das freguesias mais próximas, encheu o espaço e reagiu intensamente ao espetáculo, reconhecendo histórias, rostos, objetos e imagens, numa dinâmica de forte envolvimento e reativação das memórias do território.

Figura 3 Espetáculo Da Raiva ao Paraíso (Fotografia de Adélio Gomes, Cavalete do Fojo, 2023)
Notas finais
A memória das minas vive e atua no território, persiste nas histórias orais quotidianas dos residentes das áreas mineiras de Castelo de Paiva e de Arouca, originando verdadeiros processos de reconhecimento e sentimentos de pertença, ainda que a níveis diferentes nos dois concelhos. As gerações mais jovens de Castelo de Paiva crescem com a presença da mina nas histórias e relatos familiares, moldando as suas maneiras de olhar o passado, habitar o território e construir a sua própria identidade: são filhos e netos de antigos trabalhadores, participam em ações de rememoração, estão rodeados de símbolos e objetos que remetem para o passado industrial daquele local. Não experienciaram diretamente, mas ativam a memória das minas nos seus quotidianos. Em Arouca, a relação com as minas é histórica e mediada: os jovens manifestam um desconhecimento geral sobre a atividade, associando-a a algo do passado, como a Segunda Guerra Mundial ou o rápido enriquecimento de alguns residentes do concelho, distanciando-se da experiência vivida pela comunidade de Regoufe. Apesar de, na perspetiva do município e das organizações de valorização do património de Arouca, estarmos perante memórias fortes, no sentido proposto por Enzo Traverso (2012), a maneira como a memória circula entre os residentes e, sobretudo, entre as gerações mais jovens, evidencia sinais de desmobilização e dispersão.
Este contraste sugere que a memória mineira em Castelo de Paiva se encontra mais enraizada, não apenas por ter cessado mais tarde, mas também pela força da continuidade de redes de solidariedade e sociabilidade entre mineiros reformados (Renahy, 2024, p. 11), organizados em torno do Coro dos Mineiros do Pejão e de diversas iniciativas locais. As histórias de vida realizadas a antigos mineiros, captando as relações que estão na base de trajetórias singulares (Bertaux, 1976), dão conta de uma rede de interajuda e apoio constituída entre membros da “Família Pejão”. Ao mesmo tempo, as tensões, conflitos e perda de empregos decorrentes do encerramento das minas do Pejão levaram a comunidade a promover rituais, como encontros e celebrações, que servem um certo enfrentamento de uma fase adversa da história local (Turner, 1974).
Nos dois lugares, a memória reconstrói-se num campo de forças e disputas de significados. Questões como os impactos ambientais, o risco e a saúde dos solos estão quase ausentes das representações dos mais jovens. De igual maneira, as formas de ação coletiva protagonizadas por mineiros durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC) são escassamente referidas, evidenciando que a memória não é neutra — seleciona e hierarquiza, transmite e silencia (Godinho, 1998).
Os processos participativos constituíram espaços onde diferentes gerações puderam reconhecer-se e reconstruir sentidos para o território comum. Constituíram-se como oportunidades de visibilidade para territórios esquecidos, conferindo protagonismo a agentes que o vêm perdendo. Tanto as sessões realizadas nas escolas como o processo de criação em Castelo de Paiva levaram os residentes a falar sobre o que se passou, prolongando experiências passadas e contendo os efeitos do presentismo.
Da Raiva ao Paraíso envolveu um grupo de residentes na recuperação e projeção de memórias para o futuro. A falta de transportes públicos, a inexistência de equipamentos culturais, a associação de Castelo de Paiva a tragédias, e o atraso na ligação da variante à EN222, foram preocupações integradas na dramaturgia do espetáculo. É precisamente quando “algo não visto se torna quase visível entre imagem e imagem” (Lehmann, 2017[1999], p. 288) que se abrem caminhos para identificar alternativas possíveis. O teatro enquanto mediação entre memória e possibilidade, enquanto construção de novos e renovados entendimentos do passado (Pollock, 2005, p. 6), é também um teatro com futuro.
Referências
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Data de submissão: 29/01/2024 | Data de aceitação: 19/12/2025
Notas
[1] O projeto foi coordenado pela Professora Deolinda Flores, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), e congregou, para além desta instituição, a Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) através do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto (IS-UP) e vários parceiros da mesma universidade: o Instituto de Ciências da Terra (ICT); o Centro de Investigação em Química da Universidade do Porto (CIQUP/FCUP); a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e o Centro de Recursos Naturais e Ambiente (CERENA); a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP) e o Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade (i2ADS). O objetivo geral comum consistiu na caracterização destes territórios mineiros, dos seus resíduos, tanto nos solos como nas águas, de maneira a identificar impactes ambientais e contribuir para a sua mitigação através da avaliação da saúde dos solos e das águas
[2] Da parte da Sociologia o projeto foi coordenado por João Teixeira Lopes, Professor Catedrático da FLUP e coordenador do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto. A equipa foi ainda composta por Francisca Teixeira, Leonardo Ferreira, Leonor Medon, Sandra Couto, Rita Madeira e Sandra Pinheiro.
[3] Nas minas do Pejão, trabalhadores e as suas famílias referiam-se a si próprios como “Família do Pejão” para expressar um orgulho de pertença à ECD.1
[4] Escola Secundária de Arouca localiza-se no centro do concelho de Arouca e a E. B. 2,3 do Couto Mineiro do Pejão na União de freguesias das antigas minas do Pejão.
Autores: Sandra Pinheiro, Leonor Medon, Rita Madeira, Sandra Couto e João Teixeira Lopes