2026, n.º 41, e2026411

Raul Mabasso
FUNÇÕES: Conceptualização, Investigação, Metodologia, Redação do rascunho original, Redação — revisão e edição
AFILIAÇÃO: Universidad de La Frontera, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Departamento de Trabalho
Social. Avenida Francisco Salazar, 01145, 4811230, Temuco, Chile.
E-mail: mabassoraul@gmail.com | ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3311-7750

Resumo: Este artigo analisa a coisificação masculina (entendida como redução a funções instrumentais) nas relações afectivas juvenis em Moçambique, explorando dinâmicas de poder e processos contemporâneos de construção das masculinidades como provedoras, símbolos de status ou agentes de performance sexual, e como negoceiam essas expectativas socioculturais. Optou-se por uma abordagem qualitativa, com recurso a entrevistas como técnica principal. As entrevistas envolveram 33 jovens (com idades entre 18 e 39 anos) de zonas urbanas, periféricas e periurbanas de Maputo, no período entre Outubro e Dezembro de 2024. Os resultados indicam que a masculinidade hegemónica, fortemente modulada por classe social, escolaridade e valores familiares, mantém-se vinculada à capacidade financeira nas comunidades estudadas, gerando ansiedade e desgaste relacional. O estudo problematiza leituras universalizantes das masculinidades africanas, contribuindo para os debates pós-coloniais de género ao enfatizar a interseccionalidade e a historicidade da coisificação masculina. Conclui-se que o fenómeno é relacional e contextual, exigindo políticas públicas que articulem equidade de género e apoio psicossocial à juventude.

Palavras-chave: juventude, masculinidade, relações afectivas, Maputo.

Abstract: This article examines male objectification (understood as reduction to instrumental functions) in youth affective relationships in Mozambique, exploring power dynamics and contemporary processes through which masculinities are constructed as providers, status symbols, or agents of sexual performance, alongside how they negotiate these sociocultural expectations. A qualitative approach was chosen, using interviews as the main technique. Interviews involved 33 youths (aged 18-39) from urban, peripheral, and peri-urban areas of Maputo, conducted between October and December 2024. Results indicate that hegemonic masculinity, strongly modulated by social class, educational attainment, and family values, remains tied to financial capability within the studied communities, generating anxiety and relational strain. The study problematizes universalizing interpretations of African masculinities, contributing to postcolonial gender debates by emphasizing the intersectionality and historicity of male objectification. It concludes that the phenomenon is relational and context-dependent, necessitating public policies that integrate gender equity and psychosocial support for youth.

Keywords: youth, masculinity, affective relationships, Maputo.

Introdução

As transformações nas dinâmicas afectivas contemporâneas têm sido marcadas por complexas interacções entre factores socioculturais, económicos e tecnológicos em escala global. No contexto moçambicano, onde tradições locais dialogam criticamente com influências transnacionais, os jovens enfrentam pressões contraditórias na construção de suas masculinidades e relações amorosas.

Este artigo propõe-se a investigar o fenómeno emergente da coisificação masculina e as suas implicações nas dinâmicas de poder que estruturam os relacionamentos afectivos juvenis, tomando como ponto de partida a expressão “posso-te pedir algo?”, que é utilizada como um dispositivo analítico e uma metáfora conceptual para examinar as micro-negociações de poder que ocorrem nas interacções afectivas entre jovens. Através desta lente, busca-se identificar indícios e implicações da coisificação masculina, considerando o contexto sociocultural moçambicano e a interacção entre tradições locais e influências transnacionais.

Com base nesse ponto, este estudo tem como objectivo geral compreender de que maneira a coisificação masculina se manifesta nas relações afectivas juvenis em Moçambique, analisando as suas implicações nas dinâmicas de poder, nas expectativas de género e nas estratégias relacionais adoptadas pelos jovens homens. Especificamente, pretende-se, i) identificar os indicadores simbólicos e práticos de coisificação atribuídos à figura masculina nos relacionamentos; ii) analisar como essas representações variam segundo factores como faixa etária, escolaridade, zona de residência e estado civil; e iii) examinar as estratégias discursivas e relacionais utilizadas pelos homens jovens para negociar ou resistir às exigências de provisão e funcionalidade afectiva.

No âmbito da terminologia, opta-se por empregar o conceito de “coisificação” para referir à experiência masculina, em contraste com o termo “objectificação” tradicionalmente associado à condição feminina. Essa escolha visa sublinhar que, embora ambos os conceitos remetam a formas de redução da pessoa à condição de instrumento, operam sob lógicas simbólicas distintas. A objectificação feminina, amplamente explorada pela teoria feminista, associa-se a uma estetização e erotização do corpo feminino enquanto objecto do desejo masculino.

Já a coisificação masculina, conforme empregada neste trabalho, refere-se à redução dos homens a funções utilitárias e instrumentos como a capacidade de provisão, autoridade económica ou desempenho sexual que não necessariamente envolvem desejo, mas sim expectativas sociais de funcionalidade. Portanto, esta distinção conceptual permite analisar as assimetrias de género sem incorrer em simetrias analíticas artificiais, valorizando a especificidade das formas pelas quais homens e mulheres são despersonalizados em contextos relacionais distintos. O interesse central desta investigação reside na escassez de estudos sobre a coisificação masculina nos contextos africanos, particularmente em Moçambique. Enquanto a objectificação feminina foi amplamente teorizada (Bartky, 1990; Fredrickson & Roberts, 1997), a experiência masculina permanece marginal nos debates académicos regionais. Como destacam Ratele (2013) e Morrell (2001), as masculinidades africanas têm sido frequentemente analisadas através de perspectivas ocidentalizadas, negligenciando as especificidades locais.

Da mesma forma, Oliveira (2004) contribui para este debate ao demonstrar como as masculinidades são construções sociais dinâmicas, sujeitas a constantes renegociações. À vista disso, o estudo busca preencher essa lacuna, interrogando: em que medida os jovens homens moçambicanos são reduzidos a funções instrumentais (provedores, símbolos de status ou performance sexual) nas relações afectivas, e que estratégias desenvolvem para negociar essas expectativas?

A relevância científica deste trabalho manifesta-se em três dimensões principais. Primeiro, enriquece os estudos pós-coloniais de género ao ampliar o escopo analítico para além do tradicional foco em mulheres, práticas culturais/rituais e HIV/SIDA que caracterizou a pesquisa sobre mulher (Oliveira, 2004; Shefer & Mankayi, 2007). Segundo, estabelece um diálogo crítico com a teoria feminista global (hooks, 2004) ao examinar como as hierarquias de género impactam igualmente os homens. Terceiro, oferece dados empíricos sobre as tensões entre modelos tradicionais de masculinidade e novas subjectividades emergentes entre a juventude urbana (Arnfred, 2011).

A urgência social desta investigação justifica-se pela necessidade de compreender como essas dinâmicas afectam a saúde mental juvenil (Agadjanian, 2002a), perpetuam desigualdades de género e influenciam padrões de violência relacional. Como demonstram Connell (2005) e Viveros Vigoya (2018), as crises de masculinidade em contextos de transição social frequentemente geram comportamentos de risco. Em Moçambique, essas tensões são particularmente visíveis nos espaços urbanos, onde jovens negociam identidades de género em contextos de rápida mudança social (Arnfred, 2011).

Metodologicamente, adopta-se abordagem qualitativa interpretativa, combinando análise de discurso (Fairclough, 2003) com entrevistas semiestruturadas junto de 33  jovens urbanos, periféricos e periurbanos de Maputo. Esta opção metodológica permite capturar tanto as narrativas hegemónicas quanto as contra-narrativas emergentes, seguindo o chamado de Sousa Santos (2018) por epistemologias do Sul que valorizem saberes locais.

“Quem pede o quê”? Género, iniciativa e expectativas afectivas

As dinâmicas de iniciativa nos relacionamentos afectivos juvenis em Moçambique reflectem complexas intersecções entre normas de género, desigualdade simbólica e expectativas emocionais. O acto de “pedir” algo, seja afecto, presença ou compromisso não é neutro, ele revela estruturas de poder, papéis de género e processos de legitimação afectiva. Em contextos urbanos moçambicanos, Agadjanian (2000b) já apontava que, embora os homens verbalizem dominância nas interacções íntimas, há um código implícito de controlo feminino, sobretudo no acesso ao corpo e ao afecto. Apesar disso, essa “autoridade” feminina é estratégica e frágil, pois opera dentro de uma estrutura patriarcal que ainda válida a iniciativa masculina como mais legítima e activa.

Essa ideia conecta-se com o conceito de dominação simbólica de Bourdieu (1998), mesmo quando mulheres “permitem-se escolher”, essa escolha já está moldada por um campo social desigual, onde o pedido feminino é mais frequentemente interpretado como dependência ou fragilidade emocional. Autoras como hooks (2004) e Connell (2005) ajudam a entender por que muitos jovens homens rejeitam o “pedido” como um gesto legítimo. Para eles, admitir carência emocional equivale a violar o código da masculinidade hegemónica.

A teoria da performatividade de género (Butler, 2007) ajuda a entender como os jovens moçambicanos reproduzem ou contestam esses scripts sociais. Por exemplo, quando um homem pede algo a uma mulher (seja atenção, afecto ou sexo), ele está reiterando uma masculinidade hegemónica (Connell, 2005), que pressupõe seu direito à demanda. Já as mulheres, como discutido por Arnfred (2011), muitas vezes internalizam a ideia de que ceder a esses pedidos é parte do seu papel de género, ainda que negociem agência dentro desses limites.

Essa negação do desejo afectivo por parte dos homens pode ser lida como um sintoma do que Hochschild (2012) chama de gestão emocional, o homem aprende a reprimir ou esconder emoções para manter uma aparência de controlo. Ratele (2013) também questiona essa tradição, defendendo a construção de masculinidades desarmadas, abertas à reciprocidade e ao cuidado. No entanto, nas dinâmicas juvenis moçambicanas, tais formas alternativas ainda sofrem resistência, principalmente entre os pares, onde demonstrar afecto é frequentemente ridicularizado.

Inspirando-se em Bartky (1990) e Fredrickson e Roberts (1997), é possível argumentar que as raparigas aprendem a investir no afecto como capital simbólico, cultivando cuidado e escuta como formas de merecimento da atenção masculina. Já os rapazes tendem a posicionar o desejo como direito natural, dificultando uma relação verdadeiramente dialógica. A iniciativa, quando parte da jovem mulher, é muitas vezes lida como desespero ou indecência. Isso reforça o ponto de vista de Butler (2007) sobre a performatividade de género, quem “pede” afecto está reproduzindo uma posição de inferioridade a menos que seja homem, quando o pedido pode ser visto como assertividade.

Mantendo essa linha de pensamento, a conduta das jovens moçambicanas é moldada não apenas por normas de género, mas também por estereótipos e preconceitos interseccionais de raça e classe, que influenciam a forma como seus anseios são interpretados, tanto no campo afectivo quanto sexual. Seu desejo raramente é reconhecido como legítimo. Em outras palavras, frequentemente é interpretado como manipulação ou interesse económico, um fenómeno que atinge inclusive jovens de classes privilegiadas, embora, nestes casos, a desconfiança recaia sobre motivações como status ou oportunismo, e não apenas necessidades materiais. Essas dinâmicas acentuam-se em contextos periféricos, onde desigualdades socioeconómicas estruturais reforçam hierarquias que naturalizam a deslegitimação de suas vozes e corpos.

Courtenay (2000) argumenta que os homens também são reduzidos a funções instrumentais, como provedores, protectores ou performers sexuais, mas essa redução não os desprivilegia no mesmo grau, pois está vinculada a uma posição de poder. Isso cria um paradoxo, espera-se que o outro ofereça afecto, mas sem que se peça directamente, pois pedir é visto como fraqueza.

Dessa forma, encerra-se essa análise, que permite desvelar como a linguagem do desejo e da emoção está profundamente generificada, ou seja, atravessada por construções sociais baseadas em género. No contexto em discussão, a iniciativa amorosa é moldada por códigos culturais que naturalizam a agência masculina e silenciam os afectos femininos. O “pedido” não é inocente, revela muito mais do que intenção, ele revela lugar social, possibilidade simbólica e valor relacional. Deste modo, a análise dessas dinâmicas exige um olhar interseccional, que considere que factores como classe, urbanização e globalização remodelam, mas nem sempre subvertem, as desigualdades tradicionais.

Economia dos relacionamentos: corpo, consumo e afecto

Em Moçambique, como em muitos contextos pós-coloniais marcados por desigualdade de género e consumo desigual, o corpo torna-se moeda, o afecto torna-se serviço, e o desejo uma transacção. Este ponto analisa como os relacionamentos são organizados por lógicas económicas simbólicas, envolvendo o corpo como capital, o consumo como expressão relacional e o afecto como moeda afectiva. Inspirando-se na teoria da objectificação de Fredrickson e Roberts (1997), o corpo, sobretudo o corpo jovem e feminino, passa a ser percebido e instrumentalizado como objecto de valor no mercado afectivo-sexual. Nas trocas afectivas em contextos urbanos, os corpos são performados não apenas como instrumentos de desejo, mas também activos relacionais, com valor social, simbólico e económico.

Bartky (1990) argumenta que a coisificação ocorre quando o outro deixa de ser sujeito e passa a ser recurso para o prazer ou validação do outro, uma lógica que também se aplica aos corpos masculinos em crescente exposição em redes sociais, embora isso ainda ocorra com menor intensidade do que entre jovens mulheres. Nas dinâmicas afectivas moçambicanas, o corpo feminino é frequentemente visto como um recurso a ser negociado, seja em casamentos arranjados, relações informais ou transições sexuais implícitas (Arnfred, 2011).

Ainda para Bartky (1990), a dominação feminina manifesta-se na forma como as mulheres são ensinadas a tratar os seus corpos como objectos de desejo masculino, reforçando hierarquias de género. Essa dinâmica é ainda mais complexa em contextos urbanos, onde a pressão económica e o acesso desigual a oportunidades levam algumas mulheres a usar o corpo como capital social (Agadjanian, 2002b). Já os homens, segundo Connell (2005), são pressionados a desempenhar o papel de provedores, vinculando sua masculinidade à capacidade de consumo. Courtenay (2000) destaca que essa expectativa pode levar a comportamento de risco, como endividamento ou exploração laboral, apenas para sustentar uma imagem de sucesso afectivo.

A teoria do hiperconsumo de Lipovetsky (2007) ajuda a compreender a ascensão de relações marcadas por um desejo incessante de novidade, status e visibilidade. Presentes, roupas de marca, idas a lugares específicos tornam-se dispositivos de desejo e critérios de valorização dentro da relação afectiva. Esse consumo não é apenas estético, mas comunicativo. Nesse processo, o afecto vincula-se ao consumo, como discutido por Hochschild (2012), que analisa a comercialização dos sentimentos. Jovens de ambos os géneros gerem afectos como moedas transacionáveis, mas com assimetrias, mulheres negociam carinho para garantir estabilidade material, enquanto homens são pressionados a cumprir expectativas de provisão e autoridade.

O amor, em muitos desses contextos, opera como moeda relacional, como mostra Bauman (2004). Mas é uma moeda instável, que sofre com a inflação emocional, quanto mais se oferece, menos parece valer. A distribuição de afecto é profundamente marcada por género, homens são socializados para reter, enquanto mulheres são incentivadas a doar. Isso cria um desequilíbrio afectivo, onde a gestão dos sentimentos serve para manter o outro interessado, como uma negociação emocional estratégica.

Esse desequilíbrio agrava-se com o que Collins (2008) e Crenshaw (1989) chamam de interseccionalidade, mulheres negras e pobres estão mais propensas a experimentar relações afectivas mediadas por carência económica, sendo emocionalmente cobradas por estabilidade e cuidado mesmo em contextos de vulnerabilidade. Essa economia relacional também é influenciada por mídias digitais (Livingstone, 2004), que amplificam padrões de consumo e criam novas formas de objectificação. Por exemplo, redes sociais podem reforçar a ideia de que demonstrações públicas de afecto como presentes caros ou viagens são medidas do valor de um relacionamento.               Finalizando essa reflexão, percebe-se que essas trocas desiguais envolvem não apenas objectos e dinheiro, mas principalmente corpos, emoções e expectativas. Como citado no início, o corpo é moeda, o afecto é investimento, e o consumo é a linguagem das conexões. Compreender essa lógica exige olhar para as relações não apenas como encontros íntimos, mas como arranjos simbólicos mediados por género, classe e desejo. Isto é, revela como género, classe e globalização entrelaçam-se, transformando corpos e afectos em commodities. Se, por um lado, essa lógica reforça desigualdades, por outro, abre espaços para resistências e novas formas de afecto menos vinculadas ao consumo.

Reconfiguração do masculino em Moçambique

A tradição patriarcal ainda exerce forte influência nos rituais de passagem, na organização familiar e na moralidade públicas. Morrell (2001) e Ratele (2013) analisam como os discursos tradicionais de masculinidade continuam presentes, especialmente nas zonas rurais e em comunidades mais conservadoras. Porém, nas zonas urbanas e periféricas, há um crescente questionamento dessas normas, o homem provedor, o macho sexualmente dominante e emocionalmente contido começa a ceder espaço a figuras mais híbridas que escutam, cuidam, choram e repensam seu lugar na afectividade (Loforte, 2000; Slegh et al., 2017).

É importante lembrar que as novas masculinidades não são homogéneas nem livres de contradições. Como destacam Crenshaw (1989) e Collins (2008), raça, classe e território interferem directamente nas possibilidades de reconfiguração do masculino. Um jovem de Maputo com acesso à universidade e redes sociais globais terá experiências muito diferentes de um jovem da periferia sem acesso à renda formal (emprego estável, salário regular) ou redes institucionais de empoderamento afectivo. Ainda assim, mesmo nesses contextos vulneráveis ou de precariedade onde a subsistência depende de estratégias informais (biscates, pequenos comércios, trocas comunitárias), há espaço para reinvenção (Silva, 2002; Loforte, 2000; Slegh et al., 2017). Como observa Scott (2024), o conceito de “masculinidade africana” não é estático, está em constante reinvenção, moldado por forças locais e globais, resistências culturais e inovações juvenis.

A partir dessa lógica, as transformações sociais em Moçambique têm permitido o surgimento de novas performances de masculinidade que contestam os modelos tradicionais de dominação (Bourdieu, 1998). Essas reconfigurações podem ser compreendidas através das perspectivas de Connell (2005), Oliveira (2004) e Ratele (2013), que analisam a masculinidade como construção social dinâmica e plural.

Oliveira (2004) argumenta que a masculinidade não é uma essência biológica, mas uma construção social constantemente negociada. No contexto moçambicano, esse processo de construção é particularmente visível nas zonas urbanas, onde jovens homens reelaboram suas identidades frente a três pressões contraditórias, i) a crise de modelo tradicional do provedor (Courtenay, 2000), exacerbada pelo desemprego e pela precarização laboral; ii) a influência dos movimentos feministas (Arnfred, 2011) que questionam as assimetrias de género; e iii) o apelo ao consumo como marcador de masculinidade (Lipovetsky, 2007).

A teoria de Connell (2005) sobre masculinidades múltiplas – masculinidade hegemónica, aquela que se impõe como norma superior, e de masculinidades subordinadas, que não seguem esse modelo dominante – encontra eco em Moçambique, onde observamos masculinidades negociadas, híbridas e resistências, jovens urbanos que incorporam cuidados domésticos e paternidade activa, ressignificando o papel masculino (Oliveira, 2004); combinações entre tradições locais e influências globais (Ratele, 2013); e reacções violentas à perda de privilégios masculinos (Kimmel, 2013).

No contexto em análise, essas camadas entrecruzam-se, jovens que praticam masculinidades sensíveis ou colaborativas ainda enfrentam estigmas, mas também inspiram novos repertórios relacionais. Como demonstra Oliveira (2004), a desconstrução das masculinidades hegemónicas é um processo social complexo, marcado por avanços, resistências e contradições. O que está em jogo não é apenas a redefinição do masculino, mas a possibilidade de relações afectivas mais igualitárias e menos opressivas.

No encalço dessa lógica performativa, seguindo Butler (2007) e Fairclough (2003), o género, inclusive o masculino, é entendido como performance construída discursivamente. A masculinidade não é uma essência, mas um fazer constante. Portanto, os jovens moçambicanos, ao adoptar posturas mais afectivas ou feminilizadas, não estão apenas sendo, mas fazendo novos modos de ser homem. Nessa perspectiva, as dinâmicas comunicativas e afectivas tornam-se centrais.

A cultura emocional masculina está sendo profundamente sacudida. hooks (2004) e Kaufman (1999) argumentam que os homens foram socializados para o distanciamento emocional e para o uso do poder como forma de validação. No entanto, quando jovens homens falam de amor, decepção, cuidado e abandono, eles rompem com esse molde e criam alternativas relacionais que podem fortalecer laços afectivos mais saudáveis – uma lenta, mas potente mudança de paradigma.

Para Oliveira (2004), essas transformações não ocorrem de forma linear, mas através de contradições e avanços não uniformes. Nesse processo, a emergência de masculinidades mais igualitárias passa necessariamente pela ressignificação da vulnerabilidade, historicamente construída como incompatível com a masculinidade hegemónica (hooks, 2004). Essa abertura à vulnerabilidade contribui para a problematização da objectificação feminina, entendida como um dos pilares simbólicos do poder masculino (Fredrickson & Roberts, 1997), e favorece a construção de novas economias afectivas (Bauman, 2004), menos centradas na troca material e mais assentes no reconhecimento, no cuidado e na reciprocidade.

Estamos diante de um processo em construção, as novas masculinidades não anulam as antigas, mas coexistem com elas, muitas vezes em conflito. Em vez de buscar um “modelo ideal” de homem, o desafio é abrir espaço para múltiplas formas de masculinidade, que sejam justas, empáticas e libertadoras, não apenas para os homens, mas para todas as pessoas envolvidas nas suas redes de afecto e convivência.

Metodologia

O estudo adoptou uma abordagem qualitativa interpretativa, fundamentada na teoria das práticas sociais de Bourdieu (1977) e análise crítica do discurso proposto por Fairclough (2003), com foco nas interacções quotidianas e nos ambientes digitais. Essa perspectiva permitiu compreender como os discursos sobre masculinidade são produzidos, reproduzidos e contestados nos contextos afectivos contemporâneos. A recolha de dados foi realizada entre Outubro e Dezembro de 2024, por meio de entrevistas com 33 jovens residentes na cidade de Maputo.

A amostra integrou indivíduos com idades compreendidas entre os 18 e 39 anos, dos quais 18 se identificaram com o género masculino e 15 com o género feminino. Esta faixa etária foi escolhida por corresponder a fases do ciclo de vida marcadas por intensos processos de construção afectiva e identitária, particularmente relevantes em contextos urbanos africanos em transformação (Adegoke, 2001). O limite superior de 39 anos justifica-se pelo reconhecimento de que, mesmo após a entrada da idade adulta formal, os indivíduos continuam a atravessar etapas de consolidação emocional, relacional e psicossocial.

No que se refere à distribuição geográfica, 15 participantes residiam em áreas urbanas centrais, 10 em zonas periféricas e 8 em áreas periurbanas. Das 33 entrevistas realizadas, 21 foram conduzidas presencialmente e 12 por via telefónica, tendo sido utilizado, em ambos os formatos, o mesmo guião de entrevista semiestruturada. Relativamente à situação relacional, os participantes encontravam-se em diferentes tipos de vínculo afectivo, incluindo casamento, união de facto e relações de namoro. Do ponto de vista profissional, a maioria exercia actividades renumeradas, com predominância do sector informal, reflectindo as dinâmicas económicas características dos contextos urbanos analisados.

A selecção dos participantes ocorreu por amostragem teórica, priorizando a diversidade de experiências relacionais, ocupacionais e educacionais. As entrevistas semiestruturadas, com duração entre 45 e 60 minutos, foram conduzidas em espaços previamente acordados com os participantes, respeitando critérios éticos de confidencialidade e segurança. Essa metodologia permitiu identificar padrões de coisificação masculina, suas variações geracionais, sociais e simbólicas, e compreender as estratégias adoptadas pelos sujeitos para negociar suas identidades em contextos marcados por desigualdades de género e pressão económica.

Quanto ao estado civil, 5 participantes eram casados, 9 encontravam-se em união de facto e 19 estavam numa relação de namoro. Do ponto de vista profissional, 10 dos homens e 8 mulheres estavam empregados, com predominância do sector informal (n=21). A distribuição etária da amostra revelou que 25 participantes se encontravam na faixa dos 18 aos 29 anos, enquanto os restantes 8 pertenciam à faixa dos 30 aos 39 anos. Esta assimetria reflecte as tendências demográficas prevalecentes nas zonas urbanas amostradas, onde se verifica uma maior concentração de jovens envolvidos em trajectórias académicas e em fases iniciais da inserção profissional (Banks, 2021). O enfoque na faixa dos 18 aos 29 anos deve-se à sua elevada sensibilidade às transformações afectivas e relacionais, tonando este período particularmente crítico para o estudo do desenvolvimento psicoafectivo (Florence et al., 2023). A inclusão da faixa subsequente, dos 30 aos 39 anos, permite uma análise comparativa significativa, evidenciando a continuidade e a evolução dos vínculos emocionais e identitários na transição para fases posteriores da juventude adulta (Florence et al., 2023).

A selecção dos informantes levou em conta a diversidade geográfica e os diferentes níveis de urbanização, com o intuito de captar uma variedade de experiências socioculturais. A investigação utilizou entrevistas semiestruturadas, baseadas em três eixos temáticos, i) percepções sobre papéis de género; ii)  expectativas materiais nas relações afectivas; e iii) impactos emocionais da coisificação. Todos os participantes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. Garantiu-se o anonimato e a confidencialidade dos dados, tendo sido atribuídos códigos alfanuméricos para a identificação dos participantes.

Nestes códigos, a letra “H” indica participantes do sexo masculino e a letra “M” participantes do sexo feminino, seguida da idade correspondente no momento da entrevista (ex.: H25 refere-se a um homem de 25 anos; M30 a uma mulher de 30 anos). Esta codificação permitiu preservar a identidade dos participantes sem comprometer a análise sociodemográfica. As entrevistas foram transcritas integralmente e analisadas por meio de codificação temática combinada com a análise da intencionalidade discursiva, com o objectivo de identificar padrões de significado e estruturas de sentido nos relatos dos participantes. Utilizou-se o software NVivo 12 (QSR International) para facilitar o processo de codificação, categorização e organização do material qualitativo.

A análise adoptou uma abordagem mista, integrando categorias emergentes (indutivas) com temas orientados pelo referencial teórico (dedutivos). A codificação temática foi guiada pelo modelo de Braun e Clarke (2006), enquanto a análise da intencionalidade discursiva concentrou-se na identificação de estratégias narrativas, posicionamentos e sentidos implícitos nos discursos. Este procedimento assegurou rigor interpretativo e coerência na articulação entre os dados empíricos e os quadros conceptuais do estudo.

Resultados

A coisificação masculina foi abordada directamente no guião de entrevista[1] como um dos temas a explorar com os participantes, visando compreender em que medida os homens se sentem avaliados ou valorizados com base em critérios económicos e funcionais. A maioria dos entrevistados associou a masculinidade à sua capacidade de prover financeiramente, revelando percepções que sustentam essa lógica de valorização instrumental.

Em conformidade com os resultados de Pedro et al. (2016), que identificaram percepções semelhantes entre homens no sul de Moçambique, a provisão económica é vivida como um imperativo relacional e uma fonte de ansiedade masculina. Complementarmente, Agadjanian (2002b) também salienta que, mesmo em contextos de urbanização acelerada, as masculinidades são avaliadas com base na sua capacidade de provisão, evidenciando tensões entre modelos tradicionais e realidades económicas frágeis. A convergência destas análises sublinha a persistência de um ideal de masculinidade provedora em diversas regiões de Moçambique, o qual, face a cenários de instabilidade económica, gera consideráveis desafios e ansiedade para os homens.

Entre os participantes que se identificaram com o género masculino, 13 relataram sentir-se avaliados pela sua capacidade de sustentar ou prover em contextos afectivos e sociais. A análise por faixa etária revelou diferenças relevantes. Entre os jovens de 18 a 20 anos, 7 participantes referiram sentir uma pressão moderada para cumprir esse papel económico. Esse número aumentou para 9 participantes na faixa dos 21 aos 29 anos, grupo no qual emergiram expectativas mais intensas relacionadas com estabilidade financeira e compromisso conjugal. Entre os homens com 30 anos ou mais, 4 participantes reconheceram experiências de coisificação, embora tenham referido maior autonomia e capacidade de negociação nas relações, especialmente no que se refere a partilha de responsabilidades financeiras.

Embora nem todos os participantes tenham utilizado explicitamente o termo coisificação masculina, a sua inclusão no guião permitiu explorar percepções e experiências que revelam como o valor social do homem é frequentemente reduzido à sua função de provedor. A categoria foi, portanto, mobilizada como conceito orientador, permitindo articular os dados empíricos com os debates teóricos sobre a instrumentalização da masculinidade em contextos afectivos e económicos (Connell, 1995; Morrell, 2001; Ratele, 2016).

O estado civil emergiu como um factor determinante na percepção da coisificação, particularmente quando articulado a experiência de coabitação. Entre os homens solteiros envolvidos em relacionamentos não formalizados sem coabitação, 13 participantes relataram sentir uma pressão financeira mais intensa, associada a expectativa de demonstração material de compromisso. Em contraste, entre os homens em união de facto, 11 participantes descreveram uma divisão mais equilibrada das despesas, sugerindo que a convivência quotidiana favorece maior empatia, negociação e compreensão mútua no que respeita as responsabilidades financeiras.

Esses achados indicam que não é o estatuto formal da relação (casamento versus namoro) que, por si só, atenua a coisificação, mas antes a experiência da coabitação, enquanto espaço de partilha material, emocional e simbólica. Diante disso, Quatorze (2023) sublinha que relações caracterizadas por maior proximidade quotidiana, partilha afectiva e transparência emocional tendem a enfraquecer padrões hegemónicos de masculinidade, ao favorecer processos de negociação das normas rígidas associadas ao papel masculino de provedor. A possibilidade de expressar emoções e assumir vulnerabilidades no contexto da vida a dois contribui para uma redistribuição das dinâmicas de poder, promovendo formas de masculinidade mais flexíveis e adaptativas.

O nível educacional mostrou-se um factor relevante na configuração das dinâmicas financeiras e na percepção da coisificação. Entre as mulheres participantes com ensino superior, oito (8) relataram maior autonomia financeira, o que contribuiu para reduzir a dependência económica em relação aos parceiros. Em contraste, entre os homens com menor nível de escolaridade, onze (11) participantes associaram a sua valorização sobretudo a capacidade de prover financeiramente, expressando um sentimento mais acentuado de coisificação.

Gasparetto (2020) aponta que, embora o acesso à educação superior contribua para ampliar a autonomia feminina, não é invariavelmente suficiente para desconstruir as lógicas patriarcais interiorizadas nas práticas relacionais quotidianas. Esta observação sublinha a complexidade da relação entre educação formal e a transformação das estruturas de género. Embora a qualificação académica contribua para ampliar o acesso a discursos críticos e a promover maior consciência sobre desigualdades de género, ela, por si só, não garante a erradicação de padrões comportamentais e cognitivas profundamente enraizados, que continuam a moldar as interacções sociais e a reproduzir assimetrias de género no âmbito das relações interpessoais.

A localização geográfica também emergiu como um factor relevante na configuração dos padrões de coisificação. Nos contextos urbanos centrais, a maioria dos participantes relatou sentir uma pressão acentuada para corresponder a padrões de consumo visível, associados à validação social e demonstração de sucesso económico:

Maputo! Por ser a capital, onde quase tudo acontece e as pessoas querem sempre ter a última coisa que está na moda e estão sempre atrás da próxima coisa que aparentemente é melhor. (H38, casado, zona central)

Em contraste, um número consideravelmente menor de participantes residentes em zonas periféricas e periurbanas referiu sentir esse tipo de pressão, sugerindo que a centralidade urbana intensifica a associação entre consumo visível e validação social. De forma semelhante, a expectativa de oferta de presentes dispendiosos emergiu com maior frequência entre participantes residentes em zonas urbanas centrais, enquanto foi mencionada de modo mais pontual por participantes de outros contextos sociogeográficos. Esta diferença pode ser ilustrada pelos seguintes relatos de dois participantes do género masculino residente em área urbana central:

Digo que 90% de namoro o dinheiro influencia no relacionamento de hoje em dia isso através de má influência das mulheres até outras acabam se entregando a homens idosos porque quer um iPhone até mesmo jovens acabam namorando com senhoras as tais “sugar mommy” cotas para aproveitar os bens delas (H25, solteiro, zona central).

De tanto que as sociedades vão se putrificando, as mulheres acham que os homens são fonte de renda e a chave para o sustento dos seus caprichos e vaidades (M30, casado, zona central).

Esses dados sugerem que o contexto urbano e o acesso a padrões de consumo globais potencializam as expectativas materiais nas relações afectivas. Em consonância com a análise desenvolvida por Slegh et al. (2017), os dados demonstram que a performance da masculinidade jovem em Maputo é profundamente modelada por imperativos sociais de ascensão económica, com especial recorrência entre homens submetidos a condições laborais precárias. A concordância entre os resultados desta pesquisa e os de Slegh et al. (2017) reforça a compreensão de que as construções de masculinidade, particularmente entre jovens da capital moçambicana, não são meramente identitárias, mas intrinsecamente ligadas a pressões socioeconómicas. O desempenho de papéis masculinos tradicionais, neste contexto, parece ser uma resposta adaptativa às exigências de um mercado de trabalho informal e instável, onde a demonstração de capacidade económica se configura como pilar fundamental de identidade masculina e da sua validação social.

Neste sentido, esse padrão reflecte a tese de Baudrillard (2008) sobre o consumo como elemento estruturante das relações sociais contemporâneas, onde a identidade masculina é mercantilizada e os indivíduos são reduzidos a signos de valor económico. A urbanização acelerada e a influência de culturas globalizadas intensificam a performatividade de género, como argumentado por Ratele (2013) e Sassen (2001). Os efeitos emocionais da coisificação masculina foram evidentes, com 10 homens relatando ansiedade relacionada às expectativas financeiras impostas por suas parceiras ou vivenciadas no contexto das relações afectivas.

Muitos acabam caindo em suicídio por falta de pujança emocional (H32, casada, zona central)

O homem vive em ambiente psicologicamente abalado, e fica refém de procurar bens materiais para satisfazer as suas necessidades sexuais! (H30, solteiro, zona periurbana).

Este sofrimento alinha-se com as observações de Quatorze (2023), para quem a interiorização da lógica do homem invulnerável compromete o reconhecimento das emoções como parte legítima da experiência masculina. Esta análise sublinha que a adesão a modelos de masculinidade que promovem a supressão emocional dificulta a expressão e o processamento saudável de sentimentos. Consequentemente, a negação da vulnerabilidade acarreta um custo psicológico significativo, contribuindo para o agravamento do sofrimento vivenciado pelos homens. Aliado a isso, 6 homens mencionaram conflitos conjugais recorrentes devido à administração dos gastos. Igualmente, a insegurança financeira emergiu como um factor de tensão nas relações, conforme exemplificado pelos relatos de dois participantes:

Perdi o emprego e percebi uma mudança significativa no tratamento da minha parceira (H27, solteiro, zona periurbana).

Já vi alguns por causa até inclusive eu, já perdi mulheres bonitas por causa de não ter independência financeira (H23, solteiro, zona periurbana).

Agy (2017) discute como, mesmo em zonas rurais, as tensões inerentes à masculinidade são incorporadas no discurso dos homens como falhas pessoais, agravando a carga emocional da masculinidade precarizada. Esta análise evidencia a internalização das pressões socioeconómicas e normativas, que se traduzem em sentimentos de inadequação individual. A vivência da masculinidade em contextos de precariedade, portanto, transcende a dimensão material, manifestando-se como um fardo psicológico que afecta a saúde mental e o bem-estar dos homens.

As influências familiares desempenharam um papel central na manutenção das dinâmicas de coisificação. Entre as participantes, dez mulheres relataram ter recebido conselhos para escolher parceiros que fossem “bons provedores”, essa dinâmica pode ser ilustrada pelos seguintes relatos:

Minha mãe sempre diz: observa como ele gasta com você (M24, solteira, zona periurbana)

Se o homem disser que não tem dinheiro, logo é julgado, até tem situações que as mães aconselham as filhas a não se relacionarem com homens pobres (M28 anos, casada, zona periférica).

Nesse sentido, Gasparetto (2020) reitera que práticas parentais orientadas para a selectividade económica dos parceiros evidenciam a persistência de estruturas patriarcais normativas que resistem à reconfiguração das relações de género. Esta análise sublinha como as expectativas e directrizes transmitidas no seio familiar, ao privilegiarem a capacidade económica dos potenciais parceiros, contribuem para a perpetuação de um modelo de género onde a provisão material é central. Portanto, esse fenómeno demonstra a dificuldade em desmantelar lógicas patriarcais profundamente enraizadas, mesmo em face de avanços sociais e legais rumo a equidade de género. Já 12 homens relataram pressão familiar para demonstrar sucesso financeiro como um requisito para manter a estabilidade conjugal:

Infelizmente, essas normas dão pressão para que o homem adopte certos papéis masculinos, como ser dominante ou ter sucesso financeiro, o que pode levar à objectificação ao reduzir os homens a atributos superficiais ou a um papel específico na relação (H25, solteiro, zona periurbana).

Esse factor reforça a internalização de normas de género tradicionais, nas quais a masculinidade é frequentemente associada à capacidade económica. O impacto das redes sociais também emergiu como um elemento relevante, uma vez que a maioria dos participantes do género masculino relacionou o uso dessas plataformas ao aumento das expectativas materiais no interior das relações afectivas.

Nas redes sociais, como Facebook, WhatsApp, Telegram, Instagram e outras faz com que os homens sejam tratados de forma estranha por experiência que as mulheres estão a ter nas redes sociais (H24, solteiro, zona periurbana).

Nessa mesma linha, Slegh et al. (2017) e Bjarnesen et al. (2023) postulam que as redes sociais operam como vitrines simbólicas de performatividade de género, onde as masculinidades são continuamente testadas, validadas ou rejeitadas com base em critérios materiais. Esta perspectiva salienta o papel crucial das plataformas digitais na construção e negociação das identidades masculinas contemporâneas. Nestes espaços virtuais, a demonstração de sucesso económico e a exibição de bens materiais tornam-se elementos fulcrais para a afirmação da masculinidade, condicionando a aceitação social e a hierarquização entre pares, como reconhece este entrevistado:

A mídia é algo que a maioria ou se não estou em erro em todas as vezes tem influenciado de uma forma negativa para nós jovens, ora vejamos, a mídia sempre traz as partes boas dos famosos, falo de vidas boas, roupas caras, restaurantes de luxo, carros de marcas, que na maioria das vezes são emprestados ou alugados, o que traz má influência para sociedade, nossas namoradas a maioria do tempo ficam vendo isso, começam a cobiçar de modo que já perguntam porque você não consegue fazer o mesmo, se aquele é jovem como tu faz, a partir daí você já é tratado como um incapaz (H27, solteiro, zona central).

Do mesmo modo, 13 dos homens relataram que a comparação com casais “ideais” expostos online gerava insatisfação e exigências indirectas de presentes e demonstrações materiais de afecto. Como exemplificado no depoimento de um dos entrevistados:

Quando minha namorada vê amigas postando fotos de presentes e jantares caros, já sei que serei cobrado de alguma forma (H29, casado, zona periurbana).

Essas plataformas reforçaram padrões de consumo inalcançáveis e intensificaram a pressão para que os homens a correspondessem a modelos irreais de provisão económica. Face a essas pressões, participantes de ambos os géneros relataram três estratégias predominantes utilizadas para atenuar seus efeitos nas relações afectivas. A primeira, e mais frequente, foi a promoção da autonomia financeira feminina, referida por 14 participantes, que a entenderam como um meio de reduzir a reprodução de dinâmicas centradas na figura masculina como único provedor exclusivo, favorecendo relações mais equilibradas.

Em segundo lugar, 10 dos participantes, homens e mulheres, destacaram o diálogo conjugal estruturado como uma estratégia eficaz, sublinhando a importância da comunicação aberta sobre expectativas financeiras para a redução de conflitos e para a construção de vínculos baseados na cooperação. Em último caso, 9 participantes referiram à redefinição das prioridades relacionais, estratégia que consistiu na renegociação dos valores centrais da relação, com casais optando por deslocar o foco do desempenho financeiro para dimensões emocionais, afectivas e de apoio mútuo, ressignificando o papel do dinheiro dentro da vida conjugal.

Deste modo, Pedro et al. (2016) já evidenciavam que a independência económica das mulheres favorece o estabelecimento de vínculos relacionais mais igualitários, aliviando a pressão emocional que recai sobre os homens como únicos provedores. Esta abordagem reforça a compreensão de que a autonomia financeira feminina não só redefine as dinâmicas de poder no seio das relações, mas também contribui para uma distribuição mais equitativa de responsabilidades e bem-estar emocional entre os parceiros.

Discussão

A coisificação masculina, entendida como a redução da identidade dos homens à sua capacidade de provisão financeira, manifesta-se como um fenómeno estreitamente articulado a factores socioculturais, económicos e geracionais. Resultados do estudo indicam que a masculinidade hegemónica em Moçambique continua a ser fortemente associada ao desempenho financeiro, sendo que 13 dos 18 participantes do género masculino estabeleceram uma relação directa entre o seu valor enquanto homens e a capacidade de sustentar economicamente as suas famílias.

Os dados empíricos apresentados sustentam as teses de Connell (2005) sobre masculinidade hegemónica, ao destacarem a centralidade da provisão económica na validação social da identidade masculina. No contexto moçambicano, Arnfred (2011) demonstra que esta associação está historicamente enraizada, articulando-se com formas de autoridade doméstica e legitimidade conjugal. Pedro et al. (2016) também evidenciam que a identidade masculina é frequentemente construída em funções da sua utilidade económica no seio familiar, reforçando o entendimento de que a masculinidade está alicerçada em padrões funcionais.

A análise geracional revela que os homens mais jovens, particularmente na faixa etária dos 21 aos 29 anos, apresentam maior vulnerabilidade à coisificação, uma vez que a maioria dos participantes desse grupo etário relatou pressões sociais intensas para estabelecer uma família e cumprir expectativas financeiras associadas ao ideal de masculinidade adulta. Agadjanian (2002a) descreve essas fases da vida como momentos críticos de tensão identitária, nos quais se acentuam as exigências de conformidade aos modelos normativos de masculinidade.

De forma complementar, Agy (2017) mostra que estas pressões são ainda mais intensas em contextos rurais moçambicanos, onde o estatuto masculino está intimamente ligado à sua capacidade de assumir o papel de provedor perante a comunidade. Também Simmel (1990), já apontava como as relações monetárias moldam interacções sociais e afectivas. Além disso, a noção de capital simbólico, desenvolvida por Bourdieu (1998), ajuda a compreender como a posse de bens materiais torna-se um marcador de status e reconhecimento social, reforçando as dinâmicas da coisificação masculina.

No que se refere à estrutura ocupacional, os dados indicam que a maioria dos participantes do género masculino inseridos no sector informal associou o seu valor à capacidade de prover financeiramente, evidenciando os efeitos da precarização do trabalho nas dinâmicas de género. Esses resultados reforçam as análises de Cornwall (2000) sobre a internalização de pressões socioeconómicas na validação da masculinidade.

Neste sentido, os impactos psicossociais da coisificação masculina mostraram-se expressivos. Dez participantes do género masculino relataram níveis elevados de ansiedade associados às expectativas financeiras, enquanto seis mencionaram a ocorrência frequente de conflitos conjugais relacionados a questões monetárias. Essas constatações dialogam com as discussões de Hochschild (2012) sobre o impacto emocional do trabalho invisível e das demandas de género nas relações contemporâneas, bem como os estudos de Courtenay (2000) sobre os efeitos das normas de masculinidade na saúde mental.

A análise evidenciou ainda a persistência de normas patriarcais reproduzidas de forma intergeracional, uma vez que dez participantes do género feminino referiram receber orientações familiares que privilegiam a escolha de parceiros financeiramente estáveis, revelando a continuidade de expectativas tradicionais associadas ao papel masculino de provedor. Gasparetto (2020) assinala que a transmissão de expectativas baseadas em provisão económica como critério de escolha conjugal permanece presente em famílias moçambicanas, mesmo em contextos de crescente escolarização feminina. Sob outra perspectiva, a educação formal surge como um factor modulador significativo nesse processo, especialmente no que diz respeito à autonomia financeira feminina. Os dados indicam que mulheres com níveis mais elevados de escolaridade tendem a demonstrar maior autonomia nas relações, enquanto os homens com menor escolaridade relataram de forma mais recorrente sentimentos de coisificação associados as expectativas de provisão económica.

As redes sociais também exercem uma influência determinante na intensificação da coisificação masculina. Nesse contexto, 15 dos 18 participantes do género masculino associaram o uso das plataformas digitais ao aumento das expectativas materiais nos relacionamentos, enquanto 13 deles relataram comparações constantes com casais idealizados exibidos online, evidenciando como as redes sociais intensificam a pressão sobre a provisão e o desempenho masculino.

Slegh et al. (2017) mostram que os jovens homens em Maputo experimentam pressões intensificadas pelas redes sociais, sendo frequentemente julgados por suas parceiras com base em representações idealizadas de sucesso masculino compartilhadas online. Além disso, Bjarnesen et al. (2023) alertam que essas plataformas funcionam como arenas de “mascaramento”, onde os homens sentem-se compelidos a encenar versões engrandecidas de si mesmos, mascarando vulnerabilidades e reforçando comportamentos performáticos que intensificam a carga emocional da virilidade.

Esse fenómeno pode ser compreendido a partir das análises de Giddens (1992) sobre transformação da intimidade nas sociedades modernas, marcadas pela reflexividade e pela crescente influência de sistemas sociais alargados nas relações interpessoais e das discussões de Lipovetsky (2007) sobre o hiperconsumo e a era do vazio afectivo. A exposição a padrões idealizados de relacionamento nas redes sociais reforça a exigência de uma performatividade económica masculina inatingível, justificando a necessidade de estratégias de literacia mediática e de um uso mais crítico das tecnologias, conforme apontado por Livingstone (2004).

Diante dessas evidências, torna-se imperativa a adopção de abordagens interdisciplinares para mitigar os efeitos da coisificação masculina. Intervenções educativas voltadas para a ressignificação da masculinidade, políticas de equidade de género e suporte psicológico para homens sob pressão socioeconómica são essenciais. Kaufman (1999) destaca a importância de modelos alternativos de masculinidade, que rompam com a imposição do provimento económico como único critério de valor social, alinhando-se às propostas de Kimmel (2013) sobre masculinidades plurais.

De igual modo, para Bjarnesen et al. (2023), é essencial desnaturalizar as “máscaras” da masculinidade que os homens africanos são socialmente induzidos a vestir, e que, embora sirvam como mecanismos de inclusão simbólica, acabam por restringir o campo de expressão emocional e relacional. Quatorze (2023) enfatiza que qualquer abordagem que vise promover masculinidades positivas precisa reconhecer, antes de tudo, as tensões internas que os homens vivenciam ao tentar conciliar os ideias tradicionais de força com desejos contemporâneos de afectividade e equilíbrio.

Considerações finais

O presente estudo empírico propôs uma reflexão inicial sobre a coisificação masculina no contexto das relações afectivo-sexuais juvenis em Moçambique, um fenómeno ainda pouco explorado na literatura especializada, principalmente no campo dos estudos africanos de género. Ao adoptar a expressão “posso-te pedir algo?” como categoria analítica, buscou-se problematizar as dinâmicas interpessoais que revelam subtis formas de objectificação de jovens do sexo masculino, apontando para processos de negociação de poder nas interacções afectivas quotidianas.

Os resultados apontam para a importância de se compreender as masculinidades africanas a partir de uma perspectiva situada, que vá além das abordagens ocidentalizadas e considere, simultaneamente os referenciais culturais locais e as influências transnacionais. Em consonância com Oliveira (2004), argumenta-se que a construção social da masculinidade em contextos africanos exige atenção às especificidades históricas, sociais e culturais que moldam práticas, expectativas e configurações de género.

Não obstante os contributos apresentados, o estudo apresenta algumas limitações que devem ser reconhecidas. A investigação concentrou-se exclusivamente na cidade de Maputo, o que restringe a compreensão do fenómeno a contextos urbanos específicos e limita a extrapolação dos resultados para outras realidades sociogeográficas do país. Estudos futuros poderão beneficiar da inclusão de participantes de zonas rurais e de outras regiões, permitindo captar variações culturais, económicas e estruturais mais amplas.

Adicionalmente, embora a análise tenha considerado dimensões de género e classe social, a ausência de uma abordagem interseccional mais profunda nomeadamente no que se refere a marcadores como etnia e orientação sexual constitui outra limitação relevante. A incorporação desses eixos analíticos poderia enriquecer a compreensão das múltiplas formas de coisificação e vulnerabilidade masculina, em linha com os contributos de Crenshaw (1989) sobre as matrizes de dominação.

Ainda assim, tais limitações não invalidam os resultados obtidos; antes, apontam direcções fecundas para investigações futuras. A articulação com debates consolidados sobre masculinidades no continente africano (Morrell, 2001; Ratele, 2013; Scott, 2024), bem como as reflexões sobre as transformações das dinâmicas afectivas no contexto global (Lipovetsky, 2007), poderá contribuir para o aprofundamento teórico e para o amadurecimento analítico da temática. Em síntese, este estudo procura ampliar o escopo dos estudos de género em Moçambique, ao afirmar a coisificação masculina como um objecto legítimo de investigação. Espera-se que os aportes aqui apresentados possam estimular o debate académico e intervenções sociais comprometidas com a promoção da equidade de género e do bem-estar nas relações afectivas juvenis.

Uso de inteligência artificial

O autor declara que não foi utilizada qualquer ferramenta de inteligência artificial, incluindo IA generativa, na escrita, análise de dados ou preparação deste manuscrito.

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Data de submissão: 21/04/2025 | Data de aceitação: 22/03/2026

Notas

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

[1] As perguntas (ex.: “na tua opinião, o que se espera hoje de um homem numa relação afectiva?”; “já sentiste que és mais valorizado pelo que tens do que pelo que és?”; “sentes pressão para sustentar ou pagar coisas nas relações? como te faz sentir isso?”; “achas que, por vezes, os homens são tratados como ‘instrumentos’ de apoio económico?”) funcionaram como disparadores reflexivos, permitindo que os participantes descrevessem experiências de pressão, reconhecimento ou exigência financeira, sem necessariamente utilizarem o termo coisificação. A presença desse conceito no guião teve, assim, um papel analítico e orientador, servindo como eixo temático para mapear os sentidos atribuídos à masculinidade em contextos contemporâneos.

Autores: Raul Mabasso