2025, n.º 40, e2025408

Patrícia Pereira
FUNÇÕES: Redação do rascunho original
AFILIAÇÃO: Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), Divisão de Estudos de Acesso a
Dados para Investigação (DEGADI). Avenida 24 de Julho, 134, 1200-774, Lisboa, Portugal
E-mail: patricia.pereira@dgeec.medu.pt | ORCID: https://orcid.org/0009-0006-1985-8658

Caracterização: percurso de formação e profissional

Sou licenciada em Sociologia (Pré-Bolonha) pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), 2001-2006. A Sociologia foi uma escolha, quando me candidatei ao ensino superior a Sociologia foi a minha primeira opção. Sempre fui curiosa pelo que me rodeia e ávida por respostas, por isso e principalmente nos últimos anos da licenciatura quando a parte prática se tornou uma complementaridade forte, não tive dúvidas que estava no curso certo.

Quando terminei a licenciatura fiz o curso de Orientação Pedagógica, Acompanhamento e Avaliação na Função do Tutor da Formação pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). No âmbito deste curso, fiz um estágio como tutor de formação num centro de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) onde aliei as ferramentas que a Sociologia me deu e os objetivos do curso em questão e realizei o primeiro estudo de impacto aos primeiros formandos certificados do centro onde estagiei[1]. No entanto, a minha primeiro grande experiência profissional aconteceu de seguida no Instituto Nacional de Estatística (INE) entre 2007-2016, no departamento de Estatísticas Demográficas e Sociais, nomeadamente nas Estatísticas das Condições de Vida. Trabalhei em várias e diferentes operações estatísticas, nomeadamente, o Sistema Europeu de Estatísticas Integradas de Proteção Social em Portugal (SEEPROS), o Inquérito ao Rendimento e às Condições de Vida das Famílias (ICOR) e as estatísticas das Causas de Morte em Portugal. Em todos estes projetos estive envolvida nas suas várias etapas: preparação da recolha de dados, tratamento e validação da informação, análise e divulgação dos resultados. E, no sentido de complementar a minha formação com conhecimentos em estatística que me permitissem otimizar o meu trabalho realizei o Mestrado em Prospeção e Análise de Dados no ISCTE Business School/INDEG, entre 2007 e 2009.

 No final de 2016, iniciei funções na Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), onde continuo a trabalhar atualmente. Estou integrada na Divisão de Estudos e de Gestão do Acesso a Dados para Investigação (DEGADI) e as minhas principais funções são a elaboração de estudos de impacto e produção de indicadores estatísticos de apoio à tomada de decisão, principalmente ao nível do ensino básico e secundário em Portugal.

A identidade de socióloga

Apesar da minha designação de carreira oficial ser Técnica Superior na área da estatística, a minha formação é Sociologia, e afirmo-me como socióloga. Tanto na DGEEC, como na instituição que trabalhei anteriormente, o INE, concorri a um lugar de socióloga e, em ambas as instituições os sociólogos têm um papel muito relevante e necessário. Atualmente só na minha equipa de 9 técnicos, 3 são sociólogos. No meu caso em particular, diria mais que sou socióloga a “trabalhar/atuar” no “contexto” educativo, porque os estudos de impacto que faço têm como finalidade última apoio à tomada de decisão e construção de medidas políticas efetivas na área da educação.

Relação e diálogo com profissionais com outras formações em contextos educativos

A relação é boa, é necessária e complementar. Acho que é vista por todos como uma mais-valia, esta complementaridade de saberes entre diversas áreas. No meu caso profissional em particular, trabalho diariamente com muitos sociólogos, mas também profissionais de outras áreas de formação nomeadamente, antropólogos, psicólogos, professores, matemáticos, economistas e todos têm o seu papel, todos trazem o seu olhar, o seu contributo as suas perspetivas diferentes, mas complementares. Uns tem mais o foco no levantamento das necessidades, outros na construção dos indicadores que podem dar resposta a essas necessidades, outros estão mais direcionados para a validação dos dados e outros ainda dão o enquadramento necessário aos resultados.

Contributos da formação em Sociologia para o exercício da atividade profissional

Os contributos da formação em Sociologia para a minha atividade profissional diária, diria que são “TODOS”; a Sociologia e a estatística “casam” muito bem, complementam-se. Eu trabalho em análise de dados, construo indicadores estatísticos na área da educação, mas os números também falam, “contam uma história” e é essa a mais-valia de um sociólogo ou de quem estudou Sociologia, que é a de procurar a história por trás do número, procurar o enquadramento, trazer a reflexividade, a capacidade de análise crítica. Acho que é esse o principal contributo. E com problemas cada vez mais complexos numa sociedade cada vez mais em acelerada mudança, o papel do sociólogo é fundamental.

Relativamente às lacunas que senti e que tentei colmatar, estão muito ligadas ao âmbito do meu trabalho, que passa muito por analisar grandes números, bases de dados de grandes dimensões, e de forma a otimizar o meu trabalho senti necessidade de alargar e aprofundar a minha formação em análise de dados e foi aí que me desafiei a fazer um mestrado pós-laboral em Prospeção e Análise de Dados no Iscte, que considero ter sido muito importante para o desenvolvimento da minha carreira.

Relação com conhecimento científico e debates académicos nas áreas de atuação

Estou a par e participo sempre que posso e que faça sentido. Na DGEEC, pertenço a uma equipa de estudos onde a importância dos dados está muito presente, quer em termos de disponibilização dos mesmos para efeitos de investigação quer como ferramenta diária de trabalho. Muito do meu trabalho são pedidos de estudos/indicadores por parte da tutela, mas também de investigadores, académicos, comunidades intermunicipais e outros agentes educativos. A academia e a respetiva produção científica estão sempre presentes, para um primeiro enquadramento, diria mesmo que funciona em primeira instância como o primeiro trabalho de campo, para se saber o que já foi escrito sobre determinado assunto, as conclusões, as metodologias usadas. E também não é assim tão invulgar, quando estamos a iniciar um estudo novo, convocar especialistas académicos de várias áreas, inclusive sociólogos na área da educação e discutir-se o que foi feito e analisar propostas de melhoria para o futuro.

Do que sinto falta e, acho que nunca é demais é de divulgação deste tipo de debates e produção científica.

Reflexões sobre o futuro dos sociólogos em contextos educativos

Acho que tudo tem de começar na escola no início da formação. Uma das minhas principais inquietações enquanto estudante era a aplicabilidade prática, profissional da Sociologia, o pós-curso, onde me enquadraria, o que poderia fazer… Tenho conhecimento que no presente, tem havido um esforço nesse sentido de uma maior proximidade entre a academia e o mundo profissional e mesmo dar a conhecer mais de perto o que é isto da Sociologia nas comunidades mais jovens ainda no ensino secundário. Acho que é fundamental perceber que a Sociologia pode e é uma primeira escolha, para mim foi uma primeira escolha, foi a minha primeira opção, mas para isso, tem de se dar a conhecer a Sociologia, os sociólogos, sem medos, sem complexos, conscientes que somos e continuamos a ser/ter um papel imprescindível na sociedade. Mas quando ainda discutimos o papel do sociológico na sociedade e o que “é isso de ser sociólogo” constata-se que ainda há muito por fazer, muito caminho a percorrer.

O futuro dos sociólogos em contextos educativos ou em qualquer contexto, na minha perspetiva começa por nós, sociólogos, a afirmarmo-nos como tal. Só ao nos afirmarmos como sociólogos conseguimos perceber a força que temos, pois na nossa multiplicidade de papéis encontramos sociólogos nas mais variadas funções e instituições fundamentais para a sociedade.

Data de submissão: 28/03/2024 | Data de aceitação: 21/09/2024

Nota
Por decisão pessoal, a autora do texto escreve segundo o novo acordo ortográfico.

[1] Os resultados deste estudo foram publicados em Matias e Pereira (2007).

Autores: Patrícia Pereira