2025, n.º 37, e20253715
Lucas Brasil
FUNÇÕES: Conceptualização, Redação do rascunho original, Redação – revisão e edição
AFILIAÇÃO: Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC). Av. Dr. Dias da Silva 165, Celas,
3004-512, Coimbra, Portugal
E-mail: lucasbrasilp@fe.uc.pt | ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3330-5164
Teresa Mora
FUNÇÕES: Conceptualização, Redação do rascunho original, Redação – revisão e edição
AFILIAÇÃO: Departamento de Sociologia, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho. Campus de
Gualtar, Rua da Universidade, 4710-057 Braga, Portugal
E-mail: tmora@ics.uminho.pt | ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8429-1508
Otávio Raposo
FUNÇÕES: Conceptualização, Redação do rascunho original, Redação – revisão e edição
AFILIAÇÃO: Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, Centro de Investigação e Estudos de Sociologia
(Iscte-CIES). Av. das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, Portugal
E-mail: otavio_raposo@iscte-iul.pt | ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8000-6901
O espaço socialmente vivido, interpretado, representado e apropriado constitui um dos eixos centrais da análise sociológica. Não se trata apenas de um suporte físico para a vida social, mas de uma dimensão constitutiva das relações sociais e dos modos de existência (Fortuna, 2020). As formas de organização territorial, em suas múltiplas escalas, simultaneamente expressam e condicionam os processos de reprodução material e simbólica das sociedades humanas. Espaço e sociedade não podem ser pensados separadamente: as estruturas sociais são também estruturas espaciais, atravessadas por dinâmicas económicas, políticas, culturais e históricas que lhes conferem densidade e singularidade (Santos, 2023). É no território que se inscrevem identidades individuais e coletivas, que se expressam conflitos e lutas sociais, e que se materializa o quotidiano em sua pluralidade de práticas (Grafmeyer, 1994). O tempo social e as interações interpessoais que o caracterizam inscrevem-se sempre nalgum sítio: um lugar cujas circunscrições participam – tal como agentes não-humanos, uns diriam – na definição dos próprios fenómenos sociais.
O processo de urbanização global tornou mais evidente esta inseparabilidade. Desde meados do século XX, assistimos à expansão de uma condição urbana que, ao ultrapassar as fronteiras tradicionais da cidade, reconfigura o campo e outros espaços para além da oposição entre centro e periferia. Não significa que o campo estivesse apartado de fenómenos sociologicamente interessantes, mas sim que agora é perpassado por territorialidades cuja lógica lhe é externa. Tal como apontam Neil Brenner e Christian Schmid com o conceito de “urbanização planetária” (Brenner & Schmid, 2014; Brenner 2017), os processos urbanos estendem-se para além das áreas metropolitanas densas, alcançando zonas rurais, marítimas e até ecossistemas naturais, integrando-os em redes globais de produção, circulação e consumo. Nesse sentido, a urbanização não é apenas um fenómeno demográfico, mas sobretudo uma lógica de organização espacial e social que estrutura mobilidades, economias e formas de vida em escala mundial.
A compressão espaço-tempo intensificou-se nas últimas décadas com a aceleração das mobilidades, dos fluxos económicos e dos intercâmbios simbólicos (Mongin, 2009). Ao mesmo tempo, a desterritorialização de populações migrantes e refugiadas, a precarização da mão de obra, a turistificação e a gentrificação de bairros populares e a crescente financeirização do solo urbano impactaram profundamente o ambiente urbano, promovendo transformações aceleradas no território e nos modos de vida citadinos. As cidades tornaram-se lugares privilegiados de acumulação, mas também espaços de desigualdade, segregação e fragmentação – sem se esgotarem, contudo, nessas dimensões (Gottdiener et al., 2015). Tornaram-se espaços nos quais a resistência às pressões especulativas ebule com vigor, manifestando-se em movimentos sociais que lutam por habitação, dignidade e reconhecimento social: são territórios de e em disputa, de facto e simbólica, mas que não se estabilizam como espaços domesticados como ambicionado pelos planeadores modernos.
Nos campos, por sua vez, observamos processos de despovoamento e envelhecimento, frequentemente acompanhados de reconversões turísticas ou de integração em cadeias globais de produção agroalimentar. Tornaram-se, em boa medida, expansões conectadas ao modo de vida urbano: a urbanização passou a ser planetária (Brenner & Schmid, 2014), num sentido dilatado que implica rever no rural não só as próprias condições necessárias para a mera sustentação das cidades contemporâneas, como também a sua ocupação e transformação por infraestruturas e sistemas disparados e ativados a partir das zonas urbanizadas.
O caso português é paradigmático para compreender a articulação entre ruralidade e urbanidade. Nas últimas cinco décadas, Portugal passou de um país marcadamente rural para um território em que a urbanização se tornou hegemónica. O esvaziamento do interior, associado a processos de emigração e a mudanças estruturais no mundo agrícola, contrasta com o crescimento acelerado das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Essa dinâmica não eliminou a ruralidade, mas transformou-a: o campo tornou-se também urbano, não apenas pela difusão de estilos de vida e de consumo, mas pela integração em lógicas económicas e sociais globais. Assim, longe de corresponder a uma dicotomia rígida, campo e cidade devem ser pensados como polos em interação contínua, que se redefinem mutuamente por meio de fluxos de mobilidade, de recomposição social e de circulação cultural (Brenner, 2019).
Nessa perspetiva, a sociologia dos territórios não pode limitar-se à análise de estruturas económicas e sociais, mas deve igualmente interrogar recomposições de classe, dinâmicas geracionais e interseccionais, práticas de sociabilidade, modelos familiares, hábitos e estilos de vida, assim como universos simbólicos e culturais que conferem sentido às experiências. Ao fazê-lo, a disciplina contribui para uma leitura mais abrangente das continuidades e ruturas que marcam a vida social em cidades e campos contemporâneos.
Uma dimensão frequentemente negligenciada nas abordagens sociológicas é a maritimidade. Historicamente, o mar foi relegado a uma condição residual em comparação com a cidade e o campo. No entanto, os oceanos sempre foram fundamentais para a constituição de sociedades humanas, tanto como espaço de exploração de recursos quanto como matriz simbólica de identidades coletivas e de imaginações culturais. Na contemporaneidade, a relevância do mar intensifica-se por múltiplas razões: geopolíticas, económicas, ambientais e culturais. O chamado Capitaloceno (Moore, 2016) — conceito que enfatiza o papel do sistema capitalista nas transformações ecológicas globais — obriga a reconhecer os oceanos não como espaços “naturais” ou prolongamentos terrestres, mas como territórios sociais em si mesmos, onde se entrecruzam modos de vida, formas de trabalho, tecnologias, práticas culturais e regimes de conservação ambiental.
As comunidades costeiras, as organizações ligadas à pesca e à aquicultura, a exploração de recursos energéticos marinhos, os movimentos de conservação ambiental e os imaginários culturais em torno do mar revelam que o oceano é, simultaneamente, espaço material e simbólico. O alargamento da ontologia sociológica que se debruça sobre a noção de “território” para incluir a maritimidade implica reconhecer a interação entre seres humanos, espécies não humanas e ecossistemas, abrindo novas possibilidades para repensar as fronteiras da vida social. A sociologia marítima, já reconhecida em estruturas internacionais como a European Sociological Association, inscreve-se nesse movimento mais amplo de renovação conceptual, em que o mar passa a ser concebido como território relacional, histórico e político.
Assim, a proposta de uma reflexão integrada sobre territórios, cidades, campos e mares emerge como necessária para compreender a complexidade do mundo contemporâneo. A reunião destas dimensões em torno de uma secção temática (Territórios: Cidades, Campos e Mares), dentro da Associação Portuguesa de Sociologia, procura criar um espaço de dinamização académica e de debate crítico, capaz de articular saberes, práticas e metodologias. Trata-se de pensar os territórios como campos de análise onde se inscrevem desigualdades e conflitos, mas também possibilidades de criação, de resistência e de imaginação social. Ao incluir a cidade, o campo e o mar sob uma mesma lente, reforça-se a ideia de que a sociologia deve ser capaz de acompanhar a multiplicidade das experiências humanas e das suas interações com o espaço, reconhecendo a historicidade, a materialidade e a diversidade que constituem os territórios contemporâneos.
Neste dossiê temático, promovido pela equipa coordenadora da Secção Temática, os autores debruçaram-se sobre uma miríade de temáticas tangenciadas nesta introdução. Violeta Becerril, reconhecendo a performance pós-fotográfica como uma prática comum nas cidades, identifica diversas lógicas de produção de clichés visuais, em contexto socio-digital, na configuração de imaginários de turistificação do espaço urbano. A autora foca a análise numa série de imagens instagram da cidade do Porto. Mónica Guerra Rocha, por sua vez, propõe-se tirar da margem dos estudos urbanos a relação sujeitos-território-comida, mostrando-nos a possibilidade de ler a cidade e refletir sobre as suas práticas pelas lentes da comida. Para tal, na sua perspetiva teórica, articula o conceito de paisagem alimentar urbana enquanto espaço sitópico (Carolyn Steel) e o contributo de Henri Lefebvre na sua concetualização tridimensional da produção do espaço (concebido, vivido e representacional). Sandra Pinheiro, Leonor Medon, Rita Madeira, Sandra Couto e João Teixeira Lopes fazem uma abordagem de dois territórios mineiros, dos concelhos de Castelo de Paiva e Arouca, com o propósito de explorar, nas identidades locais, a relativa importância das memórias das minas, nos dias de hoje, e a sua relação com expectativas de futuro. Com destaque para a auscultação de gerações mais novas, são usadas metodologias das ciências sociais e realizadas ações educativas e oficinas de teatro, que permitem captar a distinta apropriação das memórias das minas, nos dois territórios. Por fim, no texto de Ricardo de Campos é possível encontrar uma leitura ampla de novas formas de organização social e económica estruturantes no território “norte alentejano”, identificadas pelo autor a partir da observação de relações sociais e atribuições de sentidos simbólicos, quotidianos de uma vila alentejana e processos económicos situados nessa zona rural. Em uma análise interpretativa, o autor discute como o desenvolvimento da indústria da carne tem impactado as formas de sociabilidade circunscritas naquele território.
Convidamos as leitoras e leitores a percorrer este dossiê com atenção e curiosidade, explorando as reflexões e análises sobre as territorialidades, os processos urbanos e as dinâmicas sociais que atravessam nosso tempo. Que cada texto inspire novas perguntas, debates e caminhos de investigação, enriquecendo a compreensão da complexidade social contemporânea. Boa leitura!
Referências
Brenner, N. (2017). Critique of Urbanization: Selected Essays. Birkhäuser.
Brenner, N. (2019). New Urban Spaces: urban theory and the scale question. Oxford University Press.
Brenner, N. & Schmid, C. (2014). Planetary Urbanization. In N. Brenner (Ed.) Implosions/Explosions: towards a study of planetary urbanization (pp. 160-163). Jovis.
Fortuna, C. (2020). Cidades e Urbanidades. Imprensa de Ciências Sociais.
Gottdiener, M., Hutchison, R., & Ryan, M.T. (2015). The New Urban Sociology. Westview Press.
Grafmeyer, Y. (1994). Sociologia Urbana. Editions Nathan.
Mongin, O. (2009). A condição urbana: a cidade na era da globalização. Estação Liberdade.
Moore, J. (2016). Athropocene or Capitalocene? Nature, History and the Crisis of Capitalism. PM Press.
Santos, M. (2023). A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. (4th ed.). Edusp.
Nota
Por decisão pessoal, os/as autores/as do texto não escrevem segundo o novo acordo ortográfico.
Autores: Lucas Brasil, Teresa Mora e Otávio Raposo