2025, n.º 37, e20253710
Isabela Vicente Monti
FUNÇÕES: Conceituação, Metodologia, Investigação, Análise formal, Redação do rascunho original,
Redação – revisão e edição
AFILIAÇÃO: Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de
Sociologia. Rua Cora Coralina, 100 – Cidade Universitária Zeferino Vaz, Barão Geraldo,
Campinas, São Paulo, 13083-896, Brasil
E-mail: isabelamonti96@gmail.com | ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8904-3960
Resumo: O artigo procura refletir se e como ideias neoconservadoras encontram fundamento e são justificadas através de uma base religiosa. Para isso, realizou uma pesquisa documental centrada na interpretação de 40 episódios do podcast Escola do Amor Responde, comandado pelo atual líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Renato Cardoso e por sua esposa, Cristiane. Como resultado, observamos que as lideranças iurdianas defendem a família patriarcal como solução para os problemas sociais e coletivos assim como fazem os neoconservadores. Na IURD, movimentos feministas são construídos como perversos, pois transformam a mulher em objeto sexual a ser explorado. O sexo saudável se dá apenas pelo casamento e a homossexualidade é um desvio sexual proveniente, muitas vezes, do abuso de crianças. A modernidade dos costumes é rechaçada, assim como a educação sexual nas escolas.
Palavras-chave: neoconservadorismo, família, Igreja Universal do Reino de Deus, Escola do Amor Responde.
Abstract: The article aims to reflect on whether and how neoconservative ideas acquire substance and are justified through religious foundations. To this end, we conducted documentary research focused on the interpretation of 40 episodes of the Escola do Amor Responde podcast, hosted by the current leader of the Universal Church of the Kingdom of God (IURD), Renato Cardoso, and his wife, Cristiane. As a result, we observed that IURD leaders defend the patriarchal family as a solution to social and collective problems, just as neoconservatives do. In the IURD, feminist movements are constructed as perverse, as they transform women into sexual objects to be exploited. Healthy sex only occurs within marriage, and homosexuality is a sexual deviation that often stems from child abuse. Modern customs are rejected, as is sex education in schools.
Keywords: neoconservatism, family, Universal Church of the Kingdom of God, Escola do Amor Responde.
Introdução
A mobilização de um discurso público e político centrado na defesa da família patriarcal e da moral sexual cristã, heterossexual e monogâmica adquiriu forte expressão conjuntural na sociedade brasileira a partir do ano de 2015, período caracterizado pelo recrudescimento de um movimento político neoconservador no país que, por sua vez, viria a se consolidar em 2018, com a eleição de Jair Messias Bolsonaro para o cargo de chefe do executivo nacional. Longe de ser uma particularidade do cenário brasileiro, o fortalecimento público e político de coalizões neoconservadoras pode ser observado em distintos países da América Latina, Europa e Estados Unidos da América.
Diversas são as pesquisas que evidenciaram que o neoconservadorismo está presente tanto na linguagem política de lideranças populistas de direita e extrema-direita quanto na erosão das democracias liberais, mediante o ativismo político reativo de seus atores que, em oposição aos movimentos feministas e LGBTQIAP+[1], atuam pela contenção e restrição da ampliação dos direitos sexuais e reprodutivos das minorias sexuais e pela dissolução do pluralismo ético em prol da defesa de concepções morais unitárias e excludentes (Biroli, 2017).
Partindo desta problemática, este artigo objetiva refletir se e de que maneira ideias neoconservadoras adquirem fundamento e são justificadas por meio da base religiosa. Sabemos que muitas pesquisas já identificaram a direita cristã como um dos principais elementos de movimentos neoconservadores e, por isso, interrogamos nesse trabalho se, no Brasil hodierno, lideranças religiosas da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) podem, mediante a sua respectiva concepção de família, estar mobilizando valores, princípios, juízos e concepções de mundo neoconservadoras. Para responder a essa inquietação, foi realizada uma pesquisa documental de cárater qualitativo, centrada na análise do podcast Escola do Amor Responde (R. Cardoso & C. Cardoso, 2013-presente), comandado pelo atual líder terreno da IURD, bispo Renato Cardoso em conjunto com sua esposa, Cristiane Cardoso, que também é a filha primogênita de Edir Macedo, líder espiritual e bispo fundador da Igreja Universal.
Nas páginas que se seguirão, realizaremos um esforço para caracterizar o fenômeno do neoconservadorismo, destacando o que é e quem são os seus principais atores. Na sequência, abordaremos a centralidade da Igreja Universal do Reino de Deus no campo religioso brasileiro, argumentando que a escolha por investigar o podcast Escola do Amor Responde (R. Cardoso & C. Cardoso, 2013-presente) se dá a partir da identificação de que a Universal é uma potência de formação cultural, política e econômica. Após descrever o procedimento de coleta e interpretação dos 40 episódios por nós selecionados para análise, partiremos para os resultados da pesquisa.
Breve reflexão sobre o fenômeno do neoconservadorismo
Em sua sociologia do conhecimento, Karl Manhheim (1976, p. 291) estabelece que “conhece-se o mundo através de muitas orientações diferentes, porque existem muitas tendências de pensamento simultânea e mutuamente contraditórias lutando entre si”. Se seguirmos com Mannheim, podemos considerar que a palavra “conservador” implica em uma estrutura compreensiva do mundo, proveniente do modo particular como determinado grupo social experimenta a realidade empírica a partir de seus campos de experiências e horizontes de expectativas que encontram-se em constante oposição às experiências, palavras, ideias e valores de outros grupos sociais.
A possibilidade objetiva do aparecimento do pensamento conservador moderno efetivou-se através de uma situação histórica e sociológica particular, a saber: a revolução francesa de 1789 e a consolidação da sociedade de classes, com a consequente desagregação dos antigos modos de vida tradicionais e do feudalismo. Enquanto uma “estrutura mental objetiva” (Mannheim, 1959, p. 103), o conservadorismo moderno expressa um modo de vida e de pensamento que tem como característica fundamental a valorização do presente e da concretude do real. Opondo-se conscientemente ao reformismo progressista, o pensamento conservador nega o racionalismo clássico, enfatizando, através de sua natureza qualitativa, a importância da concretude em contraposição ao abstrato e estabelecendo uma aceitação plena da realidade social em oposição ao desejo progressista de mudança. Substituindo, ainda, a razão por conceitos como história, vida e nação.
João Pereira Coutinho (2014), em seu livro intitulado As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários, delimita não apenas as diferenças entre aquilo que seria uma disposição conservadora e o conservadorismo político, apontando para as diferenças existentes entre a atuação política do agente conservador e do reacionário. De acordo com o cientista político português, o conservadorismo político pode ser considerado como uma ideologia de emergência porque, primeiro, emerge perante uma ameaça de cárater radical e, segundo, o faz quando essa ameaça pode colocar em risco os fundamentos institucionais da sociedade. O conservadorismo poderia, portanto, ser definido como dotado de uma natureza vigilante, uma “ideologia posicional e reativa” (Coutinho, 2014, p. 31).
No curso das últimas décadas, entretanto, muito se tem debatido sobre a existência do neoconservadorismo, uma “racionalidade política emergente que produz uma cultura política específica e um sujeito político específico” (Brown, 2006, p. 696). O que torna o conservadorismo “neo”, segundo a filósofa política Wendy Brown (2006, p. 697), é “a afirmação aberta do poder estatal moralizado na esfera doméstica e internacional”. Ao relacionar o poder político e a moralidade, o neoconservadorismo rompe com o conservadorismo clássico que postulava o isolacionismo, a frugalidade e a afinidade com virtudes aristocráticas de refinamento e disciplina.
Liberais desiludidos, assim Irving Kristol (2011) definiu o grupo inicial de intelectuais do City College of New York que, como ele, viriam a formar o movimento intelectual neoconservador. Aglutinando nomes como Daniel Bell, Seymour Lipset e Nathan Glazer, o movimento neoconservador caracterizava-se inicialmente pela defesa do tradicionalismo moral, pela postura anticomunista e pelo libertarismo econômico. A forte negação da “explosão de bem-estar” (Kristol, 2011) proporcionada pelas políticas sociais e redistributivas do então presidente norte-americano Lyndon B. Johnson e pela primeira administração de Nixon foi o que empurrou esse conjunto de intelectuais, que integravam o mainstream Democrata até à década de 1970, para a ala direita do Partido Republicano (Diamond, 1995).
Seguindo a compreensão de Huntington de que a ideologia conservadora se desenvolve em resposta ou em resistência a situações históricas específicas que desafiam as estruturas sociais e políticas consolidadas, Marina Basso Lacerda (2019) afirma que o neoconservadorismo é conservador porque caracteriza uma reação política contrária ao Welfare State e a conquista de direitos civis, sociais e sexuais por parte de segmentos minoritários que angariaram maior visibilidade pública e política a partir da segunda metade da década de 1960.
Nos Estados Unidos, os atores neoconservadores adentraram no discurso público para reagir e negar a descriminalização das relações homoafetivas ocorrida em 1962, a permissão para o aborto concedida pela suprema corte em 1973 e, sobretudo, a Emenda dos Direitos Iguais, aprovada pelo Congresso em 1972 com o objetivo de assegurar, para as mulheres, direitos iguais aos dos homens. Sobre a Emenda dos Direitos Iguais, cabe ressaltar que, até o momento presente, ela não foi incorporada ao corpo do texto constitucional norte-americano.
Baseado em um ideário privatista, que privilegia o poder privado das famílias e corporações em detrimento do Estado, o escopo doutrinário neoconservador pressupõe a existência de um Estado militarmente armado, capaz de promover uma política externa expansionista e de reprimir, no âmbito doméstico, todos aqueles que podem ameaçar ou desestabilizar o ordenamento social.
Ao entender o Estado como uma “bússola moral” da sociedade, atores neoconservadores aceitam a interferência estatal em dimensões da vida privada dos indivíduos sem, no entanto, trabalhar para o combate das desigualdades, interpretadas por neoconservadores como naturais e benéficas para o pleno desenvolvimento do social (Brown, 2006). Aqui, novamente é possível identificarmos uma diferença com o conservadorismo político que, segundo Coutinho (2014) entende que não cabe ao poder político decidir sobre os valores a serem seguidos em sociedades abertas, democráticas e livres.
Em seu amplo esforço para definir o novo conservadorismo, Lacerda (2019) aponta que seus principais elementos são: a defesa do sionismo cristão, uma vez que, no contexto de formação da coalizão neoconservadora, a direita cristã passou a apoiar o Estado de Israel em suas lutas contra a Palestina, além de mobilizar a defesa e ativação do discurso contido no velho testamento que é, também, o livro sagrado dos judeus. Na compreensão de Lacerda (2019, p. 43), “parte da aproximação entre evangélicos e sionistas é estratégica: na política externa, Israel é o principal aliado político dos Estados Unidos e, na política interna, a direita cristã possui alta capilaridade”.
O segundo elemento caro ao neoconservadorismo é o militarismo anticomunista que, durante a guerra fria e expansão das áreas de influência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, afirmava a necessidade do intervencionismo militar norte-americano em países estrangeiros. Terminada a guerra fria, os inimigos dos neoconservadores não seriam apenas os comunistas, mas, também, o Islã. Marina Lacerda (2019) adverte que o neoconservadorismo ganha novo fôlego nos Estados Unidos com George Bush após o ataque das torres gêmeas, ocorrido em 2001.
O idealismo punitivista é o terceiro elemento que caracteriza o neoconservadorismo. Trata-se da maneira pela qual grupos neoconservadores apostam na imposição da lei e da ordem, por meio do Estado. Eles apoiam a punição como caminho para a paz doméstica e defendem o endurecimento penal contra os crimes e adversários, construídos socialmente como inimigos internos e externos que devem ser erradicados para a coesão social. Um quarto elemento do neoconservadorismo seria a sua afinidade com o neoliberalismo, sobretudo no que diz respeito à defesa das desigualdades sociais. De acordo com Lacerda (2019, p. 56), “o neoconservadorismo não é nem libertário nem antiliberal. Ele preza pela liberdade de mercado”.
Apesar do sionismo cristão, do militarismo anticomunista, do idealismo punitivo e de sua afinidade com o neoliberalismo, o que confere unidade (não acreditamos se tratar de identidade) às coalizões neoconservadoras é a defesa da família patriarcal.
A investigação de Lacerda (2019), mas, também, de Biroli et al. (2020) e Chaguri et al. (2021), evidenciam que a atuação política neoconservadora objetiva preservar uma ordem sexual heteronormativa, monogâmica e baseada na rígida separação entre os papéis e as funções a serem desempenhadas por homens e mulheres no interior da família e, consequentemente, da sociedade. Para os neoconservadores, a família é a principal instituição responsável por oferecer a base moral da sociedade. Mas ela é, também, a rede de proteção e de segurança econômica mais legítima e moralmente eficiente, conforme afirma Kristol (2011), antes de ser sobre amor, a família é um compromisso absoluto.
Sabemos que o uso do termo neoconservador está em disputa e apresenta limitações. Contudo, reafirmamos tal escolha conceitual na medida em que ele nos permite enquadrar os distintos atores coletivos que reagem ao gênero e às mudanças na regulação da ordem sexual em uma temporalidade política muito específica, caracterizada pela conquista de direitos sexuais e reprodutivos por parte de grupos minoritários.
O neoconservadorismo no Brasil: a oposição ao gênero e a defesa da família patriarcal
Compreendemos, tal qual Lacerda (2019), que existe no Brasil hodierno um movimento neoconservador que reelabora o neoconservadorismo estadunidense da década de 1960. Sabemos que as ideias aterrissam em formações históricas específicas e não em um vazio social normativo, de modo que, na sociedade brasileira, a família sempre foi central enquanto ator social. A família, não o indivíduo, caracteriza a unidade social mínima. No entanto, a mobilização da defesa da família patriarcal passou a adquirir grande expressão conjuntural a partir da década de 2010, sobretudo por conta da atuação de grupos neoconservadores no país.
De acordo com Lacerda (2019), as manifestações ocorridas em junho de 2013 marcaram o início de uma reação neoconservadora no país, ainda que dispersa. Este é o período em que as direitas retomam às ruas, algo inédito desde a ditadura militar, ocorrida na década de 1960. A partir de 2015, esses atores neoconservadores já se organizavam de modo mais coordenado e, em 2018, o fenômeno do neoconservadorismo viria a recrudescer com a ascensão de Jair Bolsonaro como chefe do executivo.
Conforme argumentamos acima, o neoconservadorismo norte-americano manifestou-se como uma reação contrária ao Welfare State e às conquistas legais de direitos sexuais e reprodutivos das minorias sexuais. Os estudos de Biroli et al. (2020) evidenciaram que o combate aos movimentos feministas, das mulheres e LGBTQIAP+ se deram em uma temporalidade especifica no Brasil, situada entre as décadas de 1980 e 2000, período de avanços legais no que toca ao gênero, a sexualidade e a orientação sexual, não apenas no território nacional, mas também de modo transnacional. Período que também é caracterizado, não podemos ignorar, pela consolidação das democracias liberais em distintos países.
No cenário brasileiro, a promulgação da Constituição Federal (1988), após a redemocratização, assegurou e reconheceu a igualdade entre homens e mulheres na família e a legitimidade da união civil, favorecendo uma mudança relativa na posição das mulheres na família, assim como a ampliação da presença feminina no mercado de trabalho e na chefia familiar. É importante considerarmos que os avanços conquistados não foram obtidos sem resistência. Durante a assembleia constituinte, por exemplo, foi recorrente a atuação de grupos religiosos conservadores, sobretudo católicos e evangélicos, alinhados a figuras políticas conservadoras, nas disputas pela moral pública. O fato da expressão “orientação sexual” ser barrada do corpo do texto constitucional ilustra a potência política destes grupos.
O quadro de modificações nos arranjos familiares adquiriu novos contornos durante os dois mandatos do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) (1995-1998 e 1999-2002) com a criação do Plano Nacional dos Direitos Humanos (PNDH) em suas duas versões e, sobretudo, nos governos petistas, que assumiram o compromisso de tratar os direitos humanos como uma política de Estado (Machado, 2012). Temas complexos, como, por exemplo, o aborto, as diferentes orientações sexuais e a constitucionalidade da união homoafetiva passaram a ser apresentados e debatidos publicamente, inserindo o país em uma dinâmica progressista de reconhecimento e valorização das múltiplas formas de vida e subjetividades, de relacionamentos e famílias existentes, projetando o Brasil, no cenário nacional e internacional, como uma nação que acolhia politicamente a diversidade.
Durante os governos petistas também foi aprofundado o diálogo com os movimentos feministas e LGBTQIAP+, sobretudo a partir da incorporação de representantes destes movimentos e coletivos no aparelho estatal. Na época, foi realizada a I Conferência Nacional de Políticas para Mulheres (2004) e foram criados o Programa Brasil Sem Homofobia (2004) e a Comissão Tripartite de Revisão da Legislação Punitiva sobre o Aborto (2005). Também foram realizadas audiências públicas sobre o aborto (2007), a I Conferência Nacional de Políticas Públicas de Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais (2008), o Programa Nacional de Direitos Humanos (criado nos governos de Fernando Henrique Cardoso, e atualizado em 2009) e, por fim, mudanças foram propostas para o novo Plano Nacional de Educação (2010).
No entanto, a inserção na agenda pública de propostas de revisão da “legislação existente no campo do aborto e a criação de novos direitos para gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais amplificaram a tensão existente entre coletivos religiosos tradicionais e o governo” (Machado, 2012, p. 33), favorecendo a oposição neoconservadora ao Partido dos Trabalhadores (PT) e impactando as eleições políticas desde 2010, período em que se inflama a defesa de uma concepção de família patriarcal e a denúncia da corrupção moral dos costumes, promovida pelo “esquerdismo” comportamental e pela secularização. Mariano e Gerardi (2019, p. 70) enfatizam, por exemplo, que o governo de Dilma Rousseff fora “acusado por Bolsonaro, evangélicos e católicos de promover o ‘kit gay’, tido como esquerdista, diabólico, “apologia ao homossexualismo e à promiscuidade”.
Para Lacerda (2019), no período de 2003 a 2015, ocorria no Brasil, por parte de um grupo de parlamentares, uma atuação política neoconservadora. A autora destaca que parlamentares homens são protagonistas na ação pró-família patriarcal, sobretudo os vinculados ao Partido Social Cristão, sendo que mais de 60% das iniciativas em favor de concepções tradicionais de família vieram de deputados evangélicos, especialmente da Assembleia de Deus e da Igreja Batista.
Em sua investigação, Lacerda também apreendeu que estes mesmos atores defendem pautas relacionadas ao idealismo punitivista, como, por exemplo, o Projeto de Lei n.º 3131/2008 (2008), voltada para a redução da maioridade penal. Assim como no neoconservadorismo norte-americano, a defesa do sionismo cristão e de uma comunidade internacional de fé foi firmada e defendida, além, de inimigos da nação terem sido declarados: não mais o comunismo, mas sim o bolivarianismo.
As iniciativas em defesa da família patriarcal se manifestaram por agendas e discursos políticos contrários ao aborto, sendo 2008 o ano de maior investida política contra este tema. Lacerda (2019) evidencia que também existiram oposições contra demandas LGBTQIA+ que se intensificaram a partir de 2011, porque fora este o ano em que se julgou a constitucionalidade da união homoafetiva.
2011 foi também o ano em que o ministério da educação tentou institucionalizar o programa Escola sem homofobia, que consistia em um conjunto de materiais e vídeos voltados para o combate da discriminação sexual nas escolas. Por sua vez, a investida contra o gênero recrudesce em 2014, de modo que, em novembro de 2013, a assim chamada ideologia de gênero emerge nas discussões do legislativo por meio do pastor Eurico, representante do Partido Humanista da Solidariedade (PHS), e desde então tem sido mobilizada por grupos neoconservadores para barrar a agenda de gênero e da diversidade sexual em políticas públicas.
Os papéis convencionais do masculino e do feminino na família voltam a ser reativados política e publicamente, e a defesa da vida e dos valores familiares são proclamados, até que, em 2015, uma comissão especial é formada e aprova o Estatuto da Família, que define como família apenas a junção, via casamento ou união estável, de um homem e uma mulher. Aqui, podemos observar que a palavra família é ratificada como um substantivo singular, capaz de excluir – e invisibilizar – outros arranjos familiares.
Em relação ao ciclo democrático, iniciado com a promulgação da constituição de 1988, a deposição de Dilma Rousseff que ocorreu no ano de 2016, representou o recuo a um momento anterior ao seu ponto de partida. O desfecho deste período é experimentado por todos os brasileiros: uma época de polarização política e de radicalização social, de aversão aos partidos políticos tradicionais e de descrédito com relação às instituições democráticas e à própria política. Diante desse cenário, no ano de 2018, Jair Bolsonaro é eleito presidente da República, com uma vantagem de 11 milhões de votos sobre o candidato petista, Fernando Haddad.
Em seu discurso, Bolsonaro mobilizou a defesa da fé cristã, da pátria brasileira e da família tradicional. A proposta e a propaganda política de Bolsonaro se apoiaram na moralização do debate público, na identificação de seus adversários políticos com inimigos da ordem moral e religiosa e na defesa do Estatuto da família, do Nascituro e do Programa escola sem partido, pautas que se relacionam intimamente com a defesa da família, dos valores familiares e da vida ou, em outras palavras, pautas elaboradas e defendidas por agendas neoconservadoras, nacional e transnacionalmente (Nobre, 2020; Solano, 2018).
Como destacado por Chaguri et al. (2019), para os neoconservadores a realidade social deve ser politicamente indivisível, sexualmente binária e anti-intelectualista. Em oposição aos direitos humanos e ao vitimismo (ou ao “coitadismo” das minorias sociais e sexuais, expressão constantemente utilizada por Bolsonaro), atores neoconservadores mobilizam a moralidade tradicional como fato distintivo, capaz de justificar a posição social de que desfrutam.
Nesse sentido, a defesa da família patriarcal e dos valores familiares, ou, mais especificamente, dos valores caros à agenda neoconservadora, são afirmados e utilizados como uma fronteira simbólica entre aqueles que se reconhecem como iguais e que, consequentemente, compõem os “nós” do neoconservadorismo.
É oportuno recordamos que, no início de 2022, após a Colômbia descriminalizar o aborto até o sexto mês de gravidez, Bolsonaro (2022) escreveu em seu Twitter “Que Deus olhe pelas vidas inocentes das crianças colombianas, sujeitas a serem ceifadas com anuência do Estado no ventre de suas mães até o 6° mês de gestação, sem a menor chance de defesa”. Enquanto ator neoconservador, ele enfatiza: “No que depender de mim, lutarei até o fim para proteger a vida de nossas crianças!” Bolsonaro (2022). Diante dessa realidade, compreendemos que uma característica do neoconservadorismo à brasileira consiste em suprimir a agenda antigênero por meio do destaque atribuído à agenda baseada na defesa de valores familiares (tradicionais) e da vida.
Neoconservadorismo e líderes religiosos: entrelaçamentos possíveis
Apreendemos, a partir do que fora exposto, que diversas são as pesquisas realizadas no Brasil e no exterior que têm se dedicado a estudar o fenômeno do neoconservadorismo. A contribuição geral desse trabalho consiste em olhar para as lideranças evangélicas em geral e, para os líderes da Igreja Universal do Reino de Deus em particular, para investigar se eles estariam também promovendo o neoconservadorismo no Brasil mediante a sua respectiva concepção de família.
Entendemos que a proposta é relevante porque são as vozes e os clamores religiosos que estão, a todo o momento, em contato com as camadas populares da população, no nível do cotidiano, das dificuldades diárias enfrentadas pelos brasileiros e brasileiras, na dor da fome, do desemprego e da insegurança econômica crônica, produzindo os seus remédios, exorcismos e orações, produzindo a sua fé. Para, além disso, líderes religiosos produzem seus valores e seus discursos, suas formas de mentalidades e comportamentos não apenas em períodos de pleito eleitoral, não se limitando, portanto, ao projeto de um único governo que pode chegar ao fim após um mandato de quatro anos.
Na compreensão do sociólogo argentino José Maria Mardones (1991), o neoconservadorismo é responsável por provocar uma revolução silenciosa, sendo os atores religiosos de direita os principais responsáveis por levar adiante essa revolução. Em confluência com Mardones, as pesquisas de Maria Campos Machado (2012), Marcelo Camurça (2020), Juan Vaggione (2020), e Ronaldo Almeida (2020) apontam para a forte atuação neoconservadora de grupos evangélicos e católicos, tanto no Brasil quanto em outros países da América Latina, como, por exemplo, na Colômbia. O trabalho de Lacerda (2019) foi enfático ao evidenciar que a direita cristã é o ator mais importante das coalizões neoconservadoras.
No entanto, esses diversos estudos evidenciam a existência de um forte ativismo político e digital neoconservador de líderes religiosos, o que nos afasta da compreensão de que se trata de uma revolução “silenciosa”. O extenso trabalho investigativo de Magali da Cunha (2007, 2016, 2019, 2022) assinala a impossibilidade de se pensar a conjuntura política brasileira sem considerar sua íntima relação não apenas com a religião, mas, também, com as mídias digitais.
Atores neoconservadores fazem suas vozes serem ouvidas. Com relação à religião, sabemos que os evangélicos são conhecidos pela grande mobilização que fazem das mídias tradicionais, como o rádio e televisão. Mas, também “o avanço tecnológico que incide sobre a comunicação social soube ser absorvido pelo campo religioso em geral, especialmente por igrejas evangélicas” (Tadvald, 2020, p. 48) de modo que, a partir dos anos 2000, com a penetração mais intensa da internet no Brasil, diversas denominações pentecostais e neopentecostais passaram a utilizar a mídia digital como um meio de amplificar o raio de alcance dos seus valores e dos discursos proferidos nos cultos e, ainda, como um recurso para se conectar diariamente tanto aos fiéis quanto às pessoas que almejam ingressar nas igrejas ou que são, ainda, apenas curiosas dos conteúdos elaborados pelas lideranças religiosas.
Nesse ponto, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), fundada na década de 1970 por Edir Macedo, se destaca entre as denominações neopentecostais como uma das principais igrejas que adentraram no espaço midiático (Mariano, 2004). A IURD possui, por exemplo, um perfil no Facebook e um perfil no Twitter, uma conta no Instagram e no Youtube, além do portal online oficial da Igreja, idealizado por Edir Macedo e fundado em abril de 2001. Por meio do uso do site SimilarWeb, foi possível fazermos uma breve análise dos dados do portal da Universal, na qual destacamos que, no mês de dezembro de 2024, o site recebeu mais de dois milhões de acessos, posicionando-se entre os 30 sites mais acessados do país na categoria “fé e crença”.
Como nossa proposta de investigação consiste em compreender se as lideranças iurdianas estariam, mediante a sua concepção de família, fomentando o neoconservadorismo no país, debruçamos nossa análise no podcast Escola do Amor Responde (R. Cardoso & C. Cardoso, 2013-presente), comandado pelo atual líder terreno da Igreja Universal, bispo Renato Cardoso, e por sua esposa, Cristiane Cardoso.
Renato e Cristiane são conhecidos pelo vasto trabalho que desempenham no que toca à vida afetiva e familiar dos fiéis iurdianos. Eles são os responsáveis pelo best-seller Casamento blindado: o seu casamento à prova de divórcio (R. Cardoso & C. Cardoso, 2012), e pelos livros Namoro blindado: o seu relacionamento à prova de coração partido (R. Cardoso & C. Cardoso, 2015) e Diário do amor inteligente (R. Cardoso & C. Cardoso, 2017). O casal também é comanda uma série de cursos e palestras nos diversos templos iurdianos sob o nome de Terapia do amor, sendo, ainda, os apresentadores do programa televiso The love school, exibido pela rede Record de televisão semanalmente aos sábados e pelo podcast Escola do Amor Responde (R. Cardoso & C. Cardoso, 2013-presente).
Tanto em seus livros quanto nos textos que escrevem, isoladamente, para seus respectivos blogs e, ainda, nas palestras e nos programas que apresentam, Renato e Cristiane se mostram abertos ao público para contar, em primeira pessoa, sobre seus problemas conjugais, seus defeitos pessoais e as situações desconfortáveis pelas quais passaram na primeira década de casados. Pudemos observar que se trata de uma narrativa construída a partir da triangulação entre os sofrimentos, os desafios e os sacrifícios contínuos que o casal teve de efetuar, tanto no nível pessoal e particular, quanto no nível conjugal, para que hoje pudessem ser uma única carne, conforme afirmam (Teixeira, 2018). Fato é que o que o casal tenta ensinar para seu público que o amor, longe de ser um sentimento, é uma escolha. Uma escolha que deve ser racional e racionalizada. O amor deve ser inteligente, e para isso, não é o coração que precisa ser seguido em um relacionamento, mas, sim, a mente.
Cabe destacarmos que, apesar de mobilizarem um discurso público em nome da família, uma concepção de família específica que iremos adentrar nas páginas a seguir, Renato Cardoso e Cristiane Cardoso apresentam uma dimensão política em suas falas. Posicionamos o casal como atores do neoconservadorismo porque, apesar de afirmar não ser nem de esquerda nem de direita, eles também defendem, por exemplo, que todos aqueles que se consideram cristãos não podem se identificar com o espectro político, partidário ou ideológico da esquerda.
De acordo com uma postagem feita em seu blog no dia 23 de janeiro de 2022, Renato Cardoso afirmou que existem pelo menos cinco motivos que fazem com que um cristão não possa ser de esquerda, sendo eles: a família, uma vez que “a esquerda prega contra o casamento convencional e incentiva questões como a liberdade do uso de drogas, que causam mal individual e social e desestruturam as famílias” (R. Cardoso, 2022, para. 3); as formas de governar, porque “a esquerda gosta de mentir que luta contra a ditadura, mas o marxismo, base do esquerdismo, produziu historicamente as maiores ditaduras que oprimiram o povo” (R. Cardoso, 2022, para. 5). O terceiro motivo relaciona-se com a crença. O cristianismo, e consequentemente o cristão, possui como espinha dorsal a crença em Deus e a esquerda, cuja base supostamente é o marxismo, nega Deus. De acordo com as investigações de Chaloub et al. (2018, p. 11), para grupos neoconservadores, neoliberais e libertários, “o conceito de esquerda tem como primeiro sentido comum a defesa da centralidade do Estado”. No discurso iurdiano, isso se traduz não apenas na denúncia de que a esquerda fecha igrejas e templos, instaura ditaduras como as da China e Coréia do Norte, perseguindo cristãos e negando Deus. De fato, Renato Cardoso afirma que, para a esquerda, o Estado é que é considerado “deus”.
Ainda na mesma postagem de seu blog, após estabelecer que é contraditória a afirmação de que existe uma esquerda evangélica, Renato Cardoso (2022) apresenta o quarto motivo que afasta o cristão da esquerda: o lado. E, aqui, é necessário nos atermos para a sutiliza do discurso. O bispo afirma que “na Bíblia, estar do lado direito é identificado como um lugar especial, de honra, do Próprio Deus. Quando o Senhor Jesus fala de ‘ovelhas e bodes’, põe as primeiras à direita e os segundos à esquerda (Mateus 25.31-34)” (R. Cardoso, 2022, para. 8).
Ao longo da construção do corpus documental de nossa pesquisa, foi possível apreendermos que, em diferentes momentos, a esquerda é associada a características como rebeldia, indisciplina, desordem e bagunça. É intencional caracterizá-la com tais adjetivos, na medida em que a figura do diabo é, também, associada à rebeldia, indisciplina, bagunça e desordem. Constrói-se, portanto, uma série de equivalências entre a figura do diabo e a figura da esquerda (política, partidária, ideológica). Fato curioso é que o diabo também é definido por Renato Cardoso como o pai da mentira, o que possibilita a constante associação daquilo que a esquerda promete com a mentira.
Em um vídeo de seu canal do Youtube, postado no ano de 2020 e cujo título é: Cristão e movimentos ativistas: como deve se posicionar? Renato Cardoso afirma que é pouco comum a existência de movimentos sociais da direita, “porque o princípio da direita foca no indivíduo, no mérito do individuo” (R. Cardoso, 2020a, 00:58) que é o único responsável por sua vida. Não existem, segundo o bispo, vítimas e coitados para a direita e, tampouco, para Deus. Uma vez que Deus não se agrada com esse “espírito de vítima, que tem origem nos quintos dos infernos” (R. Cardoso, 2020b, 06:05).
Por fim, o quinto motivo diz respeito à unidade. Propaga-se na Universal a ideia de que a esquerda é responsável por incitar às diferenças entre os seres humanos com o objetivo de dividi-los. Destaca-se que é o diabo quem coloca um espírito que:
Fala na cabeça do negro “Tadinho de você. Coitadinho, você é negro. Olha só o que o branco fez com você”. Esse mesmo espírito coloca na cabeça das mulheres “coitada de você, olha o que esse patriarcado, olha o que esses homens opressores fizeram, fazem com você”. (R. Cardoso, 2020b, 05:28)
Aqui, é necessário enfatizarmos que é justamente contra os movimentos feministas, LGBTQIAP+ e, também, o movimento negro que a IURD se posiciona afirmando defender, tal qual Deus, a unidade da nação.
Conforme tentarmos argumentar na seção anterior, o neoconservadorismo caracteriza-se pela forte negação dos movimentos de minorias sociais e sexuais. Na IURD, apreendemos que o argumento teológico mobilizado para negar a existência de tais movimentos se pauta na ideia de que, ao se batizar, o cristão se reveste de cristo, perdendo assim todas as identidades mundanas. Para Deus, afirma Renato Cardoso, não existem ricos e pobres, brancos e negros, tampouco, homens ou mulheres.
Em 19 de outubro de 2022, restando apenas 11 dias para o segundo turno das eleições no Brasil, em que concorriam para o cargo de chefe do executivo nacional os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro, Renato Cardoso protagonizou, em conjunto com outros bispos iurdianos, uma discussão televisionada sobre o temor dos cristãos com a esquerda. Tal discussão ocorreu no programa EntreLinhas, espaço no qual o bispo pôde denunciar, assim como os grupos neoconservadores brasileiros, que a esquerda dominou a mídia jornalistica, a cultura e a arte. A esquerda também já teria dominado as escolas, sendo necessária muita cautela dos pais com relação aquilo que seus filhos estão aprendendo, tendo, ainda, dominado as minorias e o poder judiciário. As forças militares e policiais e, em especial, as igrejas evangélicas seriam as únicas instituições ainda não dominadas pela esquerda e, portanto, eles deveriam se unir e se proteger.
Diante do que fora exposto, evidencia-se que mais do que lideranças religiosas que limitam-se ao púlpito, encontramos na Universal do Reino de Deus um forte ativismo político capaz de promover uma intersecção entre a moralidade e a política, entre a religião e a vida pública que, por sua vez, contribuí para a conformação da temporalidade política hodierna. Justificada a relevância da IURD e da atuação de suas lideranças, passemos, agora, para uma breve caracterização do podcast Escola do Amor Responde (R. Cardoso & C. Cardoso, 2013-presente), programa escolhido para nossas investigações empíricas, e pelos procedimentos metodológicos mobilizados em nossa pesquisa.
Metodologia
Criado no ano de 2013, o podcast Escola do Amor Responde (R. Cardoso & C. Cardoso, 2013-presente) reúne mais de 2.579 episódios. Alimentado, normalmente, a cada três dias, o objetivo programa é “ensinar o amor inteligente” e, também, “confrontar os mitos e as desinformações nos relacionamentos”. Os episódios duram, em média, doze minutos e seguem uma estruturação padrão: o bispo Renato inicia o programa lendo uma pergunta ou pedido de ajuda deixado por algum ouvinte para, na sequência, introduzir o tema a ser tratado. Posteriormente, Cristiane Cardoso tece alguns breves comentários até que, finalmente, Renato prescreve soluções ou conselhos para a vida afetiva e familiar de seus ouvintes.
O podcast é alimentado semanalmente, de modo que, até o presente momento, existem mais de dois mil episódios. Para a nossa pesquisa documental, selecionamos 40 episódios. Esses episódios foram coletados a partir da busca de um conjunto de palavras-chave que remetiam à noção de família. Pesquisamos pelas palavras: pai, mãe, marido, esposa, filho, casamento, pensão, traição, amor, fidelidade e pornografia. Posteriormente, selecionamos os episódios que retornaram resultados e estavam dentro do recorte estabelecido: os anos de 2017 e 2021, período de recrudescimento do neoconservadorismo no país. Após selecionar esses episódios, eles foram transcritos em documentos do Word, construindo, assim, um corpus de investigação. No que diz respeito à interpretação do material empírico, optamos pela busca do significado literal dos textos. Como reunimos uma vasta quantidade de material empírico, e por privilegiarmos a dimensão qualitativa da análise, concentramos nossos esforços em buscar, durante nossas leituras, por padrões sistemáticos e por repetições recorrentes contidas no material.
Resultados
Em síntese, foi possível encontramos conexões de sentido entre a concepção de família defendida e propagada no podcast Escola do Amor Responde (R. Cardoso & C. Cardoso, 2013-presente) e aquela defendida por atores do neoconservadorismo. Renato Cardoso e Cristiane Cardoso propagam uma concepção de família patriarcal, heteronormativa e monogâmica. O interessante, pensamos, é a maneira pela qual o casal toma para si o desafio de justificar e de reforçar, pela base religiosa, esses valores neoconservadores. Assim sendo, vejamos, primeiro, como os líderes da IURD justificam a monogamia para, na sequência, evidenciarmos a maneira pela qual eles constroem os inimigos da família: movimentos feministas, LGBTQIAP+ e a cultura de massa. Ainda em consonância com o neoconservadorismo, veremos, posteriormente, o que Renato e Cristiane prescrevem sobre a homossexualidade e a educação das crianças brasileiras.
No episódio intitulado “3 passos para reativar o desejo em seu casamento”, Renato e Cristiane estabelecem que o sexo saudável e seguro se dá apenas dentro do matrimônio. Para os apresentadores, “a vida sexual não deve ser opcional dentro do casamento. Ela não é opcional” (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019a, 02:06). Partindo da afirmação de que “o sexo é 10% físico e 90% mental” (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019a, 09:15), Renato ensina para seus ouvintes quais são os três passos que, se seguidos corretamente, podem reativar o desejo no casamento, sendo eles: a abstenção, a atenção e o estímulo.
A abstenção refere-se à necessidade de os homens pararem de consumir pornografia e de não praticarem masturbação. Quanto as mulheres, elas não devem consumir livros de romance ou assistir filmes de comédia romântica, responsáveis pela criação de ilusões e fantasias que não são reais. Segundo Renato “dentro da vida sexual do casal, esta abstenção, esse jejum, tem que acontecer para que você não fique saturado de satisfação sexual por outras formas” (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019a, 03:23). O segundo passo é a atenção. Conforme explicita Renato “para você ter desejo sexual por uma pessoa você tem que prestar atenção nela, você tem que olhar pra ela, você tem que notá-la, ver as virtudes” (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019a, 04:54). Não se trata, porém, de olhar para os defeitos, mas, sim de reservar um tempo para o cônjuge porque, na correria do cotidiano, as pessoas estão dedicando seu tempo para “filho, trabalho, internet, televisão, redes sociais” (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019a, 05:20), mas não para seus parceiros.
Finalmente, o terceiro passo é o estímulo. Trata-se do planejamento da noite. E, aqui, Cristiane Cardoso é quem dá a dica para as mulheres:
hoje à noite eu quero estar com o meu marido, hoje à noite eu vou colocar as crianças pra dormir mais cedo, eu não vou ficar assistindo a novela até mais tarde, eu não vou ficar lavando roupa, né. Eu vou tomar meu banho né, rápido, pra eu já ficar pronta pra ele. Eu vou sentar do lado dele no sofá, né, se ele tem costume de ficar assistindo televisão até tarde, senta do lado dele, cheirosinha, e ali você vai, né, fazendo o que você pode fazer. (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019a, 11:12)
Para todos aqueles que podem estar se perguntando o que Renato e Cristiane recomendariam para aqueles que não conseguem reativar o desejo no casamento, sobretudo se forem mulheres, vale a pena resgatarmos o episódio “Renato e Cristiane dão aula sobre sexo”, postado em 25 de março de 2019:
Você não tem que esperar sentir vontade. “ah, eu queria ter a mesma vontade do meu marido”. Então, o que você tem que fazer? Você, inicialmente, eu sei que tem mulher que agora vai… vai parir quando eu falar isso! Mas, você tem que inicialmente fazer sem vontade. Assim, fazer sem vontade, eu quero dizer, você não está sentindo vontade antes, mas, quando você começa a namorar, começa as preliminares, a vontade vai vir. (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019b, 10:43)
A mulher não pode deixar a intimidade sexual com seu marido ser prejudicada sob nenhuma hipótese porque, conforme afirma Cristiane Cardoso (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019b), existe uma ligação muito íntima, profunda e inexplicável que acontece entre homem e mulher ao compartilharem o leito. Também a pesquisa de Rosas (2018) apreendeu que, na IURD, o sexo é interpretado como uma aliança entre o casal, capaz de fortalecer o vínculo entre o homem e a mulher.
Um dado interessante de nossa pesquisa foi a apreensão de que valores neoconservadores, comumente, são proferidos por Cristiane Cardoso, que é uma mulher. Nesse mesmo episódio, a apresentadora afirma que “hoje, infelizmente, com a modernidade, muitas mulheres estão muito cansadas, estão muito estressadas porque elas trabalham fora né, elas fazem muitas coisas além de cuidar da casa, do filho” (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019b, 02:07) e, com isso, acabam vendo o sexo apenas como mais um trabalho. Esse seria um erro que pode, inclusive, levar à corrosão do casamento e da família. O controle e a regulação do desejo, características do neoconservadorismo segundo Brown (2006), aparece nos discursos de Renato e Cristiane, que não apenas justificam a monogamia afirmando a importância do intercurso sexual, mas também assinalam que não praticar sexo no casamento equivale à infidelidade e torna legítimo o pedido de divórcio.
Cabe destacar que, na IURD, não existe família sem ordem, e não é possível a existência de ordem sem o respeito à autoridades e hierarquias. A família iurdiana segue o modelo da família divina, na qual Deus manifesta-se na figura do pai e o espírito santo manifesta-se na figura da mãe. Ao explicar para seu público o significado da expressão bíblica Ezer Kenegdo, utilizada por Deus ao criar Eva, Renato estabeleceu que:
Quando Deus viu o homem sozinho, ele disse “isso não é bom”. Então, ele disse assim: “eu vou fazer uma Ezer kenegdo para o homem”. Que significa o quê? Essa palavra, Ezer, significa ajuda, socorro, resgate. Então, a mulher, ela foi designada como uma ajuda, um socorro, resgate para o homem. E Kenegdo significa uma ajuda que está de frente pra ele, que é oposta a ele. (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019c, 00:56)
Nesse sentido, homem e mulher aparecem como pares opostos, ainda que complementares. A mulher não é igual ao homem, e sua força reside, justamente, nas características que a diferem do homem. Pesquisas como as de Teixeira (2014, 2018) destacam que a mulher iurdiana é descrita como aquela que persevera, renuncia e sacrifica em nome da família. A mulher de provérbios 31.
Forte, cuidadora e auxiliadora do marido, a mulher virtuosa, acima descrita, difere-se da mulher “poderosa”. O uso do adjetivo “poderosa” por parte de Renato e Cristiane é intencional. Ele alude à cantora Anitta e demais artistas da cultura pop que são criticadas por seus estilos de vida que, muitas vezes, envolvem uma suposta libertinagem sexual. Cabe ressaltar que a mulher poderosa é infeliz. Ela busca amor na balada, sendo apenas um objeto sexual para os homens. Segundo Renato, a “poderosa” teve sua verdadeira natureza sufocada pelos movimentos feministas e pelas mulheres que se dizem “empoderadas”. Renato argumenta que:
O abandono do lado feminino tem resultado numa mulher amarga, uma mulher masculinizada, uma mulher que vê o homem como inimigo. Então, ela mesma não se aceita porque, no fundo, no fundo, Cristiane, a mulher que se comporta dessa forma, ela não se sente feliz com ela mesma, porque ela está negando a própria natureza dela. E, até que ela entenda a sua natureza como força, como força, porque ela é força, é uma é uma força diferente, é uma força complementar. Até que ela entenda a sua natureza como força, ela não vai valorizar isso. (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019c, 12:42)
Conforme dito anteriormente, o neoconservadorismo caracteriza uma reação contrária à ampliação dos direitos sexuais e reprodutivos das minorias sexuais, além de travar uma disputa pela moralidade pública com os movimentos feministas e de outras minorias sexuais. Esses mesmos elementos aparecem nas falas de Renato e Cristiane Cardoso. A possibilidade das mulheres – e não apenas homens – terem uma vida sexual ativa é rechaçada, porque reduz o valor social da mulher, minando as chances de ela encontrar um homem comprometido com a construção de uma família.
A cultura de hoje, para Renato Cardoso, é responsável por propagar a ideia de que as pessoas podem fazer o que quiserem com seus corpos, adquirindo sempre maior capital sexual. No entanto, como o sexo legítimo apenas ocorre no casamento, Renato e Cristiane estabelecem que aquele que tem intimidade sexual fora de um relacionamento estável está, necessariamente, sendo usado. É assim que eles ironizam uma aluna que, no episódio do podcast “Aceita que dói menos: você foi uma ficada, nada mais” (2021), pedia socorro por não saber como lidar com a rejeição de um parceiro. Nesse episódio, Renato Cardoso, culpabilizando a mulher, afirma que “meninos não tem maturidade nenhuma para compromisso (…) ele pegou o que queria e acabou, foi embora” (R. Cardoso & C. Cardoso, 2021, 03:36).
Nesse mesmo episódio, Renato também faz uma afirmação sociológicamente interessante: “homem não nasce, homem se faz. Todo homem nasce macho, mas nem todo macho se torna homem” (R. Cardoso & C. Cardoso, 2021, 09:47), subvertendo a famosa frase de Simone Beauvoir. Apenas com a ajuda da terapia do amor, responsável por ensinar o amor inteligente, machos e meninos se tornam homens e, ainda, mulheres aprendem a novamente valorizar e desempenhar o seu papel social. Enquanto ator neoconservador, Renato Cardoso (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019d) afirma que, atualmente, a posição das mulheres na sociedade deixa os homens confusos quanto ao primeiro passo para se ter um relacionamento.
Os homens são descritos como portadores de uma natureza caçadora. Eles são os “cabeças” e “líderes” da família, portanto, são os responsáveis pelo cuidado da família e pela proteção de suas parceiras. Encontramos, em nosso corpus documental, afirmações de que casais que dividem tarefas domésticas possuem maiores chances de se divorciarem. Além disso, é necessário ressaltarmos que Renato Cardoso mobiliza a noção de patriarca para referir-se ao pai de família. Vejamos:
É preciso voltar um pouco ao tempo e entender como é que, no passado, a figura do pai, do patriarca, era uma figura que demandava todo respeito, de toda a família, de toda a tribo, de todos os vizinhos, de todas as pessoas que o conheciam. Então, por exemplo, quando você ouve falar de Noé, quando você ouve falar de Abraão, que era um patriarca, depois dele Isaac, Jacó. Você ouve falar de pessoas que eram líderes. Normalmente, era o primogênito, era o cabeça da tribo, cabeça da família. E em cada família, (…) todo cabeça de família era considerado a autoridade naquela casa. Autoridade instituída pelo próprio Deus [itálico acrescentado]. (R. Cardoso, 2021, 03:35)
Depreende-se dessa afirmação a tentativa iurdiana de qualificar a noção de patriarca – e sua autoridade –, como um dado natural, que deve ser inconstestável porque fora atribuída pelo próprio Deus. Assim sendo, o homem, autoridade da família, destina-se aos espaços públicos e a vida pública, cabendo à mulher o espaço privado e doméstico.
Outro tema importante sobre o qual o casal iurdiano se debruça é a pornografia, compreendida como um desvio sexual grave. Para Renato, “quando uma pessoa tem algum desvio sexual, não somente com respeito a pornografia, mas, qualquer vício de sexo e mesmo a homossexualidade, muitos, muitos casos o desvio começou na infância da pessoa” (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019e, 02:43). É na infância que essa pessoa sofreu um abuso ou teve uma experiência sexual precoce, que resultou em um desvio sexual. Apreende-se que, na IURD, a homossexualidade não é tratada como um pecado, mas enquadrada como uma patologia que pode, inclusive, ser revertida (Natividade, 2010).
Apontando para a centralidade da infância para o desenvolvimento da pessoa, Renato Cardoso – tal qual os grupos neoconservadores brasileiros – faz um alerta a todos aqueles que são pais:
hoje nós temos um grande problema nas escolas, de professores, está em, está em currículo de escolas, o tema da masturbação. Você, que tem filhos pequenos, você, provavelmente, já se deparou com um livro infantil, onde o assunto masturbação é tratado. ou seja, as crianças são incentivadas, hoje, a se masturbar. Então, a se sensualizarem precocemente. Isso fora as celebridades mirins que existem por aí e tudo mais (R. Cardoso & C. Cardoso, 2019e, 05:39)
Ao falar sobre um suposto “livro infantil” que trata de temas como masturbação, Cardoso faz alusão aos materiais elaborados pelo ministério da educação durante os governos petistas para a consolidação do Programa Brasil sem homofobia (2004) que, como vimos anteriormente, foi extremamente rechaçado por grupos neoconservadores. As apostilas foram, inclusive, apelidas de “kit gay”, consideradas como uma “apologia à promiscuidade” (Mariano & Gerardi, 2019, p. 70)
Se, por um lado, o casal de lideranças da IURD nega a educação sexual nas escolas, por outro lado, eles são os responsáveis pelo projeto Namoro blindado nas escolas. Criado em 2017, o principal objetivo desta iniciativa é ensinar o assim chamado “amor inteligente” para jovens entre 13 e 18 anos mediante uma série de palestras realizadas em escolas públicas periféricas do Brasil. Note-se: em tempos de recrudescimento do discurso contrário à ideologia de gênero, e em defesa das crianças inocentes que estariam, supostamente, sendo corrompidas pelas ideologias da esquerda, bem como em tempos de grande mobilização e oposição religiosa e secular à educação sexual nas escolas, o casal se empenha em levar para jovens e adolescentes a “educação amorosa”.
Em síntese, podemos apreender que as lideranças iurdianas defendem uma concepção patriarcal de família, com clara delimitação dos papéis de gênero. Ressaltamos, no entanto, que Renato e Cristiane também defendem o autocuidado feminino e masculino. Eles enfatizam, por exemplo, a necessidade da higiene pessoal, da mulher estar arrumada, perfumada e, ainda, de não descuidar de seu peso. Autoestima é necessário para que os parceiros se amem e, assim, aprendam a se valorizar dentro das relações. Muitas vezes, afirma Renato e Cristiane, as mulheres são chatas no casamento porque não entendem o próprio valor e, por isso, cobram seus maridos que, em contrapartida, tentarão fugir de suas esposas.
A família de sucesso é composta por um homem e por uma mulher de sucesso, cada um com sua individualidade. Juntos, o casal inteligente é aquele que, segundo Renato e Cristiane, pratica a fidelidade, inclusive financeira. Entendida como uma empresa, na qual lucros e saldos positivos e negativos devem ser apresentados aos membros mensalmente, o casal de lideranças da IURD novamente se aproxima de atores neoconservadores que defendem que “a família é uma instituição econômica vital” (Kristol, 1995, p. 49). Na IURD, por fim, o divórcio é rechaçado na grande maioria dos casos, porque a partilha dos bens conquistados durante o casamento é vista como essencialmente negativa. No entanto, cabe ressaltar que, em casos de depoimentos em que os alunos da Escola do Amor Responde denunciam violências ou traições sofridas constantemente, o casal Cardoso aceita e propõe a separação.
Conclusão
A partir do que fora exposto, pensamos ser possível sinalizar que a concepção de família propagada e difundida por meio do podcast Escola do Amor Responde (R. Cardoso & C. Cardoso, 2013-presente) é capaz de envolver, articular e justificar valores, princípios, avaliações e concepções de mundo neoconservadoras. Conforme tentamos argumentar, o casal de lideranças da Igreja Universal do Reino de Deus propaga uma concepção patriarcal de família, que estabelece as diferenças entre a “natureza” do homem e da mulher no interior da família e, consequentemente, da sociedade. Aqui, os papéis de gênero são essencializados e não tratados como construções históricas e sociais.
Destacamos que o eixo gravitacional do neoconservadorismo propagado pela Universal se dá a partir da defesa de uma ordem sexual monogâmica e do rechaço aos movimentos das minorias sexuais e sociais, interpretados como ideológicos e perigosos para as mulheres. A IURD também disputa a moralidade com a cultura popular. Os filmes e livros de romance são acusados de serem fantasiosos, potencializando a idealização de homens que não existem e, portanto, contribuindo para o fracasso dos relacionamentos. Observa-se, ainda, que a cultura também desvirtua as mulheres mediante o “empoderamento”, acusado de subverter a verdadeira natureza da mulher e objetificá-la.
Na IURD, o casamento é central. É em nome do amor inteligente que Renato e Cristiane justificam todo o seu trabalho dentro da igreja. Apenas por meio dos laços matrimonias é possível que a intimidade sexual seja saudável. A heteronormatividade é afirmada na medida em que as relações homoafetivas, por sua vez, são interpretadas como condutas desviantes, muitas vezes provenientes do abuso sexual de crianças. Por fim, na IURD, existe a denúncia da corrupção dos costumes promovida pela assim chamada “modernidade”.
Agradecimentos
Agradecemos o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) que financiou a pesquisa que originou este artigo. Destacamos, ainda, que as opiniões, hipóteses e conclusões expressas neste material são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.
Financiamento
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo n.º 2021/07068-6.
Referências
Almeida, R. (2020). Evangélicos à direita. Horizontes Antropológicos, 26(58), 419–436. https://doi.org/10.1590/S0104-71832020000300013
Biroli, F. (2017). O fim da Nova República e o casamento infeliz entre neoliberalismo e conservadorismo moral. In W. Bueno, J. Burigo, R. P. Machado, & E. Solano (Orgs.), Tem saída? Ensaios críticos sobre o Brasil (pp. 17-26). Zouk.
Biroli, F., Machado, M. D. C., & Vaggione, J. M. (2020). Gênero, neoconservadorismo e democracia. Boitempo.
Bolsonaro, J. M. [@jairbolsonaro]. (2022, 22 de fevereiro). Que Deus olhe pelas vidas [Tweet]. Twitter. https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1496181172166139905
Brown, W. (2006). American Nightmare: Neoliberalism, neoconservatism, and de-democratization. Political Theory, 34(6), 690–714. https://www.jstor.org/stable/20452506
Camurça, M. (2020). Um poder evangélico no Estado brasileiro? Mobilização eleitoral, atuação parlamentar e presença no governo Bolsonaro. Revista NUPEM, 12(25), 82-104. https://doi.org/10.33871/nupem.v12i25.713
Cardoso, R. (2020a, 14 de agosto). Cristão e movimentos ativistas: Como deve se posicionar? [Vídeo]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=bw1Rb6U37-c
Cardoso, R. (2020b, 12 de outubro). Pegue a visão: quando tentaram fazer Jesus de coitado [Vídeo]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=Pwx-skkqCvY
Cardoso, R. (2021, 29 de janeiro). Gênesis: por que Noé amaldiçoou o filho Cam [Vídeo]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=au9ZrsUdB7k
Cardoso, R. (2022, 23 de janeiro). 5 motivos que mostram que é impossível ser cristão e ser de esquerda. Universal. https://www.universal.org/noticias/post/5-motivos-que-mostram-que-e-impossivel-ser-cristao-e-ser-de-esquerda/
Cardoso, R., & Cardoso, C. (2012). Casamento blindado: o seu casamento à prova de divórcio. Thomas Nelson.
Cardoso, R., & Cardoso, C. (Anfitriões). (2013-presente). Escola do Amor Responde [Podcast áudio]. Igreja Universal do Reino de Deus. https://www.universal.org/podcasts/escola-do-amor-responde/
Cardoso, R., & Cardoso, C. (2015). Namoro blindado: o seu relacionamento à prova de coração partido. Thomas Nelson.
Cardoso, R., & Cardoso, C. (2017). Diário do amor inteligente. Thomas Nelson.
Cardoso, R., & Cardoso, C. (Anfitriões). (2019a, 16 de abril). 3 passos para reativar o desejo em seu casamento (N.º 228) [Episódio de podcast áudio]. In Escola do Amor Responde. Igreja Universal do Reino de Deus. https://podcasts.apple.com/pt/podcast/228-3-passos-para-reativar-o-desejo-em-seu-casamento/id1758623208?i=1000662894056
Cardoso, R., & Cardoso, C. (Anfitriões). (2019b, 25 de março). Renato e Cristiane dão aula sobre sexo (N.º 216) [Episódio de podcast áudio]. In Escola do Amor Responde. Igreja Universal do Reino de Deus. https://podcasts.apple.com/pt/podcast/216-renato-e-cristiane-d%C3%A3o-aula-sobre-sexo/id1758623208?i=1000662894266
Cardoso, R., & Cardoso, C. (2019c, 8 de março). Ezer Kenegdo: O poder oculto da mulher [Vídeo]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=yNwvqLY4nzM
Cardoso, R., & Cardoso, C. (2019d, 25 de dezembro). Juju Salimeni reclamou disso sobre os homens [Vídeo]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=1C5aw2W7bfs
Cardoso, R., & Cardoso, C. (2019e, 1 de outubro). Dicas de um ex-viciado em pornografia para viciados e cônjuges [Vídeo]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=t9DBequLIIU
Cardoso, R., & Cardoso, C. (2021, 26 de maio). Aceita que dói menos: Você foi uma ficada e nada mais [Vídeo]. Youtube https://www.youtube.com/watch?v=8E7jkWBm-es
Chaguri, M., Cavalcante, S., & Nicolau Netto, M. (2019, 21-25 de outubro). O homem médio e o conservadorismo liberal no Brasil contemporâneo: O lugar da família [Comunicação]. 43º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), Caxambu, MG, Brasil.
Chaguri, M., Cavalcante, S., & Nicolau Netto, M. (2021). O conservadorismo-liberal no Brasil de Bolsonaro: A força da articulação no contexto de pandemia. Brasiliana: Journal for Brazilian Studies, 10(1), 285–307. https://tidsskrift.dk/bras/article/view/127240
Chaloub, J., Lima, P., & Perlatto, F. (2018). Apresentação: direitas no Brasil contemporâneo. Teoria e Cultura, 13(2), 9-21. https://periodicos.ufjf.br/index.php/TeoriaeCultura/article/view/13988/7485
Constituição Federal do Brasil. (1988). Dispõe sobre direito constitucional brasileiro. Planalto. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
Coutinho, J. P. (2014). As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários. Três Estrelas.
Cunha, M. N. (2007). A explosão gospel: Um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil. Mauad X.
Cunha, M. N. (2016). Mídia, religião e cultura: Percepções e tendências em escala global. Prismas.
Cunha, M. N. (2019). Os processos de midiatização das religiões no Brasil e o ativismo político digital evangélico. Revista FAMECOS, 26(1), e30691.
Cunha, M. N. (2022). My news explica: Evangélicos na política brasileira. Edições 70.
Diamond, S. (1995). Roads to dominion: Right-wing movements and political power in the United States. Guilford Press.
Kristol, I. (1995). Neoconservatism: The autobiography of an idea. Elephant Paperback.
Kristol, I. (2011). The neoconservative persuasion: Selected essays 1942–2009. Basic Books.
Lacerda, M. B. (2019). O novo conservadorismo brasileiro: De Reagan a Bolsonaro. Zouk.
Machado, M. D. C. (2012). Religião, cultura e política. Religião & Sociedade, 32(2), 29–56.
Mannheim, K. (1959). Essays on sociology and social psychology. Routledge & Kegan Paul.
Mannheim, K. (1976). Ideologia e utopia. Zahar.
Mardones, J. M. (1991). Neoconservadurismo: La religión del sistema. Salterrae.
Mariano, R. (2004). Expansão pentecostal no Brasil: O caso da Igreja Universal. Estudos Avançados, 18(52), 121–138. http://www.revistas.usp.br/eav/article/view/10028
Mariano, R., & Gerardi, D. A. (2019). Eleições presidenciais na América Latina em 2018 e ativismo político de evangélicos conservadores. Revista USP, (120), 61–76. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i120p61-76
Natividade, M. (2010). Uma homossexualidade santificada? Etnografia de uma comunidade inclusiva pentecostal. Religião & Sociedade, 30(2), 90–121. https://doi.org/10.1590/S0100-85872010000200006
Nobre, M. (2020). Ponto-final: A guerra de Bolsonaro contra a democracia. Todavia.
Projeto de Lei n.º 3131/2008, de 27 de março, do Senado Federal. (2008). Altera os arts. 61, 121, 129 e 147 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, e o art. 2º da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990 – Lei dos crimes hediondos, para prever como qualificadora e circunstância que agrava a pena a hipótese de a vítima ou de o autor ser agente do Estado, no exercício de cargo ou função pública ou em decorrência da mesma [Arquivado]. Câmara dos Deputados. https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=388449
Rosas, N. (2018). Heterossexualidade e homossexualidade: Prescrições sobre o uso do corpo das mulheres evangélicas. Religião & Sociedade, 38(2), 176–197. https://doi.org/10.1590/0100-85872018v38n2cap06
Solano, E. (2018). O ódio como política: A reinvenção das direitas no Brasil. Boitempo.
Tadvald, M. (2020). Religiões evangélicas e sua presença nas mídias brasileiras: O caso da Igreja Universal. Revista Eclesiástica Brasileira, 80(315), 46–60. https://revistaeclesiasticabrasileira.itf.edu.br/reb/article/view/2021
Teixeira, J. M. (2014). Mídia e performances de gênero na Igreja Universal: O desafio Godllywood. Religião & Sociedade, 34(2), 232–256. https://doi.org/10.1590/S1984-04382014000200012
Teixeira, J. M. (2018). A conduta universal: Governo de si e políticas de gênero na Igreja Universal do Reino de Deus [Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo]. Biblioteca Digital USR. https://doi.org/10.11606/T.8.2019.tde-30052019-103135
Vaggione, J. M. (2020). A restauração legal: O neoconservadorismo e o direito na América Latina. In F. Biroli, M. D. C. Machado, & J. M. Vaggione, Gênero, neoconservadorismo e democracia (pp. 41-82). Boitempo.
Data de submissão: 06/02/2024 | Data de aceitação: 13/03/2025
Nota
Por decisão pessoal, a autora do texto escreve segundo o novo acordo ortográfico.
[1] Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Transgêneros, Travestis, Queer, Intersexo, Assexual, Pansexualidade e demais orientações sexuais e identidades de gênero.
Autores: Isabela Vicente Monti